Edição 1 623 -10/11/1999

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Desigualdade durável

"A desigualdade brasileira não é produto dos governantes. Ela faz parte da fisionomia social do Brasil, que, juntamente com os próprios governantes, resulta de nossas escolhas coletivas"

Ilustração: Pepe Casals


Às vezes, quando leio análises sobre a desigualdade, fico com a impressão de que ela é como elevador: sobe e desce, ao sabor da vontade do governo. Parece que é coisa de conjuntura e produção recente. Mas não é.

Numa sociedade em que a maioria é assalariada e a economia ainda instável, as medidas de renda podem variar no curto prazo. Mas a desigualdade real é fenômeno de longa duração, de natureza estrutural. A "desigualdade durável", como a chamou o sociólogo Charles Tilly em um ensaio muito interessante publicado no ano passado, é um fenômeno histórico e estrutural. Vem de longe e tem raízes profundas. Tem pelo menos quatro pilares no Brasil: a segregação racial, a discriminação das mulheres, os privilégios conferidos pelo Estado aos mais ricos e a inflação prolongada.

A primeira e a mais profunda raiz da desigualdade brasileira remonta ao escravismo. Após a abolição, os negros se tornaram pobres livres e nessa condição muitas gerações foram mantidas até os nossos dias. Ainda hoje, há muito mais negros que brancos pobres. E uma mulher negra, mãe, descasada tem maior probabilidade, entre todos os brasileiros, de ser a pessoa mais pobre do Brasil. O racismo, pecado original da sociedade brasileira, é o fundador de nossas desigualdades abissais. Ele confinou a maioria dos negros aos elevadores de serviço dos prédios residenciais brasileiros, deixou-os fora das escolas e das universidades.

A inferioridade das oportunidades abertas às mulheres começava com a atribuição familiar das vocações e com as escolas para meninas. As diferenças não estão no salário menor pelo mesmo trabalho. Estão no fato de que a maioria das mulheres tem o acesso negado às ocupações com melhores salários. Quando elas conseguem ter a mesma ocupação que os homens, estão mais perto do salário igual. A primeira barreira é que as aprisiona nos escalões inferiores da hierarquia ocupacional do machismo.

Os privilégios do Estado agravam as diferenças produzidas pelas duas linhas mestras da exclusão social. O Estado brasileiro sempre esteve do lado dos mais fortes. Transferiu impostos como incentivo às mais ricas famílias de industrialistas por décadas. Até hoje, financia muitas delas com dinheiro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, BNDES. Criou e perdoou dívidas de latifundiários, via Banco do Brasil, desde a sua fundação, e fracassou, na democracia e na ditadura, no projeto de reforma agrária. Mantém universidades diurnas, cujo processo seletivo dá mais chances a quem estuda nas escolas particulares. Cada centavo que o Estado gasta com algum brasileiro dos andares superiores da pirâmide social aumenta a desigualdade.

A inflação termina o serviço. Quanto mais pobre o assalariado, mais vulnerável à maquininha de remarcação de preços e ao giz implacável da tabuleta do feirante. Mais precisa abastecer-se na xepa. Ele não tem conta remunerada para lhe garantir a moeda indexada. Quanto mais tempo de inflação, quanto mais alta ela for e quanto mais a proteção da renda real depender de mecanismos de indexação, maior a desigualdade.

É óbvio que a desigualdade durável diminuiu. Quem leu matéria recente de VEJA sobre a classe média negra viu um dos indicadores mais importantes dessa melhora. Mas só as pessoas dessa nova classe média sabem quanto custou chegar lá. Muitíssimo mais do que aos brancos para alcançar a mesma posição. As mulheres açambarcaram o mercado de trabalho e vão derrubando as barreiras que as separam dos melhores cargos. Mas são poucas ainda as que se alojam nas suítes executivas das grandes empresas. A desigualdade brasileira não é produto dos governantes. Ela faz parte da fisionomia social do Brasil, que, juntamente com os próprios governantes, resulta de nossas escolhas coletivas. Está em cada ato de discriminação, racismo ou machismo. Em matérias como esta nós somos aquilo que fazemos de nós. Talvez devêssemos começar a mudar, como iníquos anônimos, dizendo: "Eu sou racista e machista e hoje ainda não discriminei..."

Sérgio Abranches é cientista político