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Tales
Alvarenga Carta ao presidente
Presidente Lula, está na hora de começar a pensar na sua reeleição
em 2006. Para isso, o senhor precisa se livrar imediatamente do velho PT. Percebi
que o senhor já começou a pensar no assunto. Por exemplo, parou
de repetir aquelas teorias bocós dos seus assessores de política
externa. Uma delas: o Brasil vai mudar a geografia do comércio mundial.
Outra: nós, brasileiros, vamos convencer os outros países a aplicar
no planeta inteiro um programa Fome Zero global. Os articuladores da política
externa brasileira devem ser os primeiros na sua lista de petistas assumidos ou
enrustidos que devem ser jogados ao mar. Li ontem que o Itamaraty escreveu um
discurso que o senhor leu na quinta-feira. No discurso escrito pelos barbudinhos,
Cuba era chamada de "nação irmã" dos latino-americanos. A
referência foi retirada do texto final. Parabéns. Vejo que nesse
setor o senhor está aprendendo depressa.
Ficarei inteiramente convencido da sua conversão ao bom senso internacional
se o Itamaraty deixar de paparicar a Argentina, que só nos devolve desaforos
e pouco nos tem a oferecer no Mercosul. Para ter liderança "regional",
uma bobagem num mundo globalizado, o Brasil trata a Argentina de forma condescendente
enquanto exibe um comportamento de criança mimada diante dos Estados Unidos,
no processo de formação da Alca, a união comercial das Américas.
O terreno
mais delicado ainda não foi atacado. É a turma que trabalha na área
social. Nesse setor, sempre conduzido por velhos petistas nada deu certo. É
incrível como os ministros não petistas Roberto Rodrigues, da Agricultura,
e Luiz Fernando Furlan, do Desenvolvimento, conseguem transmitir competência
ao seu governo pelas ações bem-sucedidas que estão empreendendo.
Sei que meu conselho é complicado na parte prática. Mas nem é
preciso trocar petistas por representantes de outras legendas. Basta se afastar
dos petistas que comprometem a eficiência do governo. Eles aparecem em vários
formatos. Há os radicais bem-intencionados que não conseguem organizar
uma lista de compras no supermercado. Há os fisiológicos, indiferentes
aos padrões de moralidade. Há os extravagantes, desaforados e emocionalmente
imaturos. Nos outros partidos, acontece a mesma coisa, mas o PT ultrapassou todos
eles na volúpia pelo mando e ainda não teve tempo de fazer uma seleção
melhor dos seus quadros governantes. Com uma turma assim, o senhor não
ganha em 2006.
Nas eleições municipais, o PT cresceu por fora e diminuiu por dentro.
Conquistou mais votos do que qualquer outro partido, mas foi surrado nas capitais
do Rio de Janeiro para baixo, a parte mais desenvolvida do Brasil. Já o
senhor diminuiu por fora, com a derrota do PT no Sudeste, e cresceu por dentro.
Na comparação com aqueles que o cercam, o senhor se destaca como
a única estrela política de primeira grandeza do seu partido. Cerque-se
de petistas inteligentes e equilibrados como o ministro Antonio Palocci, da Fazenda.
Chame um administrador experiente para cuidar de seus programas sociais, de preferência
recrutado fora dos quadros do partido. Um empresário movido pelo gosto
de gerenciar faria melhor do que um bom samaritano incompetente, como são
vários de seus ministros. Sua popularidade pessoal é muito alta
e as perspectivas de crescimento para o Brasil também são boas.
As eleições de 2006 poderão ser mais fáceis do que
está parecendo neste momento. |