Edição 1879 . 10 de novembro de 2004

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Tales Alvarenga
Carta ao presidente

Presidente Lula, está na hora de começar a pensar na sua reeleição em 2006. Para isso, o senhor precisa se livrar imediatamente do velho PT. Percebi que o senhor já começou a pensar no assunto. Por exemplo, parou de repetir aquelas teorias bocós dos seus assessores de política externa. Uma delas: o Brasil vai mudar a geografia do comércio mundial. Outra: nós, brasileiros, vamos convencer os outros países a aplicar no planeta inteiro um programa Fome Zero global. Os articuladores da política externa brasileira devem ser os primeiros na sua lista de petistas assumidos ou enrustidos que devem ser jogados ao mar. Li ontem que o Itamaraty escreveu um discurso que o senhor leu na quinta-feira. No discurso escrito pelos barbudinhos, Cuba era chamada de "nação irmã" dos latino-americanos. A referência foi retirada do texto final. Parabéns. Vejo que nesse setor o senhor está aprendendo depressa.

Ficarei inteiramente convencido da sua conversão ao bom senso internacional se o Itamaraty deixar de paparicar a Argentina, que só nos devolve desaforos e pouco nos tem a oferecer no Mercosul. Para ter liderança "regional", uma bobagem num mundo globalizado, o Brasil trata a Argentina de forma condescendente enquanto exibe um comportamento de criança mimada diante dos Estados Unidos, no processo de formação da Alca, a união comercial das Américas.

O terreno mais delicado ainda não foi atacado. É a turma que trabalha na área social. Nesse setor, sempre conduzido por velhos petistas nada deu certo. É incrível como os ministros não petistas Roberto Rodrigues, da Agricultura, e Luiz Fernando Furlan, do Desenvolvimento, conseguem transmitir competência ao seu governo pelas ações bem-sucedidas que estão empreendendo. Sei que meu conselho é complicado na parte prática. Mas nem é preciso trocar petistas por representantes de outras legendas. Basta se afastar dos petistas que comprometem a eficiência do governo. Eles aparecem em vários formatos. Há os radicais bem-intencionados que não conseguem organizar uma lista de compras no supermercado. Há os fisiológicos, indiferentes aos padrões de moralidade. Há os extravagantes, desaforados e emocionalmente imaturos. Nos outros partidos, acontece a mesma coisa, mas o PT ultrapassou todos eles na volúpia pelo mando e ainda não teve tempo de fazer uma seleção melhor dos seus quadros governantes. Com uma turma assim, o senhor não ganha em 2006.

Nas eleições municipais, o PT cresceu por fora e diminuiu por dentro. Conquistou mais votos do que qualquer outro partido, mas foi surrado nas capitais do Rio de Janeiro para baixo, a parte mais desenvolvida do Brasil. Já o senhor diminuiu por fora, com a derrota do PT no Sudeste, e cresceu por dentro. Na comparação com aqueles que o cercam, o senhor se destaca como a única estrela política de primeira grandeza do seu partido. Cerque-se de petistas inteligentes e equilibrados como o ministro Antonio Palocci, da Fazenda. Chame um administrador experiente para cuidar de seus programas sociais, de preferência recrutado fora dos quadros do partido. Um empresário movido pelo gosto de gerenciar faria melhor do que um bom samaritano incompetente, como são vários de seus ministros. Sua popularidade pessoal é muito alta e as perspectivas de crescimento para o Brasil também são boas. As eleições de 2006 poderão ser mais fáceis do que está parecendo neste momento.

 
 
 
 
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