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Ponto
de vista: Claudio
de Moura Castro
A vovó na janela
"Cada sociedade tem a educação
que quer.
A nossa é péssima, antes
de tudo, porque
não fazemos a nossa parte"
Em uma pesquisa internacional sobre aprendizado
de leitura, os resultados da Coréia pareciam errados, pois
eram excessivamente elevados. Despachou-se um emissário para
visitar o país e checar a aplicação. Era isso
mesmo. Mas, visitando uma escola, ele viu várias mulheres
do lado de fora das janelas, espiando para dentro das salas de aula.
Eram as avós dos alunos, vigiando os netos, para ver se estavam
prestando atenção nas aulas.
Ilustração Ale Setti
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A obsessão nacional que leva as avós às janelas
é a principal razão para os bons resultados da educação
em países com etnias chinesas. A qualidade do ensino é
um fator de êxito, mas, antes de tudo, é uma conseqüência
da importância fatal atribuída pelos orientais à
educação.
Foi feito um estudo sobre níveis de
stress de alunos, comparando americanos com japoneses. Verificou-se
que os americanos com notas muito altas eram mais tensos, pois não
são bem-vistos pelos colegas de escolas públicas.
Já os estressados no Japão eram os estudantes com
notas baixas, pela condenação dos pais e da sociedade.
Pesquisadores americanos foram observar o
funcionamento das casas de imigrantes orientais. Verificou-se que
os pais, ao voltar para casa, passam a comandar as operações
escolares. A mesa da sala transforma-se em área de estudo,
à qual todos se sentam, sob seu controle estrito. Os que
sabem inglês tentam ajudar os filhos. Os outros e os
analfabetos apenas vigiam. Os pais não se permitem
o luxo de outras atividades e abrem mão da TV. No Japão,
é comum as mães estudarem as matérias dos filhos,
para que possam ajudá-los em suas tarefas de casa.
Fala-se do milagre educacional coreano. Mas
fala-se pouco do esforço das famílias. Lá,
como no Japão, os cursinhos preparatórios começam
quase tão cedo quanto a escola. Os alunos mal saem da aula
e têm de mergulhar no cursinho. O que gastam as famílias
pagando professores particulares e cursinhos é o mesmo que
gasta o governo para operar todo o sistema escolar público.
Esses exemplos lançam algumas luzes
sobre o sucesso dos países do Leste Asiático em matéria
de educação. Mostram que tudo começa com o
desvelo da família e com sua crença inabalável
de que a educação é o segredo do sucesso. Países
como Coréia, Cingapura e Taiwan não gastam muito mais
do que nós em educação. A diferença
está no empenho da família, que turbina o esforço
dos filhos e força o governo a fazer sua parte.
É curioso notar que os nipo-brasileiros
são 0,5% da população de São Paulo.
Mas ocupam 15% das vagas da USP. Não obstante, seus antepassados
vieram para o Brasil praticamente analfabetos.
Muitos pais brasileiros de classe média
achincalham nossa educação. Mas seu esforço
e sacrifício pessoal tendem a ser ínfimos. Quantos
deixam de ver TV para assegurar-se de que seus pimpolhos estão
estudando? Quantos conversam freqüentemente com os filhos?
As pesquisas mostram que tais gestos têm impacto enorme sobre
o desempenho dos filhos. Se a família é a primeira
linha de educação e apoio à escola, que lições
estamos dando às famílias mais pobres?
O Ministério da Saúde da União
Soviética reclamava contra o Ministério da Educação,
pois julgava que o excesso de horas de estudo depois da escola e
nos fins de semana estava comprometendo a saúde da juventude.
Exatamente a mesma queixa foi feita na Suíça.
No Brasil, uma pesquisa recente em escolas
particulares de bom nível mostrou que os alunos do último
ano do ensino médio disseram dedicar apenas uma hora por
dia aos estudos além das aulas. Outra pesquisa indicou
que os jovens assistem diariamente a quatro horas de TV. Esses são
os alunos que dizem estar se preparando para vestibulares impossíveis.
Cada sociedade tem a educação
que quer. A nossa é péssima, antes de tudo, porque
aceitamos passivamente que assim seja, além de não
fazer nossa parte em casa. Não podemos culpar as famílias
pobres, mas e a indiferença da classe média? Está
em boa hora para um exame de consciência. Estado, escola e
professores têm sua dose de culpa. Mas não são
os únicos merecendo puxões de orelha.
Claudio de Moura Castro é
economista
(claudiodmc@attglobal.net)
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