Edição 1879 . 10 de novembro de 2004

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André Petry
Um tempo de trevas

"O que mais assusta na eleição dos EUA,
mais que o frenético belicismo de Bush,
é isto: o triunfo das trevas na terra da
democracia e da liberdade"

Esse Bush é um craque. Ele e seus estrategistas políticos sabiam que, caso conseguissem empolgar os evangélicos a ponto de fazê-los sair de casa para se enfileirar nas cabines de votação, sua reeleição estaria garantida. Como um terço do eleitorado americano é evangélico, e boa parte tem uma visão um tanto obscurantista da vida, além de achar que os democratas esnobam sua fé, Bush saiu-se muito bem. A massa mais atrasada dos Estados Unidos, aquela parcela que acredita mais no mito da virgindade de Maria do que na teoria evolucionista de Charles Darwin, entregou a Bush a missão clara de restringir o direito ao aborto, de impedir o casamento homossexual, de travar as pesquisas científicas com células-tronco, entre outros primitivismos. O que mais assusta na eleição dos Estados Unidos, mais que a alarmante dessintonia dos americanos com o resto do mundo, mais que o frenético belicismo de Bush, mais que a primazia da versão sobre o fato, é isto: o triunfo das trevas na terra da democracia e da liberdade.

Defender a legalização do aborto, ou a manutenção do aborto legal, não é pregar o triunfo da morte sobre a vida – é reconhecer o direito inalienável da mulher sobre o próprio corpo, coisa que só o medievalismo não admite. Defender a união civil entre pessoas do mesmo sexo não é difundir a promiscuidade nem atentar contra a preservação da espécie humana – é reconhecer a liberdade de cada cidadão para lidar com a própria sexualidade. Defender as pesquisas com células-tronco, essa maravilha que a ciência promete nos entregar no combate à morte e à dor, não é atentar contra o direito de embriões indefesos – é reconhecer que o universo dogmático da fé, com suas imensas palmeiras de belas crenças, não pode atrapalhar o mundo laico da ciência. A maioria do eleitorado americano, ao reeleger Bush, diz não a tudo isso e aposta no que há de mais rudimentar na sociedade. É de espantar: se queriam tanto obscurantismo nem precisavam se dar ao trabalho de reeleger Bush – bastava que se mudassem para as cavernas do Afeganistão dos talibãs.

Preocupa o fato de que, como potência única, dona de uma influência e de um poder incontrastáveis, os Estados Unidos têm força para espalhar as trevas mundo afora. Por isso, é importante saber o que se passa lá dentro. Um artigo recente de Maureen Dowd, a mais ferina e engraçada colunista do The New York Times, depois de observar a ironia de ver um presidente que decretou uma guerra com base em mentiras ser eleito por causa de seus "valores morais", conta um pouco dos novos eleitos na América:

• Tom Coburn, que ganhou a eleição como senador pelo Estado de Oklahoma dizendo que a disputa era entre o bem e o mal, defende a aplicação da pena de morte para médicos que fazem aborto.

• John Thune, conservador cristão que faz campanha contra o aborto e também foi eleito, afirma que é a favor de incluir na Constituição uma emenda que proíba o casamento homossexual e a queima da bandeira dos Estados Unidos.

• Jim DeMint, eleito senador pela Carolina do Sul, defende que homossexuais sejam proibidos de ensinar nas escolas públicas. E que a escola deveria demitir a professora que, sendo solteira, ficasse grávida de seu namorado.

É, esse Bush é um craque. Tempos difíceis vêm por aí.

 
 
 
 
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