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10 de outubro de 2007
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Ponto de vista: Lya Luft
A espera por algo
mais digno

"É hora de começar a ter vergonha de ser
esse rebanho iludido e bobo que corre atrás
de miragens e pensa que não tem o direito
de reivindicar nada melhor"

Atômica Studio


Quando esta coluna for publicada, terá sido tomada a decisão: os políticos devem ser fiéis a um partido ou prossegue a festança da troca de cargos e favores? Minha intuição me diz que vai continuar a bagunça neste grande arraial. Se a decisão for contrária, vai ser o susto de um passo para a frente e para cima. Uma esperançazinha de que a gente passe para algo mais sério e mais digno. E que a gente possa confiar – confiança, dádiva perdida há um bom tempo.

Já relatei aqui a saga de um parente que, nos tempos da minha meninice, mudou de partido uma vez (era deputado) porque na nova legenda teve a possibilidade de construir um hospital para a sua comunidade. Nunca mais confiaram nele inteiramente: era um vira-casaca. Naquele tempo, lealdade e integridade eram moeda corrente.

Lealdade era questão de vida ou morte. Primeiro, porque não havia mais que uns três partidos no lugar. Segundo, porque existia algo que é raríssimo hoje em dia. Chamava-se honra. Havia uma estrutura moral e uma ideologia por trás das atitudes pessoais e públicas. Mudar, até mesmo de escola, era raro e difícil. A gente confiava nas instituições e nas pessoas que tinham autoridade. Pois havia autoridade. Era rígido? Era. Mas andávamos menos confusos do que agora.

Não sou do tipo nostálgico. Coisas que passaram e pessoas que perdi estão comigo, nas belas memórias e no sustento emocional que ainda me dão. Cansei de dizer que uma infância amorosa e ordenada é o chão pelo qual caminharemos até a velhice. Nossa aventura existencial terá mais ou menos chances à medida que esse chão for confiável. Assim, o momento atual da nossa política, envolvendo cultura, economia, justiça e o mais, vai determinar em parte como será nosso futuro. Nós, do gari ao ministro, ajudamos a escolher como ele será.

Não acho que tudo era melhor cinqüenta anos atrás. Ao contrário, vivemos mais, podemos viver melhor, sabemos muito mais coisas. O que nos falta, o que está à beira da morte, o que nos punge e pune e nos desorienta ou desanima é a falta de uma linha de conduta, de uma idéia-mãe, de uma postura. Aliás, nos falta compostura. Como confiar em líderes que se vendem tão facilmente, que riem da confiança neles depositada pelo voto e não ligam para a respeitabilidade de seus eventuais cargos não eletivos? Essa situação se espalha de cima para baixo e do centro para todos os lados como um vírus perverso: por toda parte há mais negligência, mais indiferença, menos retidão, menos honradez, mais corrupção e mais impunidade, mais insegurança nas ruas e nas casas, menos confiança e respeito.

Somos uns eternos queixosos: a mulher é implicante, a sogra uma bruxa, o marido um chato, a professora um porre, o filho um tormento, o patrão um explorador. Ao mesmo tempo, quase nada fazemos para mudar as coisas. Ficamos resignados, de mau humor, negativos e atraindo coisas negativas. Todo mundo queixoso, mas dando de ombros: "No Brasil é assim mesmo". Estaremos realmente convencidos de que as coisas ruins são "mentira de branco", como tem afirmado, ridícula e perigosamente, mais de uma autoridade? Se for assim, é hora de começar a ter vergonha de ser brasileiro. Vergonha de ser esse rebanho iludido e bobo que acredita em contos da carochinha, corre atrás de miragens e pensa que é feliz ou que não tem o direito de reivindicar nada melhorzinho.

Nós precisaríamos de uma boa reflexão para descobrir o que queremos para nós e o que pensamos merecer. Pois, como nos relacionamentos pessoais, acredito que nossa escolha de líderes e nosso respeito por eles, nossa energia transformadora ou nossa resignação mal-humorada, nossa busca de dignidade ou nossa adaptação ao pior demonstram o que pensamos de nós mesmos.

Lya Luft é escritora


 



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