Ponto
de vista: Lya Luft
A espera por algo
mais digno
"É hora de
começar a ter vergonha de ser
esse rebanho iludido e bobo que corre atrás
de miragens e pensa que não tem o direito
de reivindicar nada melhor"
Atômica
Studio
Quando esta coluna for publicada, terá sido tomada
a decisão: os políticos devem ser fiéis
a um partido ou prossegue a festança da troca de cargos
e favores? Minha intuição me diz que vai continuar
a bagunça neste grande arraial. Se a decisão
for contrária, vai ser o susto de um passo para a frente
e para cima. Uma esperançazinha de que a gente passe
para algo mais sério e mais digno. E que a gente possa
confiar confiança, dádiva perdida há
um bom tempo.
Já relatei
aqui a saga de um parente que, nos tempos da minha meninice,
mudou de partido uma vez (era deputado) porque na nova legenda
teve a possibilidade de construir um hospital para a sua comunidade.
Nunca mais confiaram nele inteiramente: era um vira-casaca.
Naquele tempo, lealdade e integridade eram moeda corrente.
Lealdade era questão
de vida ou morte. Primeiro, porque não havia mais que
uns três partidos no lugar. Segundo, porque existia
algo que é raríssimo hoje em dia. Chamava-se
honra. Havia uma estrutura moral e uma ideologia por trás
das atitudes pessoais e públicas. Mudar, até
mesmo de escola, era raro e difícil. A gente confiava
nas instituições e nas pessoas que tinham autoridade.
Pois havia autoridade. Era rígido? Era. Mas andávamos
menos confusos do que agora.
Não sou
do tipo nostálgico. Coisas que passaram e pessoas que
perdi estão comigo, nas belas memórias e no
sustento emocional que ainda me dão. Cansei de dizer
que uma infância amorosa e ordenada é o chão
pelo qual caminharemos até a velhice. Nossa aventura
existencial terá mais ou menos chances à medida
que esse chão for confiável. Assim, o momento
atual da nossa política, envolvendo cultura, economia,
justiça e o mais, vai determinar em parte como será
nosso futuro. Nós, do gari ao ministro, ajudamos a
escolher como ele será.
Não acho
que tudo era melhor cinqüenta anos atrás. Ao contrário,
vivemos mais, podemos viver melhor, sabemos muito mais coisas.
O que nos falta, o que está à beira da morte,
o que nos punge e pune e nos desorienta ou desanima é
a falta de uma linha de conduta, de uma idéia-mãe,
de uma postura. Aliás, nos falta compostura. Como confiar
em líderes que se vendem tão facilmente, que
riem da confiança neles depositada pelo voto e não
ligam para a respeitabilidade de seus eventuais cargos não
eletivos? Essa situação se espalha de cima para
baixo e do centro para todos os lados como um vírus
perverso: por toda parte há mais negligência,
mais indiferença, menos retidão, menos honradez,
mais corrupção e mais impunidade, mais insegurança
nas ruas e nas casas, menos confiança e respeito.
Somos uns eternos
queixosos: a mulher é implicante, a sogra uma bruxa,
o marido um chato, a professora um porre, o filho um tormento,
o patrão um explorador. Ao mesmo tempo, quase nada
fazemos para mudar as coisas. Ficamos resignados, de mau humor,
negativos e atraindo coisas negativas. Todo mundo queixoso,
mas dando de ombros: "No Brasil é assim mesmo". Estaremos
realmente convencidos de que as coisas ruins são "mentira
de branco", como tem afirmado, ridícula e perigosamente,
mais de uma autoridade? Se for assim, é hora de começar
a ter vergonha de ser brasileiro. Vergonha de ser esse rebanho
iludido e bobo que acredita em contos da carochinha, corre
atrás de miragens e pensa que é feliz ou que
não tem o direito de reivindicar nada melhorzinho.
Nós precisaríamos
de uma boa reflexão para descobrir o que queremos para
nós e o que pensamos merecer. Pois, como nos relacionamentos
pessoais, acredito que nossa escolha de líderes e nosso
respeito por eles, nossa energia transformadora ou nossa resignação
mal-humorada, nossa busca de dignidade ou nossa adaptação
ao pior demonstram o que pensamos de nós mesmos.