Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo Surpresa: venceu
a civilização
A lei contra a poluição
visual pegou, em São Paulo; a chave do sucesso é
revelada no fim deste texto
Fez um ano, no
dia 26 de setembro, que a lei que bane os outdoors e regulamenta
os letreiros nas fachadas das casas comerciais foi aprovada
pela Câmara Municipal de São Paulo. No dia 1º
de janeiro fará um ano que a lei, apelidada de Lei
Cidade Limpa, entrou em vigor. Seus objetivos pareciam bons
demais para virar realidade. No entanto, decorridos só
um pouco mais de um ano da aprovação e nem dez
meses da entrada em vigor, já é evidente que
a lei pegou. É algo para festejar não apenas
no âmbito da cidade de São Paulo, nem no da mera
regulamentação da "mídia externa", como
diz o jargão do ramo. A questão tem a ver com
o uso do espaço público por excelência
que é a cidade, a civitas dos romanos, lugar
em que, como o nome indica, se exercem o civismo e a civilidade.
Visto sob esse ângulo, o sucesso da lei representa a
vitória, tão rara, no Brasil, da ordem sobre
a desordem, do bem comum sobre o interesse privado, da civilização
sobre a barbárie.
A paisagem urbana
mudou, em São Paulo. Antes da lei, a cidade constituía-se
no mais perfeito exemplo de casa-da-mãe-joana em matéria
de letreiros, faixas, painéis, cartazes e assemelhados
a pendurar-se em fachadas, muros, totens, postes ou qualquer
outra superfície disponível, fosse beira de
telhado ou gradil de viaduto. Tal barafunda era um dos signos
de seu terceiro-mundismo, principalmente o terceiro-mundismo
mental, cujo entendimento é de que o espaço
público, em vez de um espaço de todos,
é espaço de ninguém, livre para
ser apropriado. Hoje milagre! já dá
para transitar pelas ruas de São Paulo com a tranqüilidade
de que os olhos serão poupados do selvagem assédio
dos anúncios.
A vitória
da Lei Cidade Limpa lembra outra, ocorrida há dez anos,
em Brasília: a do respeito à faixa de pedestres.
Também nesse caso a questão girava em torno
do uso da civitas, aqui no aspecto da conturbada convivência
entre o automóvel e o pedestre. Diante do nível
crítico a que haviam chegado os atropelamentos na cidade,
o governo, então comandado pelo hoje senador Cristovam
Buarque, decidiu fazer valer o respeito às faixas demarcadas
para a travessia das ruas. Para começar, postou junto
a elas guardas encarregados de explicar aos motoristas que
aquele desenho no chão era sinal de que deviam parar,
para deixar passar o pedestre. Transcorridos os três
meses dessa fase "educativa", começou-se a multar.
O resultado foi que outro milagre! em Brasília
os brasileiros entenderam o que é faixa de pedestres.
Até hoje, a capital federal é um raro oásis
na selva do trânsito brasileiro, em que motoristas observam
a prioridade do pedestre nas faixas. (Não se trata
da faixa acompanhada do semáforo nesse caso,
diante da gritante presença do sinal vermelho, até
motorista brasileiro pára; a questão é
a faixa sozinha, sem semáforo junto.)
Tanto no caso de
São Paulo como no de Brasília, operou-se uma
mudança na mente das pessoas. Em Brasília, depois
da estranheza inicial, e das reclamações contra
as multas, as pessoas começaram a sentir que, pelo
menos nesse aspecto, viviam num lugar tão civilizado
quanto Genebra, e gostaram disso. A obediência à
faixa virou motivo de orgulho. Em São Paulo, a oposição
dos que gostavam dos anúncios, o ceticismo quanto à
eficácia da lei e a gritaria dos setores atingidos
foram aos poucos substituídos pela evidência
de que se operava um avanço na cidade. Segundo a arquiteta
Regina Monteiro, diretora de Meio Ambiente e Paisagem Urbana
da Emurb, a empresa da prefeitura encarregada das intervenções
urbanas, os próprios comerciantes acabaram por entender
as vantagens de exibir a arquitetura de seus prédios
em vez de tabuletas espalhafatosas e de se pôr ao largo
da disputa predatória pelo olho do transeunte.
Tanto em São
Paulo como em Brasília, no entanto, o segredo do sucesso,
o capital, o decisivo, foi uma coisa que na mitologia brasileira
dos bem-pensantes virou anátema, nos últimos
anos: a punição. Talvez em reação
às durezas da ditadura, talvez em conseqüência
das idéias libertárias dos anos 60, engendrou-se
no Brasil a fantasia de que bom é educar, não
punir. Bom seria o convencimento, nunca o castigo. Como se
uma coisa existisse sem a outra! O que move a escola são
a nota baixa e a reprovação, assim como o que
move o respeito à lei é a pena. Inventou-se
uma dicotomia (educação versus punição)
onde o que há é complementaridade. Em São
Paulo a multa para a inobservância da Lei Cidade Limpa
começa nos 10.000 reais. O valor alto foi um "ponto
estratégico" na concepção da lei, segundo
Regina Monteiro. Outro "ponto estratégico" foi a determinação
de realmente multar. De janeiro até agora, aplicaram-se
1.377 multas. Não é por terem habitantes contemplados
de nascença com superiores virtudes cívicas,
ou por contarem com a preferência dos anjos, que outros
países atingiram, em suas cidades, o grau civilizacional
que desfrutam. É por efeito de uma cultura que, ao
educar para o civismo e a civilidade, não deixa de
lado o recurso da punição.