Os punks, os góticos,
os emos admiradores de todos os gêneros de música
pop costumam se reunir em grupos com gírias, roupas
e adereços próprios. São as tais tribos
urbanas. A expressão, claro, tem sentido figurado.
Entre os fãs de heavy metal, porém, quase se
pode utilizá-la na acepção literal. "Os
metaleiros me fazem lembrar de tribos guerreiras do passado.
Mais do que a afinidade musical, eles têm uma espécie
de comprometimento ideológico", diz o antropólogo
Sam Dunn, um dos três diretores do documentário
Metal: uma Jornada pelo Mundo do Heavy Metal
(Canadá, 2005), em cartaz desde sexta-feira no país.
E talvez seja até mais apropriado dizer que os fãs
do metal formam uma seita, tal a devoção às
vezes irracional com que eles seguem os mandamentos de seus
ídolos. Em uma das cenas mais bizarras do filme, um
fã tatua o nome da banda Slayer no braço
e a tinta usada é o seu próprio sangue. Dunn
e seus dois co-diretores, Scott McFadyen e Jessica Joy Wise,
retratam o metal e seus exaltados fãs de forma generosa.
Mas são também realistas na caracterização,
digamos, psicossocial do metaleiro típico. Ele é
em geral um jovem tímido e não muito hábil
com as meninas (a seita é majoritariamente masculina).
As guitarras distorcidas, a bateria acelerada e as letras
que falam de demônios e exaltam a misoginia oferecem
uma forma de extravasar ressentimentos.
Divulgação
O
diretor Sam Dunn na Noruega: ele é antropólogo
O documentário traz entrevistas com ídolos do metal, como Tony
Iommi, guitarrista do Black Sabbath, e Bruce Dickinson, vocalista do Iron Maiden.
Alguns até demonstram lampejos de inteligência. Alice Cooper cita
os massacres comuns nas peças de Shakespeare para defender um de seus shows
que, nos anos 70, foi censurado sob a alegação de que era
"sangrento" demais. "Será que esse pessoal nunca leu Macbeth? Faz
parte do currículo escolar inglês", diz o cantor. Não se segue
daí que a mitologia pobrinha do heavy metal seja comparável aos
dramas elisabetanos. A seita metaleira, afinal, tem um uso mais notório
para a cabeça: seus integrantes a balançam em ritmo feroz durante
os shows. Felizmente, a maioria deles limita-se a soltar suas bruxas no terreno
seguro de festivais como o de Wacken, na Alemanha, exibido no documentário.
Mas há extremistas. Na Noruega, o vocalista da banda Burzum foi preso por
incendiar igrejas cristãs. O país escandinavo abriga os expoentes
do black metal, subgênero que pretende levar a sério o satanismo
que para bandas como Black Sabbath era só recurso cênico. "Satã
é liberdade", prega o líder da banda Gorgoroth, entrevistado em
Metal. É, os fiéis falam em línguas estranhas.