Um manuscrito recém-descoberto
revela uma visão muçulmana do Brasil do século XIX
Salvador
no século XIX: os escravos muçulmanos eram frouxos nas práticas religiosas
Os
relatos de viajantes estrangeiros estão entre as fontes mais preciosas
da história brasileira. Até hoje, porém, só se conheciam
as impressões de aventureiros ocidentais como o francês Jean de Lery
e o alemão Hans Staden. Acaba de ser descoberto um texto que acrescenta
uma perspectiva inédita à crônica histórica: a de um
muçulmano que percorreu o Brasil do Segundo Império. Traduzido pelo
diretor do Centro de Estudos Árabes da Universidade de São Paulo,
Paulo Daniel Farah, Deleite do Estrangeiro em Tudo o que É Espantoso
e Maravilhoso apresenta as impressões de um imã que esteve no
Brasil na segunda metade do século XIX. O livro da editora BibliAspa, que
por enquanto será distribuído apenas para bibliotecas e instituições
acadêmicas, revela um aspecto relativamente pouco discutido da vida brasileira
de então: o cotidiano dos escravos muçulmanos. "O documento tem
uma grande importância, pois permite levantar novas questões a respeito
da história social da escravidão", diz Farah, que descobriu o manuscrito
original em pesquisas numa biblioteca de Istambul.
Nascido em Bagdá e educado em Damasco, o imã Abdurrahman bin Abdullah
al-Baghdádi ad-Dimachqi aportou no Brasil em 1866, em um navio do Império
Otomano que se desviou da rota por causa de tempestades. Depois de tomar contato
com as comunidades muçulmanas locais, Al-Baghdádi resolveu permanecer
no país para divulgar o islamismo. Sua missão religiosa era, de
certo modo, secreta, já que o islamismo esteve proibido no país
até a proclamação da República. O imã reputava
frouxas as práticas dos muçulmanos brasileiros. Reclamava, por exemplo,
das mulheres que não se cobriam e dos homens que não respeitavam
os horários diários de oração. Em viagens pelo Rio
de Janeiro, pela Bahia e por Pernambuco, Al-Baghdádi computou os muçulmanos
no Brasil em pelo menos 20.000. Depois de passar por mais de vinte cidades, retornou
ao Oriente Médio em 1869. A natureza foi talvez o elemento brasileiro que
mais o fascinou seu diário de viagem documenta a existência
de pelo menos cinqüenta frutas desconhecidas em sua terra natal. "Fica nítida
no texto uma sensação da grandiosidade e do encanto diante da floresta
virgem", diz Farah. Nesse ponto, o relato do imã otomano não difere
tanto daqueles feitos por cronistas do Ocidente.
Tentações tropicais
"Nesta
cidade (Salvador) há mais muçulmanos do que no Rio de Janeiro,
embora seu anseio por instrução seja menor. (...) As mulheres deles
não se cobrem. Quando morre alguém que uma mulher ama, ela vai à
igreja e faz donativos aos monges para que leiam o Evangelho. (...) A maioria
dos filhos dos muçulmanos desta cidade se torna cristã porque, ao
tomar ciência do mundo e observar as festividades dos cristãos nas
igrejas, a série de patriarcas, párocos, as músicas e a beleza
dos movimentos, o filho vê apenas seu pai contrário àquele
modo e acredita que ele esteja mentindo. Junta-se então à multidão
e segue o caminho da corrupção e da libertinagem."