Com base em uma educação
rígida e de qualidade, surgiu
um Brasil de Primeiro Mundo a uma hora de Porto Alegre
Marcos Todeschini
Lailson
Santos
DA ROÇA
À UNIVERSIDADE A foto mostra quatro gerações
da família Krug, que fugiu da pobreza na Alemanha
e, como tantas outras, começou a vida
do zero no sul do país, no fim do século
XIX. Aos 88 anos, a maior frustração do
agricultor Avelino (de pé na foto, ao lado
de uma das filhas e da nora dela) é não
ter superado o ensino fundamental. "Meu sonho era chegar
à faculdade, mas não deu. Comecei então
a batalhar pelos meus filhos e netos." Trabalhou duro
para lhes patrocinar cadernos e livros
o que foi fundamental para que alguns deles chegassem
à universidade. Avelino nunca mexeu num computador,
mas fez questão de dar aos bisnetos um laptop,
com o qual eles brincam na foto. "A modernidade é
meio esquisita para alguém da minha idade, mas
sempre procurei olhar para a frente"
A uma hora de carro de Porto Alegre,
no Rio Grande do Sul, um punhado de cidades abriga cerca de
660.000 pessoas que desfrutam e preservam, geração
após geração, um alto padrão de
qualidade de vida. É um pedaço do Brasil onde
os índices de pobreza são tão baixos quanto
os da Inglaterra, os analfabetos são tão difíceis
de encontrar quanto no Canadá e vive-se mais tempo e
com tanta saúde quanto os idosos de um país europeu
como a Bélgica. O custo de vida ali ainda é baixo,
os serviços públicos funcionam e as pessoas não
se sentem inseguras por morar em casas sem muro. Nesse Brasil
não tem fila. Em postos públicos de saúde,
a consulta começa com o médico acionando seu computador
para levantar o histórico do paciente. Com base nele,
dá-se o atendimento de gente como o agricultor João
Roque Knost. "Só sei de fila para ser atendido pelo SUS
de ver na televisão", diz Knost. No trânsito, o
grau de civilidade dos motoristas é invejável:
apenas 2% deles cometeram infrações no ano passado.
Diz o fiscal de trânsito Roberto Gussi: "Meu trabalho
é um tédio". As crianças enfrentam turnos
escolares extensos. Elas chegam a passar oito horas por dia
em sala de aula. As notas superam em muito a média nacional
e se igualam ao desempenho registrado em países de longa
tradição de excelência escolar.
Um novo conjunto
de estatísticas ajuda a entender por que essas cidades
destoam da média brasileira em quase tudo (veja
quadro). Nenhuma das cidades desse vale
da felicidade tem mais de 500 000 habitantes. Essa vantagem
de saída ajuda a explicar a harmonia urbana. Mas ela
não é tudo. Cidades com até metade do
número de habitantes em outras regiões já
padecem de terríveis males urbanos. O que explicaria,
então, o fato de as cidades gaúchas dessa região
se saírem melhor do que as demais, mesmo quando são
colocadas lado a lado com municípios brasileiros de
mesmo tamanho e até menores? Os observadores são
unânimes em detectar que o maior diferencial desses
vinte municípios é terem atingido os mais altos
níveis de educação há muitas décadas.
Em 1920, enquanto a população brasileira se
atolava em 70% de analfabetismo, a taxa do Sul beirava zero.
Essa base educacional desencadeou naquelas cidades um ciclo
virtuoso muito semelhante aos experimentados por países
onde a educação esteve na vanguarda do desenvolvimento.
O americano Douglass North ganhou o Prêmio Nobel de
Economia em 1993 justamente por ter percebido o papel das
instituições fortes na criação
de riqueza. Diz Douglass North a VEJA: "Sociedades mais educadas
dispõem de instituições mais eficientes
e economias mais vibrantes". De um lado, pessoas com boa escolaridade
são mais propensas a respeitar contratos e o direito
à propriedade privada. De outro, é mais provável
que em uma sociedade assim apareça gente qualificada
para ocupar cargos de comando. A educação contribui
também para que o processo de escolha dos governantes
seja mais racional. Como se sabe, pessoas mais educadas são
quase sempre mais críticas e têm mais aguçado
o hábito de fiscalizar os governantes. Todos esses
fatores se combinam, em maior ou menor grau, no tecido social
do "vale".
Fotos Lailson Santos
SIM,
NÓS TEMOS TêNIS NIKE E ALL STAR Ao perder o emprego depois
de dois anos como executivo numa empresa de calçados,
o gaúcho Altamir Breda, 46 anos, não teve
medo de apostar num negócio próprio. Em
uma semana, conseguiu emprestadas as máquinas
da tal firma, que havia falido, e recrutou todos os
250 ex-funcionários. Cada um deles recebeu uma
cota da nova empresa. Num ato de ousadia, Altamir decidiu
marcar entrevista com o presidente da All Star, nos
Estados Unidos. Prometeu-lhe na ocasião maior
produtividade do que as empresas brasileiras que até
então fabricavam os tênis. Ao final, conseguiu
a exclusividade da produção no Brasil.
Tempos depois, viajou para a matriz da Nike e, de novo,
saiu como representante da marca: "Aprendi a não
ter vergonha de oferecer trabalho se é
bom, todo mundo quer"
A ênfase
dada ao estudo, a partir da qual os vinte municípios
gaúchos deslancharam, remonta ao princípio do
século XIX. Isso mesmo: mais de um século antes
de o Brasil despertar para o problema. Foi quando desembarcaram
no sul do país as primeiras levas de imigrantes alemães,
seguidos por italianos. A parte deles que escapava de disputas
ideológicas e não da miséria
já tinha nível de instrução elevado,
mas mesmo a parcela mais pobre e menos escolarizada valorizava
os estudos, tal como em seu país de origem. A religião
protestante, predominante entre os alemães, ajuda a
explicar o apreço dos imigrantes pelos livros. Já
na Alemanha do século XVII os luteranos atraíam
muita gente para suas escolas. O objetivo era alfabetizar
crianças para que pudessem ler a Bíblia,
além de lhes ensinar os rudimentos da matemática
para que não fossem roubadas pelos nobres. Desse caldo
cultural saíram os imigrantes que vieram morar no Brasil.
Por essa razão, priorizavam a construção
de escolas, que eles próprios administravam. O professor
aposentado Walter Seger, 80 anos, foi aluno de um desses colégios
comunitários: "Juntavam sessenta, setenta alunos numa
sala. Ninguém queria ficar de fora".
Além da
boa escolaridade, algo que certamente conta a favor desse
próspero Brasil é o fato de sua economia ser
menos dependente do estado que a dos demais municípios
brasileiros. Um sinal claro disso é a parcela da população
que arranja emprego no serviço público: 30%
menos do que a média nacional. O outro indicador que
permite aferir a influência do estado sobre a economia
local é o nível de empreendedorismo nessas cidades,
recentemente quantificado pela Fundação Getulio
Vargas (FGV). A pesquisa revela que em nenhum outro lugar
do país tanta gente se aventura num negócio
próprio quanto em tais municípios gaúchos:
é o caso de um de cada quinze trabalhadores de lá
um número três vezes maior do que no restante
do Brasil. É o setor privado, portanto, o principal
motor dessas economias.
ELE
FABRICA CARROCERIAS
E O QUE MAIS APARECER Aos 48 anos, Raul Randon já
era o maior fabricante de carrocerias do país.
Foi abatido pela rotina e pelo tédio e começou
a lançar-se em novos negócios. Isso resultou
num portfólio que inclui a produção
de queijos e vinhos, o cultivo de maçãs
e a criação de vacas as de Randon
são autênticas holandesas e vieram para o
Sul a bordo de dois aviões de carga que ele fretou.
Neto de um agricultor do Vêneto que chegou ao Brasil
com apenas uma enxada e duas peças de roupa, Randon
é um dos vários empresários da região
que foram do zero ao topo. Recentemente, doze deles celebraram
os velhos tempos com uma viagem à Escandinávia
em um cruzeiro cinco-estrelas. "A gente se esbarrava nas
filas dos bancos de Porto Alegre com os bolsos cheios
de promissórias", lembra Randon. Esses tempos ficaram
para trás
Parte do empreendedorismo
local remete aos primórdios da região. Ao contrário
dos colonizadores portugueses, que viviam numa economia monopolizada
pelo estado, os imigrantes que chegaram ao Sul tinham em seu
respectivo país mais chances de tentar a vida por conta
própria. E eles faziam isso. Quando vieram ao Brasil,
estavam justamente atraídos pela possibilidade de comprar
terras por bons preços e passaram aos filhos
essa espécie de DNA para os negócios. Foi o
caso dos Randon. Do avô que veio de Vicenza atracado
a uma velha enxada, Raul Randon herdou o sonho de ser dono
de empresa: "Meu avô tinha essa obsessão". Em
1950, ele apostou as economias numa oficina quando pouquíssima
gente em Caxias do Sul tinha carro. Soou loucura. Aos 78 anos,
no entanto, Randon é hoje dono da maior fábrica
de carrocerias do país. Numa recente viagem à
Escandinávia a bordo de um navio cinco-estrelas, ele
e outros onze empresários da região davam o
tom dos novos tempos. "Há quarenta anos estávamos
todos juntos numa fila de banco em Porto Alegre com os bolsos
cheios de promissórias", lembrava Randon. "Chegou a
hora de aproveitar."
Essa e outras histórias
de quem foi do zero ao topo também servem de incentivo
para mais gente ali investir em novas empresas. Eis o saldo
do empreendedorismo na região, de acordo com o levantamento
da FGV: enquanto 80% das pessoas que abrem negócios
no Brasil o fazem por falta de opção e fracassam
em dois anos, nessas vinte cidades do Sul, ao contrário,
os que prosperam são em muito maior número:
80%. Os especialistas chegaram a conclusões parecidas
sobre as razões. Em suma, tudo se passa num Brasil
em que a mão-de-obra é mais qualificada, trabalha-se
mais duro e ainda por cima o sistema produtivo é organizado
por instituições alheias ao estado. Eles estão
se referindo, entre outras, às cooperativas, que agilizam
a distribuição de matérias-primas para
a indústria local, e às associações
comerciais, que de fato se prestam ao papel de vender os produtos
da região. Diz o economista Marcelo Neri, da FGV: "Estamos
diante de um raro exemplo no Brasil de sociedade que conseguiu
articular-se de modo eficiente".
O QUE
ERA MATO VIROU UM SPA DE LUXO A carioca Deborah Villas-Bôas, 42 anos, encomendou
um estudo em seis cidades brasileiras para medir a demanda
delas por um spa cinco-estrelas. Concluiu que em Bento
Gonçalves o negócio teria mais chance
de dar certo. "As pessoas com dinheiro disseram que
adorariam gastá-lo com artigos de luxo, mas reclamavam
que as ofertas eram limitadas", diz Deborah. Acreditando
em suas conclusões, ela investiu 35 milhões
de reais para construir o hotel. Antes mesmo de inaugurá-lo,
na semana passada, já havia 300 pessoas dispostas
a visitar o spa e banhar-se em cremes franceses à
base de uva. Elas pagarão até 1 500 reais
pela estada. A empresária também sonha
atrair os turistas e de novo tem dados para acreditar
que isso vai funcionar. "Quem vem fazer negócios
na região vai gostar de um momento de relaxamento"
Uma recente pesquisa
indica que também a gestão pública nessas
vinte cidades tem sido mais eficaz do que nas demais. Isso
de acordo com um medidor de qualidade da administração
financeira dos municípios, bastante aplicado por especialistas.
Segundo esse critério, o desempenho de tais cidades
é 20% superior ao da média dos 5.500 municípios
brasileiros. Significa, entre outras coisas, que elas gastam
menos com pessoal, mantêm a dívida pública
em patamares razoáveis e têm dinheiro em caixa.
Com base nisso, o professor Luís Klering, um dos autores
do trabalho, conclui: "O levantamento deixa claro que há
menos corrupção nessas cidades gaúchas.
Um desvio maciço de verbas seria, afinal, incompatível
com os números disponíveis". Dá-se, aí,
um novo ciclo virtuoso. Lugares nos quais a corrupção
ocorre em níveis mais moderados são mais atraentes
aos investidores privados, algo também verificado pelo
economista Douglass North. Comprova-se, mais uma vez, no caso
do vale gaúcho. Foi, por exemplo, esse o ambiente que
atraiu ao Sul a francesa Doux, empresa que lidera o setor
de alimentos na Europa. Os franceses haviam cogitado estabelecer-se
em outras cinco cidades brasileiras. No fim, preferiram a
região gaúcha: "Escolhemos pelo conjunto de
bons indicadores", resume Aristides Inácio Vogt, presidente
da Doux no Brasil.
Por tudo isso,
não é exatamente uma surpresa o fato de o PIB
local crescer a um ritmo duas vezes maior que o do restante
do país e as pessoas de lá melhorarem de vida.
Os novos números mostram que 60% dos moradores dessas
cidades são de classe média, enquanto no Brasil
é o caso de apenas 20% das pessoas. O que isso quer
dizer na prática? Que os moradores de lá têm
mais dinheiro para gastar e que o tanto de gente que já
ascendeu ao topo é suficiente para justificar os primeiros
investimentos de alto luxo da região. É o caso
de um spa inaugurado em Bento Gonçalves na semana passada,
cujo diferencial são os tratamentos com cremes franceses
à base de uva. Um banho do tal produto custa cerca
de 1.500 reais. "Já tínhamos vários quartos
reservados antes da inauguração", diz a carioca
Deborah Villas-Bôas, que avaliou ser o interior gaúcho
um lugar com grande demanda para um spa como o dela. Ficaria
certamente às moscas na década de 60, quando
apenas um terço das pessoas que moravam na região
tinha luz elétrica em casa e as estradas para Porto
Alegre eram de terra batida.
"OS FRANCESES
AINDA VÃO SUSPIRAR PELO MEU VINHO" Em feiras internacionais, o gaúcho Antônio
Miolo já ouviu muita gente criticar seus vinhos.
Ele reconhece que ainda está bem atrás
dos melhores do ramo. Por essa razão, levou recentemente
a Bento Gonçalves o francês Michel Rolland,
que presta consultoria a 100 outras vinícolas
no mundo. "Vamos ver se com o toque do francês
a gente um dia aparece no ranking dos melhores", diz.
Miolo já progrediu muito. Nos anos 90, fabricava
com os irmãos vinho feito com as uvas colhidas
no quintal de casa. Levava os garrafões aos restaurantes
a bordo de um velho Fusca bege. Miolo foi o primeiro
da região a produzir vinhos em grande escala.
Hoje detém 30% do mercado nacional e exporta
para vinte países, alguns deles europeus. Ele
sonha: "Os franceses ainda vão suspirar pelo
meu vinho"
Foi nos últimos
quarenta anos, portanto, que esses vinte municípios
gaúchos se aproximaram do mundo desenvolvido
e se distanciaram da média brasileira. Eles naturalmente
passaram a atrair mais gente, seja de empresas que vêem
nesses municípios mais chances de prosperar, seja de
pessoas vindas de cidades maiores para tentar uma vida diferente
num interior promissor. Os novos migrantes, afinal, fizeram
a população local crescer 10% em cinco anos,
algo que chamou a atenção dos demógrafos.
Vêm basicamente das regiões Sul e Sudeste e têm
bom padrão de renda. O típico recém-chegado
é como o matemático Amadeu Leitão, de
36 anos, que trocou Porto Alegre por Carlos Barbosa acompanhado
da mulher, Marta, e da filha, Sofia, de .2 anos. Sonhava viver
no interior ainda que o cinema mais próximo
ficasse na cidade vizinha e não houvesse um único
shopping center no horizonte. O matemático, no entanto,
ganha bem, nunca mais se viu preso em um engarrafamento e
caminha tarde da noite sem medo de ser assaltado. Nem todas
as condições que deram origem ao vale da felicidade
gaúcho podem ser repetidas em outras regiões.
Sua tradição cultural, por exemplo, é
irrepetível. Mas há ali um punhado de lições
que ajudariam muito a harmonizar a vida urbana no Brasil caso
fossem seguidas.