Putin inventou uma forma de ficar
no poder:
depois de presidente, será primeiro-ministro
Duda Teixeira
Natalia Kolesnikova/AFP
Putin planeja ser um poder nas
sombras: tudo dentro da lei
Diante de uma Constituição
que proíbe ao presidente disputar um terceiro mandato
consecutivo, um autocrata tem várias opções.
O venezuelano Hugo Chávez, por exemplo, tenta mudar
as normas constitucionais para continuar no poder. No comando
de um país mais relevante para a comunidade internacional
e pessoalmente mais requintado, o russo Vladimir Putin aceita
as regras do jogo mas articula para eleger um presidente
dócil e continuar a dar as cartas nas sombras. Com
a popularidade em torno de 70%, é praticamente certo
que ele fará o seu sucessor. Na semana passada, sua
estratégia ficou mais evidente. Ele anunciou que será
candidato nas eleições legislativas, em dezembro,
e que espera ser nomeado primeiro-ministro pelo próximo
presidente. Se tudo der certo, Putin será candidato
a presidente novamente quatro anos mais tarde, com direito
a tentar a reeleição. Soma-se tudo isso e tem-se
duas décadas no poder.
Os planos do presidente
russo não são inteiramente conhecidos. Como
nos tempos soviéticos, na falta de informações
confiáveis dos bastidores do poder, o que os especialistas
podem fazer é observar o Kremlin e tentar entender
o quadro a partir de indícios disponíveis. O
cenário mais provável começou a se configurar
no mês passado, quando Putin nomeou para primeiro-ministro
um burocrata desconhecido, Victor Zubkov. Não chega
a ser surpreendente. Nos últimos dez anos, a Rússia
teve dez primeiros-ministros. Mas os kremlinologistas consideram
o detentor do cargo o candidato natural à Presidência.
O próprio Putin foi primeiro-ministro de Boris Yeltsin.
A estratégia
do presidente russo levanta a questão de se a Rússia
está condenada a viver sob governos autocráticos.
"Ao dominar a política dessa forma, o presidente russo
lembra o autoritarismo dos líderes soviéticos,
com uma grande diferença: eles não tinham a
popularidade que Putin tem", disse a VEJA o americano Daniel
Treisman, especialista em Rússia da Universidade da
Califórnia, nos Estados Unidos. O apoio popular pode
advir de dois fatores: primeiro, da estabilidade da economia,
com crescimento anual de quase 7% desde que Putin tomou posse,
sustentada pelo aumento no preço do petróleo
(a Rússia é o segundo maior produtor mundial);
depois, do fato de os russos cidadãos de um
país caótico gostarem de sentir que há
alguém no controle. Putin, com seu estilo mão-de-ferro,
passa essa impressão. Isso explica por que a maioria
dos russos vê como natural um presidente com planos
de se perpetuar no poder.