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10 de outubro de 2007
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Internacional
Brindar é fácil

Difícil é o bizarro ditador da Coréia do Norte
cumprir a promessa de respeitar acordos


Diogo Schelp

AFP/Pool
Roh e Kim brindam em Pyongyang: investimentos e promessas

O planeta é rico em governos encrenqueiros. Dois deles, em especial, suscitam preocupações globais: a Coréia do Norte e o Irã. Ambos são dirigidos por seitas fanatizadas – religiosa no Irã, comunista na Coréia do Norte –, ameaçam abertamente outros países de destruição e, para deixar claro que falam sério, investem pesado na pesquisa de armas nucleares. Na semana passada, a Coréia do Norte recebeu em sua capital a visita do presidente da Coréia do Sul, Roh Moo-hyun, e, por assim dizer, acenou com um lenço branco. Dado o caráter enigmático do regime de Kim Jong Il, o significado preciso do gesto repousa em terreno pantanoso. Se o ditador norte-coreano cumprir a promessa de começar a desmontar partes vitais de seu programa nuclear dentro de algumas semanas e terminar o trabalho lá pelo fim do ano, o mundo se tornará um lugar mais seguro. Se...

O encontro da semana passada foi apenas o segundo entre líderes das duas Coréias desde o fim da guerra, em 1953. Na reunião anterior, em 2000, o excêntrico ditador Kim Jong Il cobrou 100 milhões de dólares para receber o antecessor de Roh. A cúpula gerou muita euforia, mas pouco resultado prático. Apesar de coincidir com a visita do sul-coreano, o anúncio do acordo nuclear é um capítulo à parte. Ele decorre de quatro anos de movimentação diplomática do governo de George W. Bush, que nesse caso fez uma rara demonstração de flexibilidade e paciência. Pelo documento assinado com cinco países – Estados Unidos, China, Rússia, Japão e Coréia do Sul –, a Coréia do Norte compromete-se a desmantelar seus principais reatores e a permitir que técnicos americanos façam vistoria em suas instalações nucleares. Também deve informar quanto plutônio já produziu – suspeita-se que o suficiente para a fabricação de dez bombas nucleares. Tudo isso sujeito, evidentemente, aos humores do mais imprevisível dos governantes. "Ninguém entra em negociação com os norte-coreanos acreditando que eles vão cumprir aquilo que prometeram, até ver com os próprios olhos os resultados práticos de um acordo", disse a VEJA o americano Victor Cha, ex-diretor de Assuntos Asiáticos da Casa Branca e, até maio deste ano, o principal negociador dos Estados Unidos com a Coréia do Norte. Segundo Cha, o que diferencia o atual compromisso é ter sido assumido diante de outros quatro países e, principalmente, da China, que tem grande influência sobre Kim.

Desde que o grupo dos cinco países se reuniu para começar as negociações com a Coréia do Norte, em 2003, o país avançou com seu projeto nuclear às escondidas, enquanto colhia os frutos das doações internacionais de comida e remédios. A seqüência de mentiras de Kim culminou no ano passado com a Coréia do Norte fazendo o seu primeiro teste subterrâneo com uma bomba atômica. Por outro lado, se o acordo der certo, é um indicativo de que talvez se possa negociar algo parecido com o Irã. Há uma diferença que atrapalha: o país dos aiatolás é rico em petróleo. Já a Coréia do Norte é miserável, fruto do fracasso da economia comunista. Para desligar seus reatores, Kim receberá uma doação de quase 1 milhão de toneladas de petróleo. Do encontro com o presidente sul-coreano, Kim embolsou outra respeitável lista de benefícios econômicos: os sul-coreanos comprometeram-se a investir numa cidade portuária e a construir uma estrada de ferro, uma rodovia e um estaleiro na Coréia do Norte. Para Seul, investir no Norte tem dois sentidos estratégicos. O primeiro é criar laços comerciais com Kim para dissuadi-lo de um ataque militar ao Sul. O segundo é reduzir gradualmente o abismo econômico entre as duas Coréias, preparando-se para uma futura reunificação. A experiência da Alemanha mostra como é caro e penoso reconstruir uma região devastada por um regime comunista.



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