Difícil é o bizarro
ditador da Coréia do Norte
cumprir a promessa de respeitar acordos
Diogo Schelp
AFP/Pool
Roh e Kim brindam em Pyongyang:
investimentos e promessas
O planeta é
rico em governos encrenqueiros. Dois deles, em especial, suscitam
preocupações globais: a Coréia do Norte
e o Irã. Ambos são dirigidos por seitas fanatizadas
religiosa no Irã, comunista na Coréia
do Norte , ameaçam abertamente outros países
de destruição e, para deixar claro que falam
sério, investem pesado na pesquisa de armas nucleares.
Na semana passada, a Coréia do Norte recebeu em sua
capital a visita do presidente da Coréia do Sul, Roh
Moo-hyun, e, por assim dizer, acenou com um lenço branco.
Dado o caráter enigmático do regime de Kim Jong
Il, o significado preciso do gesto repousa em terreno pantanoso.
Se o ditador norte-coreano cumprir a promessa de começar
a desmontar partes vitais de seu programa nuclear dentro de
algumas semanas e terminar o trabalho lá pelo fim do
ano, o mundo se tornará um lugar mais seguro. Se...
O encontro da semana
passada foi apenas o segundo entre líderes das duas
Coréias desde o fim da guerra, em 1953. Na reunião
anterior, em 2000, o excêntrico ditador Kim Jong Il
cobrou 100 milhões de dólares para receber o
antecessor de Roh. A cúpula gerou muita euforia, mas
pouco resultado prático. Apesar de coincidir com a
visita do sul-coreano, o anúncio do acordo nuclear
é um capítulo à parte. Ele decorre de
quatro anos de movimentação diplomática
do governo de George W. Bush, que nesse caso fez uma rara
demonstração de flexibilidade e paciência.
Pelo documento assinado com cinco países Estados
Unidos, China, Rússia, Japão e Coréia
do Sul , a Coréia do Norte compromete-se a desmantelar
seus principais reatores e a permitir que técnicos
americanos façam vistoria em suas instalações
nucleares. Também deve informar quanto plutônio
já produziu suspeita-se que o suficiente para
a fabricação de dez bombas nucleares. Tudo isso
sujeito, evidentemente, aos humores do mais imprevisível
dos governantes. "Ninguém entra em negociação
com os norte-coreanos acreditando que eles vão cumprir
aquilo que prometeram, até ver com os próprios
olhos os resultados práticos de um acordo", disse a
VEJA o americano Victor Cha, ex-diretor de Assuntos Asiáticos
da Casa Branca e, até maio deste ano, o principal negociador
dos Estados Unidos com a Coréia do Norte. Segundo Cha,
o que diferencia o atual compromisso é ter sido assumido
diante de outros quatro países e, principalmente, da
China, que tem grande influência sobre Kim.
Desde que o grupo
dos cinco países se reuniu para começar as negociações
com a Coréia do Norte, em 2003, o país avançou
com seu projeto nuclear às escondidas, enquanto colhia
os frutos das doações internacionais de comida
e remédios. A seqüência de mentiras de Kim
culminou no ano passado com a Coréia do Norte fazendo
o seu primeiro teste subterrâneo com uma bomba atômica.
Por outro lado, se o acordo der certo, é um indicativo
de que talvez se possa negociar algo parecido com o Irã.
Há uma diferença que atrapalha: o país
dos aiatolás é rico em petróleo. Já
a Coréia do Norte é miserável, fruto
do fracasso da economia comunista. Para desligar seus reatores,
Kim receberá uma doação de quase 1 milhão
de toneladas de petróleo. Do encontro com o presidente
sul-coreano, Kim embolsou outra respeitável lista de
benefícios econômicos: os sul-coreanos comprometeram-se
a investir numa cidade portuária e a construir uma
estrada de ferro, uma rodovia e um estaleiro na Coréia
do Norte. Para Seul, investir no Norte tem dois sentidos estratégicos.
O primeiro é criar laços comerciais com Kim
para dissuadi-lo de um ataque militar ao Sul. O segundo é
reduzir gradualmente o abismo econômico entre as duas
Coréias, preparando-se para uma futura reunificação.
A experiência da Alemanha mostra como é caro
e penoso reconstruir uma região devastada por um regime
comunista.