A
Record dobrou seu faturamento em três anos e ultrapassou o SBT no segundo
posto de audiência. Seu dono, o bispo Edir Macedo, quer ir mais longe
- e tem os meios da Igreja Universal para isso
Nos
últimos doze anos, Edir Macedo manteve-se longe dos holofotes. Líder
da Igreja Universal do Reino de Deus e dono da Rede Record, ele se devotou a suas
atividades religiosas e empresariais da maneira mais discreta possível
desde que foi atingido por dois escândalos, em 1995. Um deles foi o "chute
na santa", a série de pontapés desferida em uma imagem de Nossa
Senhora Aparecida, pelo bispo Sérgio von Helde, num programa de sua emissora.
O outro, a divulgação de um vídeo em que ensinava aos bispos
de sua igreja, com palavras chulas, como arrecadar dinheiro dos fiéis.
Mas agora Edir Macedo está de volta à cena. E com barulho. No próximo
dia 15, lança uma biografia em que dá sua versão sobre as
polêmicas que cercam sua vida. Há dez dias, ressurgiu no horário
nobre da televisão para lançar o Record News, o primeiro canal inteiramente
noticioso da TV aberta brasileira. Diante do presidente Lula e de autoridades
como o governador de São Paulo, José Serra, ele não se limitou
a celebrar o novo empreendimento.
Fez um discurso agressivo, referindo-se à líder de audiência
do país, a Rede Globo, sem citá-la nominalmente: "Fomos injustiçados
por muitos anos por um grupo de comunicação que tinha e mantém
o monopólio da notícia no Brasil. Daí nosso desejo de dar
fim a esse monopólio". Na semana passada, a Record voltou à carga
por meio de um editorial em seu principal noticiário, acusou a rival
de ter feito gestões para impedir a inauguração da Record
News. A saída do casulo e o ânimo de briga têm razão
de ser. Além do novo canal de notícias, Macedo celebra feitos consideráveis
da Rede Record, a jóia central de seu império de comunicações.
Em agosto, a emissora tornou-se a segunda rede brasileira em ibope, superando
o SBT em todas as faixas de horário. Além disso, de três anos
para cá a Record dobrou seu faturamento publicitário que
já supera a marca de 1 bilhão de reais.
Quem olha os números de audiência nestas páginas constata
que ainda existe uma enorme distância entre a Globo e suas competidoras.
A Globo ostenta 21 pontos de ibope na média diária o triplo
da medição que a Record acaba de alcançar. Mas essa liderança
mais do que confortável não evitou que a emissora carioca reagisse
aos ataques de Macedo e da Record nos últimos dias. Ela respondeu no mesmo
tom ao editorial do Jornal da Record, afirmando numa nota que agressões
desse tipo eram de esperar vindas de "um grupo que lucra com a manipulação
da fé religiosa". Trata-se de uma resposta que aponta as circunstâncias
nebulosas que alavancaram a Record, mas não há dúvida de
que por trás dela existe outro fato: o desafio imposto pelo canal do bispo
Macedo é o mais duro que a Globo já enfrentou. O SBT nunca representou
o mesmo tipo de ameaça: 10 pontos de audiência média sempre
foram suficientes para que Silvio Santos mantivesse uma estrutura empresarial
que lhe convinha. Não é assim
com Edir Macedo. Ele é um homem muito mais ambicioso do que o dono do Baú
da Felicidade e a Record tem um papel central na realização
de suas ambições. Ao mesmo tempo, a Igreja Universal oferece à
Record recursos para prosperar: 300 milhões de reais por ano, por meio
da compra de horários na programação. Esse dinheiro, proveniente
do dízimo pago espontaneamente pelos fiéis da igreja, equivale a
um terço de tudo o que a emissora arrecada no mercado publicitário.
Trata-se de uma vantagem competitiva que nenhuma outra emissora desfruta.
Dizer que a Record só avança por causa do dinheiro da Universal
é enxergar apenas uma parte do fenômeno. Sua arrancada deveu-se a
uma mudança de filosofia ocorrida em 2004. A emissora já passara
por duas fases. Da compra por Edir Macedo, em 1989, até o triste episódio
do "chute na santa", o televangelismo dominou a programação. Na
fase seguinte, a Record assumiu um perfil popularesco, em que o sensacionalismo
do Cidade Alerta e do Programa do Ratinho era a grande atração.
A guinada que agora começa a dar frutos foi desfechada há três
anos. Por sugestão do então recém-contratado diretor comercial
Walter Zagari, a rede optou por fazer uma operação muito comum nas
televisões de todo o mundo. Decidiu-se "clonar" a programação
da Globo e ter o famoso "padrão de qualidade" da emissora do Jardim Botânico
como a meta a ser atingida.
A Record adotou
um conceito de programação semelhante ao da concorrente. Investiu
pesado na criação de um telejornal com o objetivo de emular o Jornal
Nacional. A emissora do bispo despejou 300 milhões de reais na criação
de uma indústria de novelas própria. Estava armado o bote. Antes
que ele produzisse efeitos sensíveis no ibope, a Globo percebeu que havia
uma ameaça nova no ar, algo que oferecia muito mais perigo do que o simpático
mas pouco inventivo e acomodado SBT. Em três anos, a Record tirou sessenta
jornalistas da Globo. Na área de teledramaturgia, a ousadia foi sinalizada
pela compra dos antigos estúdios do humorista Renato Aragão, no
Rio de Janeiro. A Record pagou 15 milhões de reais pelas instalações.
O RecNov, nome do complexo, simboliza essa
fase exuberante da Record. Quando foi comprado, ele contava apenas com três
galpões modestos. Hoje tem oito que, em tecnologia, pouco ficam a dever
aos da Globo. O plano é dobrar esse número nos próximos anos.
Os recursos técnicos de iluminação e de efeitos especiais
de última geração logo começaram a aparecer na tela
da Record. A atual novela das 10 da emissora, Caminhos do Coração,
é onde isso aparece de forma mais clara. As cenas de ação
e as crianças com superpoderes da trama são bastante convincentes.
A Record inflacionou o mercado de técnicos e operadores de câmera.
Muitos deles receberam ofertas salariais três vezes superiores ao que ganhavam
na Globo. Atores, atrizes e diretores globais passaram a ser assediados com propostas
financeiras tentadoras e a promessa de manutenção do padrão
estético a que foram acostumados na emissora dos Marinho.
O acirramento da competição na televisão apenas raramente
leva a melhorias na qualidade da programação. A atual investida
da Record parece ser um desses raros casos. A emissora se propõe igualar
e até superar, como dizem seus mais animados executivos, o padrão
Globo de qualidade. Não só nas novelas. A mesma filosofia deve inspirar
a área de variedades com aposta em programas populares, mas que não
apelem para o grotesco. O objetivo é atrair um público qualificado,
com poder de compra e que justifique cobrar caro pelos comerciais. O programa
matinal Hoje em Dia mistura jornalismo e entretenimento e pode ser tomado
como um exemplo dessa tentativa da Record. Decalcado de um formato da rede americana
ABC, Good Morning America, o programa tem conseguido juntar diante da tela
um porcentual de espectadores das classes A e B bastante expressivo para o horário.
Nele se projetou a modelo Ana Hickmann, que tem batido em audiência os programas
das loiras Ana Maria Braga e Xuxa razão pela qual a Globo já
estuda formas de revigorar o horário. Decidida a se profissionalizar, a
Record não mexe uma palha atualmente sem fazer pesquisas de opinião.
O Hoje em Dia foi feito sob medida para atender a um público adulto,
em um horário em que Globo e SBT oferecem apenas opções para
a criançada.
Faz parte do marketing
da emissora emergente mostrar-se independente da Igreja Universal. O vínculo
da Record com a Universal, no entanto, é indelével não apenas
na origem e na coincidência de nomes com poder em ambas as instituições.
Os cargos-chave são ocupados por bispos da Universal ou "obreiros", como
são chamados os funcionários menos graduados. Um bispo cuida da
tecnologia e outro coordena as vendas internacionais de novelas. Ofertam-se bolsas
de estudo a funcionários ligados à igreja, para que estudem administração
ou jornalismo e assim se credenciem a postos atualmente ocupados por leigos. A
maioria dos seguranças e faxineiros também é da Universal.
No topo dessa estrutura está um homem de confiança de Edir Macedo:
o bispo Honorilton Gonçalves (leia abaixo a entrevista com ele).
O lado menos visível da guerra entre
Record e Globo aflorou há dez dias, com o fogo cruzado deflagrado durante
o lançamento da Record News. Nos últimos seis meses, o presidente
Lula foi informado pelo ministro das Comunicações, Hélio
Costa, sobre o andamento das negociações para a instalação
do canal. Costa ficou em meio a duas demandas. De um lado, a Globo o fazia saber
que a abertura da emissora feriria certos aspectos da legislação,
em especial a proibição de que um mesmo grupo tenha dois canais
abertos na mesma cidade no caso, São Paulo. De outro, políticos
ligados à Universal, como o senador Marcelo Crivella e o vice-presidente
José Alencar, assediavam Costa com a informação de que existe
uma saída jurídica para o impasse. Ao final, Costa sugeriu à
Record que mudasse a composição societária da Rede Mulher,
emissora que deu lugar à Record News. Mudança feita, o canal foi
autorizado a operar.
A guerra subterrânea
entre a Record e a Globo tem a programação da Igreja Universal nas
madrugadas como ponto nevrálgico. O fato de a Record receber a injeção
de cerca de 300 milhões de reais anuais da Igreja Universal a título
de venda desse espaço é visto pela concorrente como uma vantagem
indevida. A Universal paga 140.000 reais por hora em uma faixa de horário
em que a Globo não arrecada mais do que 40.000 reais, mesmo obtendo uma
audiência quatro vezes maior do que a concorrente. A título de comparação,
a igreja de Edir Macedo paga apenas 55.000 reais por hora para a RedeTV! na compra
de horário no começo da tarde naquela emissora. Não mais
do que 5% do faturamento das TVs abertas vem do espaço comercial vendido
durante a programação da madrugada. Chama a atenção
do mercado o fato de na Record, ao contrário do que ocorre nas demais emissoras,
a madrugada produzir 30% do faturamento. Mas se existe alguma ilegalidade na transferência
de renda da igreja para a emissora ela ainda não foi argüida nos tribunais.
A Receita Federal investiga atualmente cinco igrejas evangélicas, entre
elas a Universal, pelo uso de dinheiro originário da fé (livre de
tributos) sendo investido por seus líderes em empreendimentos temporais
(tributáveis). A Receita não sabe ainda se há prejuízo
para o Fisco na transação e trata a operação como
uma "nova modalidade financeira" que deverá merecer, em breve, regras mais
explícitas de funcionamento. Seja como for, uma concorrente turbinada por
uma fonte generosa e garantida de recursos é uma novidade para a Globo.
Os espectadores ficam na torcida para que da guerra resultem opções
cada vez melhores no vídeo. A frase famosa de Newton Minow, presidente
da NAB, a Associação Nacional de Emissoras dos Estados Unidos, dita
em 1961, explica o porquê da torcida pela qualidade: "Quando a televisão
é boa, nada é melhor do que ela. Quando ela é ruim, nada
é pior".
"A GLOBO TEM MEDO"
Lailson
Santos
Honorilton:
"Nem discutimos o SBT nas reuniões"
Bispo
licenciado da Igreja Universal, o carioca Honorilton Gonçalves, 47 anos,
é vice-presidente da Record e responsável por sua parte artística.
Mas o cargo não descreve com exatidão sua importância na emissora.
Gonçalves é a voz de Edir Macedo na Record aquele que implementa
as idéias do bispo no campo da televisão. Temido pelos artistas,
ele cultiva a fama de inacessível. Deu a seguinte entrevista a VEJA:
O SENHOR ACREDITA REALMENTE QUE UM DIA
A RECORD PODE EMPARELHAR COM A GLOBO NO IBOPE? Não vamos só
emparelhar. Vamos passar a Globo. Esse dia não está longe. A Globo
tem medo.
COMO O SENHOR AVALIA
O MOMENTO ATUAL DO SBT? Não estamos preocupados com o SBT. É
um tema que a gente nem discute nas reuniões.
A RECORD PERTENCE AO LÍDER DA IGREJA UNIVERSAL, TEM BISPOS EM SEU COMANDO
E BENEFICIA-SE DA LOCAÇÃO DE HORÁRIOS NA MADRUGADA PARA A
IGREJA. MAS TEM SE ESFORÇADO PARA DESVINCULAR SUA IMAGEM DA IGREJA. POR
QUÊ? A Universal é um cliente como todos os demais. Nunca
houve a identificação entre a igreja e a TV a que as pessoas se
referem. Acredito que a sabedoria do senhor Edir Macedo em separar suas atividades
de empresário das de líder religioso deixa muita gente irada, talvez
até com certa frustração.
RECENTEMENTE, A RECORD ASSUMIU PUBLICAMENTE
A POSIÇÃO PRÓ-ABORTO QUE COINCIDE COM A VISÃO
DA UNIVERSAL SOBRE O TEMA. POR QUE ADOTAR ESSA POSIÇÃO?
Foi uma orientação direta do senhor Edir Macedo, que nos pediu que
conscientizássemos a sociedade da importância de a mulher poder decidir
sobre o seu próprio destino.
O SENHOR CONFIRMA QUE A UNIVERSAL INJETA
AO MENOS 300 MILHÕES DE REAIS POR ANO NA RECORD? A Record não
divulga o investimento dos seus clientes. Os valores da Universal são condizentes
com as práticas de mercado. Por diversas vezes, a igreja procurou a Rede
Globo e o SBT para colocar sua programação nas madrugadas dessas
emissoras. Elas recusaram a proposta, dizendo que não faz parte de sua
política de comercialização. Na Record não existe
essa barreira.
AS NOVELAS SÃO,
NO MOMENTO, AS MENINAS-DOS-OLHOS DA RECORD. VALE TANTO A PENA INVESTIR NELAS?
Por meio de pesquisas, descobrimos que não há nada como as novelas
para atrair o público. E então decidimos fazer isso da melhor forma
possível.
A RECORD ADOTOU A TÁTICA DE IMITAR O PADRÃO DE NOVELAS DA GLOBO.
ATÉ QUE PONTO ELAS SÃO UMA REFERÊNCIA? }Não
são. Tentamos fazer novelas com a receita de que as pessoas gostam. Se
a Globo também faz isso, talvez ela é que esteja imitando a gente.
ANTES DA RECORD, VÁRIAS EMISSORAS TENTARAM, EM VÃO, CRIAR INDÚSTRIAS
PRÓPRIAS DE NOVELAS. POR QUE SE DEVE ACREDITAR QUE COM A RECORD SERÁ
DIFERENTE? Porque investimos em infra-estrutura. Nossa estratégia
é de longo prazo. Estamos nos preparando com instalações,
equipamentos e profissionais.
COMO O
SENHOR AVALIA A PROGRAMAÇÃO EVANGÉLICA DAS MADRUGADAS DA
RECORD? Ela atende a seu propósito, que é mostrar que a
Igreja Universal tem a mente aberta. Está preparada para discutir qualquer
assunto: aborto, planejamento familiar, adoção de crianças
por homossexuais.
EM QUE MEDIDA O BISPO EDIR MACEDO SE ENVOLVE NA ADMINISTRAÇÃO
DA RECORD? Todo dono espera resultado. É o que ele cobra.
A VERSÃO DO BISPO MACEDO
Lumi
Zúnica
Edir
Macedo: a Universal já está em mais países que o McDonald's
Com
lançamento previsto para a segunda-feira 15, O Bispo A História
Revelada de Edir Macedo (Larousse; 275 páginas; 39,90 reais) ostenta
a maior tiragem que já se viu no mercado editorial brasileiro. São
700.000 exemplares (metade dos quais, é verdade, será distribuída
nos templos da Igreja Universal do Reino de Deus). A expectativa se justifica:
a autobiografia marca o fim de um silêncio de doze anos. Traz a versão
de Macedo para as polêmicas que cercam seu nome e a Universal, da política
à guerra com a Globo. Escrita por dois funcionários de Edir Macedo
Douglas Tavolaro, diretor de jornalismo da Record, e a repórter
Christina Lemos , a obra oferece uma visão parcial dos fatos. O Edir
Macedo que emerge das páginas é um homem obstinado e que se julga
perseguido. A exceção é o episódio do "chute na santa".
Edir faz mea-culpa pelo erro de um de seus pastores. Sobre outros assuntos, silêncio.
Ele não responde às dúvidas que pairam a respeito de sua
igreja e de seus negócios. Mas por meio do livro é possível
conhecer um pouco mais sobre sua visão de mundo, além de obter informações
sobre o império que Macedo construiu. A obra faz um inventário da
Igreja Universal no Brasil são 4.748 templos e 9.660 pastores, além
de um complexo econômico que inclui construtoras, seguradoras, uma empresa
de táxi aéreo, agências de turismo e consultorias. Mostra
também a força conquistada pela Universal no exterior. Hoje, a igreja
opera em 172 países (o McDonald's, a maior rede de fast-food do mundo,
está em 118). Conforme se verá nestas páginas, O Bispo
expõe a intimidade (e até a vida sexual) de Macedo e também
sua versão de episódios como a compra da Record.
SEXO
E CASAMENTO
"O bispo não brinca quando
o assunto é casamento. A união no altar é rigorosamente levada
a sério dentro de sua instituição religiosa. Pastores somente
crescem na hierarquia do grupo quando são bem casados. (...) Entre solteiros
também há normas. Noivas de pastores passam por uma espécie
de estágio ao conviver até doze meses com casais mais religiosos,
mais experientes. (...) Para o bispo, sexo é uma dádiva. E pilar
do casamento. Sexo não foi criado pelo diabo, mas por Deus.
É o momento de aliviar as tensões opina ele, dizendo-se radicalmente
contra o celibato. Quando faço sexo, vou para o altar mais forte."
Biô
Fernandes
Macedo
e sua mulher, Ester: visita recente à delegacia onde ele ficou preso em
1992
ATROFIA NAS MÃOS
"O quarto filho da família Macedo
Bezerra nasceu com deficiência na mão esquerda. Didi, como Edir era
chamado pelos irmãos, tem uma pequena atrofia nos dedos. Seus indicadores
são finos. Os polegares, um pouco maiores. Todos se movem pouco. Apenas
os outros três dedos têm movimentos normais. O problema é hereditário.
Sua avó, mãe de Henrique, tinha menos dedos em cada mão.
Na infância, o defeito gerou complexos de inferioridade no menino Didi.
Eu era o patinho feio da família.
Tinha a sensação de que tudo o que eu fazia dava errado: era a pipa
cortada, eram os balões que pegavam fogo. Às vezes me sentia um
estorvo lembra Edir Macedo. "
SUBMISSÃO DA MULHER
"Prevalece em
nosso universo, sim. Mas não se trata de submissão imposta, é
algo natural. O homem não é nada sem a mulher, e a mulher não
é nada sem o homem. A mulher não deve se submeter à vontade
do homem. O homem é que deve colocar-se como líder numa relação
conjugal. Esse entendimento nasce à luz da Bíblia. O homem é
a cabeça, e a mulher o corpo. Imagine um corpo sem cabeça ou vice-versa.
Impossível existir relacionamento. Na direção da Igreja Universal,
conhecemos exemplos desse tipo. Quando a mulher manda no marido, o pastor não
cresce. Ela domina e não dá certo. No meu caso, quem manda dentro
de casa é a Ester. Na igreja, sou eu. Um não pode ultrapassar o
limite do outro. Em casa, eu só mando no meu escritório, e até
lá ela mexe de vez em quando."
A
PRIMEIRA VEZ
"Edir sempre foi muito namorador.
A deficiência nas mãos nunca foi barreira para exercitar o papel
de galanteador. Apesar da timidez, tinha conversa sedutora. Vaidoso com a aparência,
dono de farta cabeleira, lisa e comprida, chegou à maioridade com muitas
namoradas. Mas teve sua primeira relação sexual dois anos antes,
aos 16, numa farra com colegas de escola no bairro do Catumbi.
Foi antes do casamento, antes da minha conversão. Foi num bordel em frente
ao colégio em que eu estudava à noite. "
CHUTE
NA SANTA
" Na hora soube que foi um
erro... Nosso maior erro. (...) O Sérgio criou um problema na igreja. Atrasou
nosso trabalho em dez anos. Ficamos parados no tempo por causa daquele chute.
Atrapalhou a igreja, atrapalhou todos os nossos projetos. Nós estaríamos
lá na frente, poderíamos ter ajudado muito mais gente se não
fosse aquele ato impensado."
Reprodução/Lumi
Zúnica
O
ataque a Nossa Senhora: o maior erro
O
DÍZIMO
"O que justifica a cobrança
do dízimo? Veja o exemplo da terra
arrendada a um trabalhador: depois de cultivada, 50% do que dela se retira é
do dono da terra, a outra metade é do arrendatário. Na igreja, os
primeiros 10% são colocados na obra de Deus. Ele é o dono da terra,
de nossa vida. Esse gesto é um sinal de consideração, de
respeito e de fé. Não é um ato abstrato, teórico.
É um compromisso que revela a fé prática. A de que Deus fica
obrigado a esse compromisso com a pessoa que deu o dízimo, fica obrigado
a cumprir a promessa que está na Bíblia: 'Trazei o dízimo
e eu abrirei as janelas do céu.' Além disso, não impomos
nada. Não cobramos o dízimo de ninguém. Apenas conscientizamos
as pessoas dessa prática. É questão de colocar Deus em primeiro
lugar na vida. (...) "
Lumi
Zúnica
Macedo
e a maquete de novo templo em São Paulo: investimento de 200 milhões
de reais
A BANCADA EVANGÉLICA
"A bancada evangélica hoje é
respeitável, embora tenha diminuído nos últimos tempos. Tem
representantes nas principais esferas do Poder Legislativo. São sete deputados
federais, dezenove deputados estaduais, 91 vereadores e um senador da República
integrantes da Universal. (...)
Os políticos são para defender a causa do Evangelho. Para fazer
frente a todos os movimentos de perseguição que enfrentamos. Edir
Macedo assegura: apesar das especulações, nunca pensou em candidatar-se
à Presidência da República.
Mas, se eu fosse presidente, este país seria outro. Meu primeiro ato seria
proibir o gasto de um centavo sem a minha autorização. Você
iria ver este país mudar. Os corruptos iriam passar fome."
O PAPA BENTO XVI
"Exclusivamente
um político. Mais nada. O que ele e o restante do clero fazem o tempo todo
é apenas ditar regras, impor normas, em sua maioria contrárias à
Bíblia. É só checar. São regras e mais regras, uma
atrás da outra. Não pode fazer sexo, não pode usar camisinha,
não pode planejar a família, a mulher não pode ter o direito
de abortar, o segundo casamento é uma praga, sexo é somente para
procriação, a Igreja Católica é a única verdadeira
igreja de Cristo, os evangélicos são uma seita e por aí vai.
Como ter uma opinião diferente?"
Cheque
a Silvio Santos: pagamento pela compra da Record
A
COMPRA DA RECORD
"A transação
era ousada. Entrou para a história como o maior negócio no setor
de comunicações do país até então. As cifras
assustaram especialistas do mercado. Não era comum uma empresa de rádio
e televisão ser vendida por aquele valor no Brasil. No total, Edir Macedo
assumiu uma dívida de 45 milhões de dólares ao adquirir a
Record. Da quantia acertada, 14 milhões deveriam ser depositados logo no
início. O restante, 31 milhões, seria pago à família
Machado de Carvalho e a Silvio Santos ao longo de dois anos."
"A
expressão do bispo Macedo muda ao recordar de uma manhã em seu escritório
na Rádio Copacabana, centro do Rio de Janeiro. Sobre sua mesa, após
horas de reuniões, os números da dívida da Record. O bispo
pediu licença, trancou-se sozinho no banheiro e rezou.
Coloquei minha cara no chão e chorei, chorei. (...) Mas
o inacreditável aconteceu meses depois, pontualmente no dia 15 de março
de 1990, com o lançamento do Plano Collor. (...) As prestações
do bispo Macedo, baseadas na cotação da moeda estrangeira, despencaram.
As dívidas da compra da Record, antes exorbitantes, acabaram pagas com
facilidade. Edir passou a zerar duas, até três prestações
em um único mês. Antes de 1992, o bispo Macedo já quitara
integralmente a dívida. Fui
salvo pelo gongo. O Plano Collor só ajudou a mim no Brasil inteiro, mais
ninguém. Sorte? Coincidência? Cada um acredite no que quiser. Eu
tenho certeza que foi Deus. "
"Perguntamos
se enfrentaria tudo novamente pela compra da Record.
Não. Sinceramente, acho que não. Hoje eu não iria agüentar.
Ninguém imagina o que passei, nem minha mulher sabe o que vivi. Edir
larga os talheres apoiados no prato, escorrega a mão direita pela cabeça
e nos mira por cima dos óculos. A
resposta ganha tom de confissão:
Quer saber a verdade? Se eu não cresse no meu Deus, teria dado um tiro
na cabeça."