Costuma-se ouvir que
as universidades públicas estão sendo "sucateadas".
Trata-se de uma comprovação cabal da injunção de goebbels
de que uma mentira repetida à exaustão torna-se verdade. Os
gastos com as universidades públicas passaram de 7
bilhões de reais em 1997 para 9,9 bilhões de reais em 2006
- em valores corrigidos pela inflação. Houve, portanto, um
significativo aumento. Onde está o sucateamento?
O
Ministério da Educação ameaçou
intervir em cursos de direito de instituições
particulares de qualidade sofrível. Causa estranheza
o fato de que o MEC volte suas atenções para
a regulamentação de um mercado que já
se auto-regulamenta e do qual os alunos têm mecanismos
de avaliação transparentes e acessíveis,
quando a área diretamente sob sua responsabilidade
as universidades federais vem apresentando resultados
sofríveis e as estaduais viraram, neste ano, palco
de invasões de alunos. O sucesso de algumas áreas
de pesquisa de poucas instituições é
insuficiente para evitar a constatação de que
o sistema de ensino superior público como um todo caminha
para a irrelevância, no momento em que o país
mais precisa dele. Há algumas semanas, a Pnad mostrou
que as universidades públicas encolheram. Agora são
responsáveis por apenas 24,5% das matrículas
do ensino superior brasileiro. Três de cada quatro universitários
brasileiros cursam instituições particulares.
A importância das públicas só cresce em
uma dimensão: o custo que elas representam para o bolso
do cidadão.
Apenas as instituições
federais consomem 9,9 bilhões de reais por ano. Com
esse orçamento, matriculam somente 600.000 alunos na
graduação. No país como um todo, há
1,4 milhão de jovens matriculados em universidades
públicas, incluindo aí as estaduais e municipais.
Adicionando os alunos das instituições particulares,
temos só 5,8 milhões de universitários
o que representa menos de um quarto da população
em idade universitária. A Coréia do Sul tem
89% de jovens matriculados no ensino superior, os Estados
Unidos, 82% e, para ficar mais perto de casa, o Chile tem
43%, a Venezuela, 39% e o Uruguai, 38%. O conhecimento se
torna uma ferramenta cada vez mais indispensável da
competitividade das nações, e o Brasil não
consegue colocar um quarto da sua população
no ensino terciário. Por que falhamos tão grotescamente?
A primeira explicação
sacada da algibeira é, como de costume, a falta de
recursos. É um acinte. O aluno das nossas universidades
públicas brasileiras é literalmente um dos mais
caros do mundo. Segundo dados da OCDE, o universitário
das nossas instituições públicas custa
o equivalente à renda anual média do brasileiro.
Nos países desenvolvidos, custa em média 40%
da renda, na Rússia, 26% e no Chile chega a 54%. Ou
seja, proporcionalmente custa 2,5 vezes mais do que o universitário
dos países desenvolvidos e de duas a quatro vezes mais
do que o de países em desenvolvimento.
Nossas universidades
custam caro também porque são cabides de emprego.
A famigerada Constituição de 1988 consagra,
em seu artigo 207, a "indissociabilidade entre ensino, pesquisa
e extensão". Em termos práticos, isso significa
que todo professor das nossas universidades públicas
é remunerado como se fosse pesquisador de tempo integral.
A pesquisa também justifica a contratação
de um número desproporcional de funcionários
mesmo que a grande maioria das universidades públicas
não realize pesquisa relevante.
O país precisa
desobstruir esse sistema. Precisamos urgentemente de um ensino
superior público bem mais barato do que o atual, para
que ele possa se multiplicar e também liberar recursos
para que União e estados invistam mais em educação
básica, que é a que realmente necessita de dinheiro.
Há uma maneira simples e óbvia de fazer isso:
cobrando mensalidades dos alunos de alta renda que hoje freqüentam
nossas universidades públicas sem pagar um tostão
muitos deles depois de ter cursado ensino pago durante
toda a sua vida escolar.
Apesar de óbvia,
a necessidade da cobrança de mensalidade dos alunos
de alto nível socioeconômico esbarra na falta
de coragem da classe política de abordar esse tema,
por sua vez causada pela oposição da sociedade.
Essa oposição é fruto de dois enganos.
Os pobres acreditam que universidade gratuita é sinal
de universidade disponível para quem não tem
dinheiro. Como vimos nas semanas de invasões de reitorias,
difundiu-se a mentalidade de que as universidades públicas
são propriedade de seus alunos, e não da sociedade
que as mantém. Hoje, nossas universidades são
estatais em sua propriedade e privadas pela estreiteza dos
interesses que defendem. Chegamos ao ponto em que cobrar mensalidade
é o caminho indispensável para socializar um
serviço hoje já pago por todos.