BUSCA

Busca avançada      
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC
ACESSO LIVRE
Conheça as seções e áreas de VEJA.com
com acesso liberado
REVISTAS
VEJA
Edição 2029

10 de outubro de 2007
ver capa
NESTA EDIÇÃO
Índice
COLUNAS
Lya Luft
Millôr
André Petry
Diogo Mainardi
Gustavo Ioschpe
Roberto Pompeu de Toledo
SEÇÕES
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA.com
Holofote
Contexto
Radar
Veja essa
Gente
Datas
Auto-retrato
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
Publicidade
 

Brasil
Laranjada em Roraima

Em um negócio para lá de esquisito, o controle
de uma rádio e de uma TV em Boa Vista passa
para as mãos do cunhado do senador Romero Jucá


Marcelo Carneiro

Romero Jucá, atual líder do governo no Senado, está na vida pública desde a década de 80. Nesse período, sua carreira foi marcada por duas características: a freqüência com que troca de partido – já foi do PFL, do PSDB e hoje está no PMDB – e a incrível capacidade de envolver-se em negócios mal explicados. Em especial, sociedades em emissoras de rádio e televisão. Já em 1999, então vice-líder tucano no Congresso, ele foi acusado de ter se apropriado de um canal, a TV Caburaí, dado pelo governo federal a uma fundação cultural de Roraima. A reportagem que trouxe o assunto à tona, publicada por VEJA, é um fantasma que até hoje assombra o senador. Volta e meia Jucá se vê cobrado a dar explicações sobre essa história. Em 2005, em uma nova acusação, descobriu-se que a tal fundação arrendou a emissora para uma produtora controlada pelos filhos de Jucá. O senador, porém, continua a negar que tenha qualquer vínculo com o canal. Agora, o líder do governo Lula está às voltas com uma nova suspeita: a de que, além de continuar à frente da Caburaí, é dono de outros dois veículos de comunicação em Roraima: a TV Imperial e a Rádio Equatorial, ambas adquiridas por meio de laranjas. O autor da acusação é um desafeto político, o deputado federal Marcio Junqueira (DEM-RR). Só isso, porém, não implica que a acusação deva ser descartada como leviana. Os elementos que tornam a acusação do adversário de Jucá passível de investigação estão nos parágrafos seguintes.

No papel, a TV Imperial e a Rádio Equatorial estão hoje sob o controle formal de Antonio Emílio Saenz Surita, apresentador do programa Pânico na TV. Surita é cunhado de Jucá – sua irmã, Tereza, é casada com o senador. A entrada do apresentador no negócio se deu em 8 de julho de 2005. Nesse dia, o médico Juan Sragowicz, residente nos Estados Unidos e detentor de mais de 90% das cotas das duas emissoras, lavrou no Consulado do Brasil em Miami uma procuração dando plenos poderes a Surita. Pelo documento, o cunhado de Jucá pode "vender, comprar, fazer cessão" ou até mesmo "doar" todas as cotas que pertencem a Sragowicz. Quatro dias depois de lavrada essa procuração, Surita assinou um documento em que repassa a administração da TV Imperial e da Rádio Equatorial ao advogado Alexandre Matias Morris. A entrada de Morris no negócio chama atenção por uma peculiaridade: ele também é o administrador da TV Caburaí – aquela que todo mundo em Roraima diz pertencer a Romero Jucá, mas o senador jura que não é dele. A Caburaí e a Imperial são, respectivamente, retransmissoras dos canais Bandeirantes e Record em Boa Vista, a capital do estado. Isso quer dizer que Morris consegue dar expediente em duas emissoras que disputam audiência e publicidade na mesma cidade. Há outro dado intrigante no currículo de Morris. Por um brevíssimo período (entre fevereiro e março de 2004), o advogado ocupou um cargo no gabinete de Jucá no Senado.

Foto Edmilson Junior
Fachada da TV Caburaí: em 1999, VEJA já tinha relatado operações irregulares que levaram Jucá a ter controle sobre outra emissora

O deputado Marcio Junqueira, que apresentava o principal programa da Equatorial – espaço sempre preenchido com críticas ao senador e à sua mulher, então prefeita de Boa Vista –, diz que a rádio e a TV foram vendidas a Jucá por 600.000 reais. Junqueira relata que a negociação teve lugar em um hotel de São Paulo. Teriam participado do encontro o próprio Jucá e um intermediário de Juan Sragowicz. "O Romero tomou o controle da rádio e a primeira coisa que fez foi impedir a minha entrada na sede da emissora", diz Junqueira, que move na Justiça uma ação contra a transferência de controle da Equatorial. Em 2005, a rádio já tinha um caminhão de dívidas com o governo federal. Hoje, os débitos chegam a 900.000 reais. Se o que Junqueira afirma for verdade, Jucá, que na ocasião era ministro da Previdência, tornou-se sócio oculto de uma rádio que deve quase 1 milhão de reais à União.

VEJA apresentou a documentação das duas emissoras e declarações de renda do senador a dois advogados especializados em legislação de telecomunicações. Na opinião desses especialistas, há duas razões para que Jucá não tenha registrado em seu próprio nome as empresas.

Ana Araujo
O denunciante: Marcio Junqueira diz que Jucá o afastou da rádio

• A atual lei de telecomunicações impede que parlamentares tenham a direção ou a gerência de empresas de radiodifusão, caso da Equatorial. Como o negócio envolveu 90% das ações da rádio, o poder de gerência – e ingerência – do sócio majoritário é evidente. Daí a necessidade de apelar para o uso de laranjas.

• Em 2006, quando concorreu ao governo de Roraima, Jucá apresentou uma declaração de bens em que seu patrimônio era de pouco mais de 512.000 reais. Já que, de acordo com o deputado Marcio Junqueira, as emissoras foram compradas por 600 000 reais, o senador não teria como explicar à Receita Federal de onde saíram os recursos para a transação.

Há, ainda, um terceiro problema. A transferência de controle acionário não foi comunicada previamente ao Ministério das Comunicações, como prevê a legislação. Procurado por VEJA, Surita diz que isso não ocorreu porque ele não é o dono da rádio. "Eu estava interessado em comprá-la e recebi a procuração para que pudesse tomar pé da situação da empresa. Como ela tem muitas dívidas, não concretizei o negócio", afirma Surita. O apresentador do Pânico só não consegue explicar por que a procuração continua em vigor. E por que o administrador nomeado por ele permanece como manda-chuva da emissora. Jucá, por meio da assessoria de imprensa, diz que apenas apresentou seu cunhado a Juan Sragowicz. Também afirma que não é dono de nenhuma emissora em Boa Vista. É impressionante. Só falta dizer que a dona das TVs e da rádio é a mulher-samambaia, colega de Surita no Pânico.

 
Fotos Adriano Machado/AE; Edmilson Junior e Maurício Piffer/AE
Jucá (à esq.) e a sede da Rádio Equatorial: depois que o controle da emissora e da TV Imperial foi para o cunhadão Surita, este deu poderes de administrador a um ex-assessor do senador




  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |