Em um negócio para lá
de esquisito, o controle
de uma rádio e de uma TV em Boa Vista passa
para as mãos do cunhado do senador Romero Jucá
Marcelo Carneiro
Romero
Jucá, atual líder do governo no Senado, está
na vida pública desde a década de 80. Nesse
período, sua carreira foi marcada por duas características:
a freqüência com que troca de partido já
foi do PFL, do PSDB e hoje está no PMDB e a
incrível capacidade de envolver-se em negócios
mal explicados. Em especial, sociedades em emissoras de rádio
e televisão. Já em 1999, então vice-líder
tucano no Congresso, ele foi acusado de ter se apropriado
de um canal, a TV Caburaí, dado pelo governo federal
a uma fundação cultural de Roraima. A reportagem
que trouxe o assunto à tona, publicada por VEJA, é
um fantasma que até hoje assombra o senador. Volta
e meia Jucá se vê cobrado a dar explicações
sobre essa história. Em 2005, em uma nova acusação,
descobriu-se que a tal fundação arrendou a emissora
para uma produtora controlada pelos filhos de Jucá.
O senador, porém, continua a negar que tenha qualquer
vínculo com o canal. Agora, o líder do governo
Lula está às voltas com uma nova suspeita: a
de que, além de continuar à frente da Caburaí,
é dono de outros dois veículos de comunicação
em Roraima: a TV Imperial e a Rádio Equatorial, ambas
adquiridas por meio de laranjas. O autor da acusação
é um desafeto político, o deputado federal Marcio
Junqueira (DEM-RR). Só isso, porém, não
implica que a acusação deva ser descartada como
leviana. Os elementos que tornam a acusação
do adversário de Jucá passível de investigação
estão nos parágrafos seguintes.
No papel, a TV
Imperial e a Rádio Equatorial estão hoje sob
o controle formal de Antonio Emílio Saenz Surita, apresentador
do programa Pânico na TV. Surita é cunhado
de Jucá sua irmã, Tereza, é casada
com o senador. A entrada do apresentador no negócio
se deu em 8 de julho de 2005. Nesse dia, o médico Juan
Sragowicz, residente nos Estados Unidos e detentor de mais
de 90% das cotas das duas emissoras, lavrou no Consulado do
Brasil em Miami uma procuração dando plenos
poderes a Surita. Pelo documento, o cunhado de Jucá
pode "vender, comprar, fazer cessão" ou até
mesmo "doar" todas as cotas que pertencem a Sragowicz. Quatro
dias depois de lavrada essa procuração, Surita
assinou um documento em que repassa a administração
da TV Imperial e da Rádio Equatorial ao advogado Alexandre
Matias Morris. A entrada de Morris no negócio chama
atenção por uma peculiaridade: ele também
é o administrador da TV Caburaí aquela
que todo mundo em Roraima diz pertencer a Romero Jucá,
mas o senador jura que não é dele. A Caburaí
e a Imperial são, respectivamente, retransmissoras
dos canais Bandeirantes e Record em Boa Vista, a capital do
estado. Isso quer dizer que Morris consegue dar expediente
em duas emissoras que disputam audiência e publicidade
na mesma cidade. Há outro dado intrigante no currículo
de Morris. Por um brevíssimo período (entre
fevereiro e março de 2004), o advogado ocupou um cargo
no gabinete de Jucá no Senado.
Foto Edmilson Junior
Fachada da TV Caburaí: em 1999,
VEJA já tinha relatado operações irregulares que levaram
Jucá a ter controle sobre outra emissora
O deputado Marcio
Junqueira, que apresentava o principal programa da Equatorial
espaço sempre preenchido com críticas
ao senador e à sua mulher, então prefeita de
Boa Vista , diz que a rádio e a TV foram vendidas
a Jucá por 600.000 reais. Junqueira relata que a negociação
teve lugar em um hotel de São Paulo. Teriam participado
do encontro o próprio Jucá e um intermediário
de Juan Sragowicz. "O Romero tomou o controle da rádio
e a primeira coisa que fez foi impedir a minha entrada na
sede da emissora", diz Junqueira, que move na Justiça
uma ação contra a transferência de controle
da Equatorial. Em 2005, a rádio já tinha um
caminhão de dívidas com o governo federal. Hoje,
os débitos chegam a 900.000 reais. Se o que Junqueira
afirma for verdade, Jucá, que na ocasião era
ministro da Previdência, tornou-se sócio oculto
de uma rádio que deve quase 1 milhão de reais
à União.
VEJA apresentou
a documentação das duas emissoras e declarações
de renda do senador a dois advogados especializados em legislação
de telecomunicações. Na opinião desses
especialistas, há duas razões para que Jucá
não tenha registrado em seu próprio nome as
empresas.
Ana Araujo
O denunciante: Marcio Junqueira
diz que Jucá o afastou da rádio
A atual lei
de telecomunicações impede que parlamentares
tenham a direção ou a gerência de empresas
de radiodifusão, caso da Equatorial. Como o negócio
envolveu 90% das ações da rádio, o poder
de gerência e ingerência do sócio
majoritário é evidente. Daí a necessidade
de apelar para o uso de laranjas.
Em 2006,
quando concorreu ao governo de Roraima, Jucá apresentou
uma declaração de bens em que seu patrimônio
era de pouco mais de 512.000 reais. Já que, de acordo
com o deputado Marcio Junqueira, as emissoras foram compradas
por 600 000 reais, o senador não teria como explicar
à Receita Federal de onde saíram os recursos
para a transação.
Há, ainda,
um terceiro problema. A transferência de controle acionário
não foi comunicada previamente ao Ministério
das Comunicações, como prevê a legislação.
Procurado por VEJA, Surita diz que isso não ocorreu
porque ele não é o dono da rádio. "Eu
estava interessado em comprá-la e recebi a procuração
para que pudesse tomar pé da situação
da empresa. Como ela tem muitas dívidas, não
concretizei o negócio", afirma Surita. O apresentador
do Pânico só não consegue explicar
por que a procuração continua em vigor. E por
que o administrador nomeado por ele permanece como manda-chuva
da emissora. Jucá, por meio da assessoria de imprensa,
diz que apenas apresentou seu cunhado a Juan Sragowicz. Também
afirma que não é dono de nenhuma emissora em
Boa Vista. É impressionante. Só falta dizer
que a dona das TVs e da rádio é a mulher-samambaia,
colega de Surita no Pânico.
Fotos Adriano Machado/AE;
Edmilson Junior e Maurício Piffer/AE
Jucá (à esq.) e a sede
da Rádio Equatorial: depois que o controle da emissora
e da TV Imperial foi para o cunhadão Surita, este deu
poderes de administrador a um ex-assessor do senador