O senador manda espionar
a vida
de adversários do PSDB e do DEM
Policarpo Junior e Otávio Cabral
Fotos André Dusek/AE
Sob risco de perder o mandato,
Renan apela para bruxarias
Para salvar seu
mandato, o senador Renan Calheiros já usou a tática
de constranger e ameaçar colegas do Parlamento com
a divulgação de informações supostamente
comprometedoras. Fez isso com dois respeitáveis senadores,
Pedro Simon e Jefferson Peres, transformando-os em alvos de
boatos sórdidos. Repetiu a fórmula com os petistas
Tião Viana e Ideli Salvatti, aliados fiéis que
pensaram em se rebelar contra a permanência dele no
cargo e acabaram acuados por denúncias de irregularidades.
Às vésperas de enfrentar três outros processos
no Conselho de Ética, Renan Calheiros é flagrado
em outro movimento clandestino e espúrio: a espionagem
de senadores. VEJA apurou que Calheiros montou um grupo de
arapongas e advogados para bisbilhotar a vida de seus adversários.
Na mira estão dois dos principais oponentes do presidente
do Congresso: o tucano Marconi Perillo e o democrata Demostenes
Torres. Ambos tiveram a vida privada devassada nos últimos
três meses. A ousadia chegou ao ponto de, há
duas semanas, os arapongas planejarem instalar câmeras
de vídeo em um hangar de táxi aéreo no
Aeroporto de Goiânia para filmar os embarques e os desembarques
dos parlamentares. O objetivo era tentar flagrar os senadores
em alguma atividade ilegal para depois chantageá-los
em troca de apoio. O plano só não foi em frente
porque o dono do hangar não concordou em participar
da operação.
Fotos José Varella/CB
e Paulo Rezende
Francisco Escórcio: o assessor
de Renan tentou instalar câmeras em hangar do aeroporto
de Goiânia
O grupo de espionagem
é comandado pelo ex-senador Francisco Escórcio,
amigo, correligionário e assessor direto de Renan Calheiros.
No dia 24 passado, o assessor se reuniu em Goiânia com
os advogados Heli Dourado e Wilson Azevedo. Discutiram uma
estratégia para criar uma situação que
comprometesse os senadores Perillo e Demostenes. "Vamos ter
de estourá-los", sentenciou Escórcio. Um dos
advogados disse que a melhor maneira de constranger os senadores
oposicionistas era colher imagens deles embarcando em jatos
particulares pertencentes a empresários da região.
Um dos presentes lembrou que os vôos eram feitos a partir
do hangar da empresa Voar, cujo proprietário é
o ex-deputado Pedro Abrão, um ex-peemedebista. Na mesma
noite, Abrão foi convidado a ir a um escritório
no centro de Goiânia. Lá, na presença
dos advogados, ouviu a proposta diretamente de Francisco Escórcio:
"Nós precisamos de sua ajuda para resolver um problema
para Renan", disse Escórcio. Os dois já se conheciam
do Congresso Nacional. "Queremos instalar câmeras de
vídeo para gravar Perillo e Demostenes usando seus
aviões." E completou: "Quero ver a cara deles depois
disso, se eles (os senadores) vão continuar
nos incomodando". Abrão ouviu a proposta e ficou de
estudar. Depois, preocupado, narrou o estranho encontro a
um amigo.
Vivi Zanatta/AE
Marconi Perillo: virou alvo
depois de defender o voto aberto
Ex-governador de Goiás, Perillo está em seu
primeiro mandato. Na reta final do processo que investigava
o envolvimento de Calheiros com o lobista de empreiteira,
foi Perillo que apresentou a tese vencedora de que o voto
no Conselho de Ética deveria ser aberto. Já
Demostenes Torres, ex-promotor público, é hoje
um dos mais destacados parlamentares da oposição.
Não é a primeira vez que ele, titular do Conselho
de Ética, é vítima de arapongas. Em junho
passado, logo depois das primeiras denúncias contra
Calheiros, Demostenes foi um dos primeiros a defender com
veemência a instalação do processo por
quebra de decoro. Os arapongas de Renan passaram a investigá-lo
desde então. Sem cerimônia, estiveram na cidade
de Rio Verde, no interior de Goiás, onde moram pessoas
próximas a Demostenes. Lá, procuraram amigos
e amigas que já fizeram parte da intimidade do senador.
Uma dessas pessoas chegou a receber uma oferta para gravar
um depoimento. Os arapongas se apresentavam como advogados,
tinham sotaque carregado e, ao que parece, estavam muito interessados
em fazer futrica. Não escondiam que o objetivo era
intimidar o senador.
Na semana passada,
Demostenes Torres e Marconi Perillo foram procurados por amigos
em comum e avisados da trama dos arapongas de Renan. Os senadores
se reuniram na segunda-feira no gabinete do presidente do
Tribunal de Contas de Goiás, onde chegaram a discutir
a possibilidade de procurar a polícia para tentar flagrar
os arapongas em ação. "Essa história
é muito grave e, se confirmada, vai ser alvo de uma
nova representação do meu partido contra o senador
Renan Calheiros", disse o tucano Marconi Perillo. "Se alguém
quiser saber os meus itinerários, basta me perguntar.
Tenho todos os comprovantes de vôos e os respectivos
pagamentos." Demostenes Torres disse que vai solicitar uma
reunião extraordinária das lideranças
do DEM para decidir quais as providências que serão
tomadas contra Calheiros. "É intolerável sob
qualquer critério que o presidente utilize a estrutura
funcional do Congresso para cometer crimes", afirma Demóstenes.
Cristiano Mariz
Demostenes Torres: o líder da
oposição teve a vida bisbilhotada
Francisco Escórcio
foi contratado em novembro do ano passado pelo senador Calheiros
como assessor técnico da Presidência. Antes,
trabalhou com o ex-ministro José Dirceu no cargo de
assessor especial da Casa Civil. Despacha em uma sala a poucos
metros de Renan e ganha um salário de 9.301 reais.
O que ele faz? "Faço o que Renan me mandar fazer",
disse a VEJA. Escórcio, o advogado Heli Dourado e seu
sócio Wilson Azevedo foram ouvidos simultaneamente
sobre o plano para bisbilhotar os senadores. Escórcio
afirmou que esteve em Goiânia no dia 24 "para pegar
umas fotos", que se reuniu com o advogado Heli Dourado e "outras
pessoas" num escritório e que, por acaso, o empresário
Pedro Abrão "apareceu por lá e eu até
disse que ele estava bem magrinho". Heli Dourado confirma
que esteve reunido com Escórcio "para discutir um processo
judicial de interesse da família Sarney" e garante
que "Pedro Abrão não participou da conversa".
Wilson Azevedo, seu sócio, diz que "esteve com Escórcio
há uns dez dias num encontro informal" e que não
vê Pedro Abrão "há uns seis anos". Pedro
Abrão, por sua vez, confirma que os senadores usam
seu hangar, que conhece os personagens citados, mas que não
participou de nenhuma reunião. O empresário,
que já pesou mais de 120 quilos, fez uma cirurgia de
redução de estômago e está bem
magrinho, como disse Escórcio. Renan Calheiros não
quis falar.