Quando, nos isteitis, houve
o escândalo de
Watergate, os engraçadinhos perguntavam:
"Você compraria um carro usado do Nixon?".
Pois, olhem, eu, do Renan Calheiros,
não compraria nem um carro novo.
OLHAÍ, MACHADO, ESTA, SIM,
É A GLÓRIA QUE FICA, ELEVA, HONRA E CONSOLA.
Conheci Vinicius
de Moraes a vida toda. Ele nasceu no dia da inauguração
do bondinho do Pão de Açúcar.
Eu, quando nasci,
Lindbergh estava se preparando pra cruzar o Atlântico
Norte, daqui pra lá. Gago Coutinho tentava fazer
o mesmo no Atlântico Sul. De lá pra cá.
Depois estivemos
juntos, Vinicius e eu, esqueçam Lindbergh e Gago Coutinho,
dentro de uma cabine de transmissões telefônicas
internacionais Radional com menos de um metro
quadrado, os dois apertando a chilena Gabriela Mistral no
momento em que ela agradecia para o mundo o prêmio Nobel.
Depois estivemos
em Londres, ou no Lido de Veneza e, muito mais tarde, quando
ele "morava" em Arembepe. Mas, presos em missões, estivemos
juntos também, durante mais ou menos três meses,
em Hollywood, Los Angeles (Santa Maria Porciúncula
de), onde ele era cônsul. Consumimos juntos César
Lattes, que tinha acabado de descobrir o méson pi,
e convivemos algumas vezes com Carmem Miranda, que jogava
canastra comigo e seu marido, David Sebastian. Vinicius
me levava a festinhas e a ver Nat King Cole, tocando
piano num boteco, sem o trio.
Só agora
me mandam este poema que Vinicius me dedicou, vejam só!,
e que não resisto a reproduzir.
Obrigado, Vinicius.
A você,
meu caro Millôr Fernandes, (Poeta íntimo,
homem triste, grande humorista, mais conhecido por Vão
Gogo, às vezes) A você, que me pede o poema da minha tão
sonhada volta Ao Rio, Eu direi humildemente: faço. Não é fácil,
mas faço. Sem dúvida melhor fora Sair por aí transpirando
e sonâmbulo, os braços estendidos A todos os azuis, os pés
indiferentes a todos os abismos, a aspirar, de olhos cerrados,
Os úmidos perfumes
desta cidade de infinitas paciências E fragrâncias. Entretanto Coisa grave é um
poema, e eu me dedicarei provisoriamente A tão duro dever.
Nada lhe prometo, porém, Nada de bom, de vez que
ora sou apenas o filho pródigo e Sinto-me inda obnubilado De beleza. Ah, nada mais doce que essa
sensação de pousar a cabeça No colo morno da pátria E deixar-se estar olhando
o céu como no Arpoador, Onde se morre a cada instante
ante o dilema Natureza e mulher. Que coisa,
Millôr Fernandes, A mulher no Rio! Quantas
cortinas De veludo nos seus olhos,
e com que maciez são abertas Até a vida! Que delícia,
Millôr Fernandes! Que grande delícia!
A ela, antes e primeiro salve! E salve lindo! Por ela tudo:
poema, alaúzas, ombro-armas, Mortes, ressurreições.