O apresentador Luciano
Huck diz que as reações
negativas a seu desabafo depois de um assalto
partiram de quem não conhece a periferia
Ronaldo França
Oscar Cabral
"Se chegarmos ao nível em
que se tenha de andar de carro
blindado para ir à padaria,
alguma coisa está errada.
Resolvi não me esconder mais"
O
apresentador Luciano Huck foi vítima de dois ataques
em menos de uma semana. O primeiro, um assalto em São
Paulo, no qual dois bandidos levaram seu relógio. O
segundo golpe deu-se em seguida à publicação
de um artigo, na Folha de S.Paulo, em que procurou
fazer um desabafo sobre a violência que sofrera. As
seções de cartas dos jornais e comentários
postados nos blogs receberam, nos dias subseqüentes,
insultos e críticas coléricas ao apresentador.
O tom geral das manifestações era o de que,
rico e famoso, Huck tinha mais é que se resignar em
ser vítima de bandidos. Ora, isso é uma distorção
mental típica da burguesia pseudo-esquerdista brasileira.
Como é sobejamente sabido, os pobres abominam ladrões
e assaltantes. "Vou à periferia toda semana. No país
inteiro. Conheço muito melhor a realidade brasileira
do que os que me criticaram", diz Huck, 36 anos, um dos profissionais
de televisão mais bem-sucedidos do país.
Veja
Como disseram nas cartas aos jornais e nos blogs,
gente da elite assaltada tem mesmo é que sofrer calada?
Huck No Brasil
parece que virou crime você trabalhar honestamente,
ganhar dinheiro e gastar como quiser. Não sofro preconceito.
Acho que é porque sou a mesma pessoa na minha casa,
na Globo, no Complexo do Alemão. Falo igual e me visto
igual. Não troco de roupa para ir a favelas. Mas deixa
eu dizer o que penso da elite. Nela tem gente de todos os
tipos. Tem pessoas ótimas, que passam seus dias tentando
ajudar os outros. Mas também tem gente que não
faz nada para ninguém, que só vê o seu
lado. Tem de tudo. Não dá para rotular e dizer
que se é elite é bom ou é ruim. É
como na polícia. Tem um enorme contingente de policiais
bons. E garanto que eles são muitíssimo mais
numerosos. Agora, tem gente ruim, e não são
poucos. O problema é que o que eles fazem aparece mais.
Veja
Como foi exatamente o assalto? Huck Foi um assalto-padrão,
que ocorre nas esquinas de São Paulo todos os dias.
Durou no máximo quinze segundos. Eu saía de
um restaurante com um amigo. Estava no banco do carona. Os
bandidos chegaram de moto e bateram no vidro com o revólver.
Abri a janela uns 15 centímetros. Eles pediram o relógio.
Eu entreguei. Depois, pediram o do meu amigo, que também
entregou. Eles foram embora. Não deu para ver como
eram, porque estavam de capacete. Provavelmente me seguiram
desde o restaurante, porque sabiam que eu estava com um Rolex.
Só pediram isso. Tem uma máfia especializada
em roubo de relógio em São Paulo. São
profissionais.
Veja
O que você sentiu depois do assalto? Huck As pernas começaram
a tremer e fiquei muito nervoso. Depois, veio a raiva e, por
fim, o sentimento de impotência. A sensação
é a de que não há nada que se possa fazer.
Eu os vi indo embora e pensei: não é possível
que ninguém vá fazer nada. Não acho que
a polícia de São Paulo tenha de se mobilizar
para ir atrás do meu relógio. Ela tem preocupações
mais importantes. O que se tem de fazer é trabalhar
para não deixar isso acontecer. Mas isso já
passou. Não foi nada tão extraordinário,
nem a primeira vez que fui assaltado.
Veja
Não? Já passou por isso antes? Huck Muitas vezes.
Um dia estava com minha mãe dentro de uma sapataria
e fomos assaltados. Eu tinha 12 anos. Já roubaram minha
casa duas vezes em São Paulo. Também entraram
na minha casa de praia, em Angra dos Reis. Fui vítima
de um seqüestro-relâmpago. Então, está
claro que esse assalto não foi um trauma especial na
minha vida. Nada proporcional à repercussão
que meu artigo provocou. Como os nervos estão à
flor da pele, meu artigo foi como pingar uma gota de limão
em uma ferida. Arde o corpo inteiro.
Veja
O que mais o incomodou no que leu nas cartas publicadas
pelos jornais e nos comentários dos blogs? Huck Vou lhe
falar uma coisa: as críticas não me incomodaram
nem um pouco. A crítica fundamentada faz refletir.
O que se fez, no entanto, foi a crítica gratuita. Falaram
de burguesia, que é um discurso velho, de trinta anos
atrás. Chegaram a falar em "elite branca". Quem criticou
perdeu tempo com uma bobagem. Não escrevi motivado
pela perda de um relógio. Escrevi como cidadão.
As pessoas perderam o direito de ir e vir. Não estou
nem aí para as bobagens que falaram.
Veja
Você foi acusado de só ter acordado
agora para a realidade, para os problemas do país... Huck Quem pegar
as cartas dos leitores ou os blogs e artigos em jornais verá
um monte de manés que escreveram. Garanto que
já fui à periferia milhares de vezes mais do
que eles. Vou toda semana. No domingo, antes de viajar para
Nova York, onde fui gravar um quadro do Caldeirão,
andei no Complexo do Alemão, uma das áreas mais
violentas do Rio de Janeiro. Vou, entro, saio, converso com
todo mundo. Meu maior ativo na vida é ouvir as pessoas.
Ouço muito. Vejo o que acontece no país. Sei
que meu bem-estar pessoal passa pelo bem-estar coletivo. Nos
últimos cinco anos tenho me dedicado a entender por
onde eu poderia entrar nessa questão e fazer minha
parte. Foquei meu trabalho na educação e profissionalização
de jovens e na inserção deles no mercado de
trabalho por meio do audiovisual. Criei uma ONG, o Instituto
Criar. Todo ano recebemos 200 jovens, que vêm indicados
por intermédio de um processo rigoroso, bem amarrado.
Eles são escolhidos por sessenta ONGs e dez escolas
públicas. Todos recebem meio salário mínimo,
para evitar que os pais os obriguem a sair de lá para
trabalhar. O índice de aproveitamento no mercado de
trabalho tem sido de 70%, com um salário médio
de 800 reais.
Veja
A visão geral de seus críticos leva
a um caminho perigoso. É como se os Jardins, uma das
regiões mais ricas de São Paulo, tivessem de
virar o Jardim Ângela, um dos bairros mais pobres do
país. O correto é que o Jardim Ângela
vire uma região mais aprazível, não acha?
Huck Ando por
todos os lugares. Posso garantir que, em certo sentido, o
Capão Redondo e o Jardim Ângela estão
melhores do que os Jardins. Deixe-me explicar o que quero
dizer: tem um trabalho incrível lá de organizações
sociais que está fazendo a diferença. Não
acredito que os Jardins vão um dia virar o Jardim Ângela.
Acho que todas as áreas da cidade merecem o mesmo tratamento.
Não estou dizendo com isso que este ou aquele governo
seja omisso. Só que tem uma série de projetos
sociais nas periferias que estão dando certo, e esse
é o caminho que temos de seguir.
Veja
Você escreveu que tinha carro blindado e que
desistiu dele, porque não queria assumir que a cidade
em que vivia era Bogotá. Adianta o gesto individual? Huck Se chegarmos
ao nível em que se tenha de andar de carro blindado
para ir à padaria, é porque alguma coisa está
errada. Pouquíssimos podem comprar um carro blindado.
Resolvi que não iria me dobrar à lógica
de me esconder cada vez mais. Lembro que, na minha adolescência,
Bogotá era sinônimo do que havia de mais violento
no mundo. A gente ficava assustado só de ver aqueles
filmes em que de repente apareciam vários sujeitos
armados, de cima dos prédios, que vinham e seqüestravam
alguém. Levavam as pessoas para dentro da mata e elas
nunca mais apareciam. Hoje, Bogotá é outra cidade,
muitas vezes melhor. O que aconteceu ali? Foi um investimento
pesado em educação, em organização
social. Eles focaram em quatro ou cinco coisas e foram em
frente. Esse é o caminho. Não quero ficar andando
de carro blindado em uma cidade cada vez pior. Quero trabalhar
para que meu filho, o Joaquim, quando tiver a minha idade,
possa andar pelas ruas sem medo.
Veja
E agora, depois do que aconteceu, pensa em comprar um carro
blindado novamente? Huck De forma alguma. No
Rio, canso de ir para a Zona Sul passando pelo meio da Rocinha.
Vou com o vidro aberto. Penso em continuar fazendo minha parte
para ajudar o país. Só tem duas coisas que faço
hoje na vida. Trabalho na Globo e no meu projeto social. Esse
é meu foco. Quero viver neste país, que eu adoro.
Claro que tenho condições de, se quiser, ir
morar em Miami, com minha família. Mas não quero.
Meu lugar é aqui.
Veja
E qual é o caminho, por exemplo, para melhorar
a segurança pública? Huck Não sei, nem tenho
credenciais para discutir segurança pública.
Só não gostaria de ficar sendo assaltado na
rua. O que sei é que o sujeito só vai parar
de assaltar se tiver oportunidade. Vou dar um exemplo. No
AfroReggae (projeto social na Favela de Vigário
Geral, no Rio de Janeiro) tem o Feijão, que é
um dos coordenadores. Trabalha lá honestamente. Só
que um ano atrás ele era bandido. Não era um
qualquer. Era líder de facção. Um dia
disse que queria largar aquela vida e o AfroReggae ofereceu
uma chance. Ele pegou e não largou mais. Da mesma forma,
há muita gente nessa situação. Se a gente
começar agora, um dia o filho daquele sujeito que me
assaltou vai poder se formar. Pode ser um engenheiro, levando
a vida honestamente. Se a gente não fizer nada, vai
ficar difícil mudar esse panorama. Tem de ser educação
pública de qualidade. Não adianta termos escolas
públicas de baixíssimo nível e escolas
particulares de Primeiro Mundo. O sujeito só entra
na Universidade de São Paulo, a USP, se tiver muito
dinheiro para pagar os melhores colégios. O sistema
de cotas não resolve. O negócio é ensino
fundamental e médio de qualidade para todos.
Veja
Mas também é fundamental que se tenha
uma polícia eficiente... Huck Claro que sim.
Basta ver que durante o Pan-Americano o Rio parecia a cidade
de Genebra, na Suíça. Temos de ter inteligência
policial, equipamentos e informação. Mas só
a polícia não resolve. O controle da violência
não é o estado penal, em que você se limita
a gerir por meio da prisão, do Judiciário e
da polícia. Isso não vai funcionar nunca. O
caminho trilhado pelo ex-prefeito de Nova York Rudolph Giuliani
(que implantou a política de tolerância zero)
é o fim da história. É fácil parar
de ter assalto nos Jardins. Basta colocar policiais lá.
Mas isso não vai reduzir a criminalidade em São
Paulo. A solução passa pela educação.
E não me refiro apenas à escola. Falo do sujeito
que joga papel na rua, que joga lata de dentro do ônibus.
As pessoas têm de vaiar quem joga lixo na rua, quem
avança o sinal. Temos de cobrar educação
uns dos outros também. Quando ando por aí, nas
comunidades carentes, vejo que o lugar mais bonito é
sempre a igreja ou a ONG. Nas cidades do interior, os mais
bonitos são a igreja, a prefeitura e a delegacia. Está
errado. O lugar mais bonito tem de ser a escola. Ela tem de
ser sedutora para as crianças.
Veja
Muitos criticam a televisão por incitar a
violência e a sexualização precoce. Qual
sua opinião? Huck Não
concordo. Os críticos podem dar um ou dois exemplos
de coisas em que a TV não contribui para o país,
mas eu dou vinte exemplos de como ela é importante.
O que faz com que o Brasil tenha uma noção de
país, uma unidade, é a televisão. Estou
na Globo há oito anos e tenho absoluta noção
de como esse assunto é tratado de maneira séria.
Tudo o que vai ao ar é visto antes por alguém
com essa preocupação. Não acho que as
cenas da novela, do sujeito beijando a mulher, vão
despertar a sexualidade. A internet é um caminho muito
mais aberto para o menino ou a menina que quiser ter acesso
a qualquer conteúdo sexual. Na minha época,
a gente tinha de fazer operações de guerra para
comprar uma revista de mulher pelada. E ficava dois anos com
a mesma revista. Hoje, a internet é uma estrada escancarada
para isso. É injusto atribuir essa culpa à televisão.
Além do mais, quem manda na televisão é
o telespectador.
Veja O
que você faria diferente se tivesse poder? Huck Falta projeto. Cadê
o projeto para a educação? Por que ela não
é tão competente quanto outras áreas?
Fico vendo a pujança com que o investimento estrangeiro
tem entrado aqui. Vejo a bolsa atingindo índices nunca
antes alcançados. Fizemos o câmbio flutuante,
um instrumento fabuloso. O controle da inflação.
Temos intelectuais de primeira, esportistas que estão
nos primeiros lugares no mundo. O Brasil tem uma imagem no
exterior hoje que nunca teve. E, no entanto, apesar de todas
essas conquistas, há problemas básicos com os
quais não conseguimos lidar. O direito de ir e vir,
que é vedado em extensas áreas das grandes cidades,
é um exemplo. Isso é vergonhoso, perto de tudo
o que está acontecendo no país.
Veja Em
seu artigo, você se referiu ao presidente ao dizer que
gostaria de saber no que ele está pensando. O que quis
dizer exatamente? Huck Eu não
estava falando do Lula em si, nem de qualquer governante.
Acho muito bonito o programa Bolsa Família, acho legal
distribuir leite, mas não é o que vai resolver.
Isso é apenas um agrado. Não é assim
que se distribui renda. Como disse, o Brasil estará
melhor no dia em que o filho daquele sujeito que me assaltou
estiver na faculdade, preparando-se para ajudar a fazer do
Brasil um lugar melhor para ele e para os outros.