Lula:
a parte da frase que interessa é a que fala em "mais qualificação"
"O
choque de gestão será feito quando contratarmos mais gente, mais
qualificada, mais bem remunerada, porque aí teremos também serviços
de excelência prestados para a sociedade brasileira." Essa frase, dita pelo
presidente Luiz Inácio Lula da Silva na semana passada, reavivou o debate
sobre o tamanho do estado e a eficiência dos serviços públicos.
Existe um tamanho de estado que possa ser considerado ideal? É possível
calcular a proporção mínima de funcionários públicos
abaixo da qual os serviços essenciais prestados à população
começam a degringolar? Essas duas questões, certamente, estão
entre as mais difíceis de ser respondidas. Elas só fazem sentido
dentro de contextos históricos muito bem definidos. Na teoria, países
em guerra podem ser levados a mobilizar quase toda a sua população
economicamente ativa, colocando-a por tempo determinado a soldo e mando do estado.
Por outro lado, países que já debelaram suas endemias mais resistentes
e desfrutam elevado padrão de vida institucional, social e econômica
dependeriam menos de complexas redes estatais de serviços essenciais.
A frase do presidente precisa ser entendida à luz dessas complexidades.
O Brasil não é um país em guerra, mas também está
longe de ter atingido um nível civilizacional em que a maioria da população
consiga sobreviver sem o apoio do estado. Quando se examinam os números,
o Brasil tem proporcionalmente menos funcionários públicos em relação
à população ocupada (11%) do que muitos países
a Rússia tem 33%, a França 30% e o México 15%. Portanto,
o mais gente na fala de Lula não é o disparate que aparenta
ser à primeira vista.
O (gente)
mais qualificada, mais bem remunerada da frase de Lula é o que interessa.
Nisso ele está totalmente certo. Só o mais não resolve.
O Brasil tem 50% mais professores por aluno nas universidades federais do que
as melhores escolas de ensino superior dos Estados Unidos. Basta esse exemplo
para entender que mais gente raramente melhora a qualidade do serviço
público. É preciso que as pessoas sejam bem escolhidas, treinadas,
motivadas, incentivadas e que acima de tudo sejam bem geridas. Uma
reportagem desta edição de VEJA mostra que as deficiências
do setor público brasileiro são provocadas menos pela falta de gente
e mais pela distribuição dos servidores pelo território nacional
não com base no critério da necessidade, mas do conforto pessoal
de cada um. Há mais funcionários em funções burocráticas
do que nas ligadas à atividade-fim de seus ministérios. Faltam também
meritocracia e qualificação para que os funcionários sejam
mais úteis e possam dar o "choque de gestão" a que Lula se referiu.