Nos
anos 80, Piero Badaloni foi uma espécie de William Bonner da TV italiana.
Por cinco anos, atuou como âncora do telejornal mais visto do país,
na rede estatal RAI. Desde o ano passado, está à frente da RAI International,
que tem a missão de fornecer entretenimento e notícias da Itália
para emigrantes e descendentes ao redor do mundo. Em entrevista ao repórter
Marcelo Marthe, Badaloni, de 61 anos, fala de televisão, política
e das mudanças no canal.
O SENHOR
INICIOU SUA CARREIRA NO JORNALISMO NO COMEÇO DOS ANOS 70, QUANDO UM ÚNICO
CANAL DA RAI, DOMINADO PELO PARTIDO DA DEMOCRACIA CRISTÃ, TINHA O MONOPÓLIO
DA TV NA ITÁLIA. DEPOIS A EMISSORA FOI DIVIDIDA EM TRÊS CANAIS, O
QUE DEU VOZ A OUTROS PARTIDOS. ESSE MODELO É BEM-SUCEDIDO? Sim,
pois passamos de uma situação em que o público não
tinha escolha para um cenário de pluralidade. Em vez de um telejornal,
passamos a ter três, com maneiras diferentes de abordar cada questão.
Creio, porém, que nos últimos anos houve uma pressão excessiva,
uma invasão do serviço público de televisão pela política.
Por isso, neste momento, tentamos reencontrar nossa autonomia em relação
aos partidos. Uma coisa é oferecer programas culturalmente diversos. Outra
coisa é lotear um canal para uma agremiação política.
Isso é errado.
POR QUE
NA ITÁLIA TELEVISÃO E POLÍTICA PARECEM ESTAR MAIS LIGADAS
DO QUE EM QUALQUER OUTRO LUGAR? Porque, em minha opinião, os partidos
italianos foram além de suas tarefas, de seus deveres. Os partidos querem
conquistar consenso para os seus projetos. Mas, se usam uma TV pública
como ferramenta para conquistar esse consenso, prejudicam a democracia. Isso aconteceu
na Itália com Silvio Berlusconi e me parece que a mesma coisa está
em curso na Venezuela. São anomalias que considero preocupantes.
QUAL É O PAPEL DE UMA EMISSORA
COMO A RAI INTERNATIONAL? Como todas as grandes emissoras públicas
européias, temos, antes de mais nada, o papel de promover a Itália
no mundo o "made in Italy" cultural, artístico e, por que não,
empresarial. Ao mesmo tempo, somos um ponto de conexão com as comunidades
italianas que vivem em outros países.
QUAL
É O PERFIL DOS ESPECTADORES AO REDOR DO MUNDO? Principalmente emigrantes
italianos. Mas nosso objetivo a partir de agora é alcançar as gerações
mais jovens, os descendentes desses emigrantes, bem como estrangeiros que amem
a Itália. Para isso, vamos usar legendas. Legendas em italiano em programas
infantis, pois desejamos manter a ligação das crianças com
a língua italiana. E, a partir de janeiro, também legendas em inglês,
sobretudo no noticiário. Estudamos ainda a possibilidade de fazer parcerias
com emissoras locais de alguns países, como o Brasil, e assim criar programas
com material específico.
ANTES
DE DIRIGIR A RAI, O SENHOR ATUAVA E AINDA ATUA COMO APRESENTADOR
NA EMISSORA. O QUE FAZ UM BOM ÂNCORA? O âncora, acima de tudo,
deve se expressar com clareza. Muitos comentaristas gostam de usar jargão.
Falam em "esportivês" ou "politiquês", o que impede que alguns espectadores
entendam o que estão dizendo. Isso é um pecado em comunicação.
A RAI INTERNATIONAL TEM UMA PROFUSÃO
DE PROGRAMAS DE AUDITÓRIO E MUSICAIS. A PROGRAMAÇÃO NÃO
PODERIA SER MAIS EQUILIBRADA? Concordo com essa avaliação.
E é exatamente isso que a nova programação, que está
entrando no ar agora, procura corrigir. Reduzimos a parte de shows e demos mais
atenção à cultura, à arte, às notícias.
Haverá um programa sobre a língua, outro sobre música clássica
e um ainda que se chama Italia Bella, que valoriza o patrimônio cultural
do país e incentiva o turismo.
COMO
É FEITA A SELEÇÃO DAS APRESENTADORAS DOS PROGRAMAS DE AUDITÓRIO?
NÃO HÁ UMA SEQUER QUE NÃO SEJA DESLUMBRANTE. Então
vocês no Brasil já perceberam isso? Digamos que se tornou uma tradição.
A emissora se empenha para encher os olhos da audiência com essas belas
mulheres.