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Luiz
Felipe de Alencastro
Os
burricos do Afeganistão
"No
meio da catadupa de notícias sobre
intolerância, fanatismo, terror e guerra,
o espectro das tropas de burricos da ONU
traz uma luz deesperança nesta primeira
guerra do milênio"
A
tragédia da terça-feira negra deu lugar a uma gigantesca
cobertura na mídia. Desde o assassinato de John Kennedy, em 1963,
nada de tão dramático e de conseqüências políticas
tão graves havia sido registrado ao vivo. Contudo, à diferença
dos tiros no presidente americano em Dallas, filmados por um cineasta
amador em imagens divulgadas bem mais tarde, a destruição
das Twin Towers propagou-se instantaneamente no universo esquadrinhado
pela mídia. Comentado pela imprensa, televisão e internet,
o drama continua a gerar um acúmulo de informações
e de significados contraditórios. Ao lado de novos enfoques sobre
a realidade contemporânea nunca se escreveu tanto sobre o
Afeganistão , ressurgem medos e incertezas ancestrais.
Jornalistas e diversos especialistas dissertam sobre a administração
Bush, o Oriente Médio e o Islã. Textos clássicos
do século XIX são reeditados. Voltam à ordem do dia
as reflexões de Tocqueville (1805-1859) sobre a excepcionalidade
da história americana, enquanto o diário parisiense Le
Monde publica um estudo de Engels, o parceiro de Marx, sobre o Afeganistão
e o semanário londrino The Sunday Times recorre aos escritos
do jornalista e romancista Rudyard Kipling (1865-1936) para apontar o
impacto do imperialismo inglês em Cabul.
A despeito dos esforços para entender a tragédia, a irracionalidade
também ganha espaço. Segundo a imprensa britânica,
pela primeira vez desde o início da era da internet a palavra "sex"
perdeu o primeiro lugar para "Nostradamus" (1503-1566) no rol das informações
mais procuradas nos buscadores on-line que vasculham os bilhões
de páginas da web. De pouco adiantam as advertências dos
eruditos, que desautorizam as elucubrações excogitadas a
partir dos escritos do adivinho francês. Para os crentes, o que
Nostradamus falou está falado! Outro tipo de crendice, muito menos
inocente, tem a ver com o anti-semitismo. Tal o venenoso disparate contado
por radicais islâmicos e espalhado por mesquitas de várias
partes do mundo: os judeus teriam sido os autores da catástrofe
em Nova York para atiçar a hostilidade americana contra os muçulmanos.
Renova-se a sinistra tradição dos que acreditam num eterno
complô judaico. No século XVI, quando a Inquisição
era todo-poderosa em Portugal, um eminente escritor e pregador sacro,
frei Amador Arrais, registrou e endossou em seus Diálogos
(1589) a aleivosa interpretação histórica dos mais
fanáticos cristãos ibéricos: a doutrina islâmica
teria sido criada pelos judeus no começo do século VII para
combater o cristianismo! Mas a extensa antologia das intolerâncias
não se embaraça com as próprias contradições
e inclui agora os cretinos que assimilam islamismo e fanatismo religioso,
Corão e Guerra Santa.
Entender a tragédia é também buscar os meios de extirpar
as raízes do fanatismo. Na época de Kipling, a luta da Inglaterra
e da Rússia pelo controle da Ásia Central se chamava o "Grande
Jogo". Hoje, o jogo inclui um parceiro até agora silencioso, mas
temível, a China. Aliada do Paquistão contra a Índia,
a China jamais aceitará em Cabul um governo hostil aos paquistaneses.
Como os parceiros regionais do atual Grande Jogo a Índia
e o Paquistão possuem a arma atômica e não
hesitarão em utilizá-la num conflito frontal, a reconstrução
do Afeganistão após o desbarato de Osama bin Laden e dos
talibãs apresenta-se como uma operação complexa.
E isso explica boa parte da prudência do presidente Bush.
Em qualquer hipótese, por causa do frio, da fome ou das bombas,
muitos afegãos morrerão. Para tentar remediar os dramas
desse povo corajoso e malsinado, a ONU anunciou que está comprando
4.000 burros para distribuir 200 toneladas de comida nos desvãos
das montanhas do Afeganistão. No meio da catadupa de notícias
sobre intolerância, fanatismo, terror e guerra, o espectro das tropas
de burricos da ONU traz uma luz de esperança nesta primeira guerra
do milênio.
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris Sorbonne (lfa@workmail.com)
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