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Edição 1 721 - 10 de outubro de 2001
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Inferno e paraíso

Uma exposição na Holanda traça
um panorama da arte do flamengo
Hieronymus Bosch

 
Fotos divulgação

A Nau dos Loucos, que fazia parte de um tríptico, e São João Batista: só existem 25 pinturas atribuídas a Bosch. Dezoito delas estão na mostra holandesa

Uma pequena parte das obras do pintor flamengo Hieronymus Bosch, autor do magnífico painel Jardim das Delícias, conseguiu sobreviver às vicissitudes do tempo. "Pequena", no caso, não é força de expressão: existem apenas 25 pinturas atribuídas a Bosch. Dezoito delas estão reunidas numa exposição no museu Boymans, da Holanda. É a primeira vez que se vêem tantos originais do artista lado a lado. Em paralelo, podem-se apreciar quadros de seus contemporâneos e peças de gente influenciada por ele – do surrealista espanhol Salvador Dalí ao cartunista americano Robert Crumb.

Sabe-se pouco da vida de Bosch (1450?-1516). Nascido Hieronymus van Aken, ele adotou o sobrenome artístico em referência à cidade natal, 's-Hertogenbosch. Seu avô, seu pai, seus irmãos e primos, todos eram pintores e mantinham um ateliê de prestígio na cidade. A exposição atesta que Bosch foi um moralista genial. Dois temas antípodas o dominavam: a busca humana do prazer, a expensas do espírito, e o ideal de uma vida monástica, dedicada a Deus. Ao lado de imagens de santos e personagens bíblicos, Bosch pintou homens comuns, quase sempre rodeados de figuras demoníacas que os tentam e ameaçam. Mas também havia lugar em sua obra para imagens luminosas, das quais a mais resplandecente é Jardim das Delícias, que não integra a mostra holandesa. Continua bem guardada no Museu do Prado, em Madri.

A exposição do museu Boymans é um exemplo de como as técnicas científicas têm influenciado o conhecimento da arte. Bosch raramente assinou e datou seus trabalhos. Por esse motivo, a atribuição de sua autoria é um problema e tanto. A radiografia, o infravermelho e a dendrocronologia (avaliação da idade da madeira) permitiram avanços nesse sentido. Durante a preparação da mostra, descobriu-se que o quadro As Bodas de Canaã não é de Bosch – foi pintado pelo menos meio século depois de sua morte. Confirmou-se, ainda, que quatro obras autênticas, vindas de coleções distintas ao redor do mundo, constituíam originalmente um tríptico – forma, aliás, que representa o apogeu artístico de Bosch. As obras A Nau dos Loucos e a Alegoria da Glutonice compunham o painel lateral esquerdo. Do lado direito ficava a Morte de um Avaro. Fechadas as laterais, surgia, como uma espécie de tampa, O Andarilho. Uma quinta pintura deveria ocupar o espaço central do tríptico. Não há pistas de como seria ela. Todas as informações sobre essa peça se perderam. Pela primeira vez em séculos, os painéis remanescentes estão juntos novamente. Mas só até o dia 11 de novembro, quando termina a exposição.

   
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