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Edição 1 721 - 10 de outubro de 2001
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A tragédia reordena o mundo

AP
ESFORÇO DE GUERRA
O presidente Bush, o prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, e o governador George Pataki visitam os escombros do World Trade Center

São familiares os mapas que mostram um rearranjo de fronteiras ou nomes de países antes e depois das duas grandes guerras do século passado ou da queda do Muro de Berlim. Aquelas imagens refletem mudanças profundas. Elas desencadearam, em cada caso, uma nova ordem mundial. Ainda é cedo para saber se os atentados de 11 de setembro aos Estados Unidos também vão produzir um reordenamento qualquer ou se tudo voltará a ser como antes quando o trauma passar. A sensação que se tem depois de quase um mês dos atos terroristas é de que o mundo continua fora de seu eixo natural. Alguma coisa se alterou no mecanismo que rege a ordem das coisas. Na semana passada, o presidente George W. Bush, do conservador Partido Republicano, afirmou, sem gerar reações violentas, prós e contras, que sua "visão" para o Oriente Médio inclui um Estado palestino. Em que outro contexto um presidente americano poderia dizer isso? Pois bem, agora é possível e muito recomendável. O presidente dos EUA tem pronto na gaveta um projeto de paz para a região mais instável do planeta que inclui a transformação da Palestina em um país autônomo – em troca da renúncia do mundo árabe a varrer Israel do mapa. Outro salto no tempo e no espaço veio com a súbita opção preferencial pelo Ocidente manifestada pelo presidente russo, Vladimir Putin. "A Rússia tem raízes profundas nos valores europeus", disse Putin.

O Estado palestino e uma Rússia cultural e politicamente próxima do Ocidente são mudanças que, mesmo apenas como idéias, ninguém esperava que deslanchassem tão cedo. O mundo econômico e financeiro, que não conhece fronteiras geográficas, começou também a girar em velocidade nunca vista mesmo para os padrões da globalização. Em menos de três semanas depois dos atentados, o banco central americano, o Fed, baixou duas vezes a taxa de juros do país. Na última depenada, colocou o custo anual do dinheiro nos Estados Unidos em 2,5%. É a menor taxa dos últimos quarenta anos. Em tempo recorde, o presidente George W. Bush negociou um pacote de incentivos fiscais às empresas que bateu na casa dos 130 bilhões de dólares. "A combinação das duas medidas é uma dose cavalar de política monetária que levantaria até uma economia defunta", observou o economista americano Paul Krugman, ele próprio recém-convertido à idéia de que o governo americano não tem outra saída senão baixar juros e cortar impostos. Embora seja natural imaginar que as medidas de segurança vão dificultar e encarecer o trânsito de pessoas, bens e dinheiro pelo mundo, o processo de globalização vai ser aprimorado. "A interdependência agora é bem mais estreita que antes dos atentados. Chegou o momento de os países pobres realmente se aproveitarem dos benefícios da globalização", afirmou na semana passada o presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn.

 
Fotos AP
Fot
SOCORRO
Aviões da Swissair, que recebeu ajuda de bancos para não falir, e o presidente do Fed, Alan Greenspan: ação rápida nas crises

A globalização não é um processo irreversível. Suas catracas já engataram uma marcha à ré em outros tempos. O exemplo trágico clássico foi a violenta interrupção do período liberalizante da economia mundial pela eclosão da I Guerra, em 1914. Antes dela, a maioria dos países aceitava carteira de identidade estrangeira como documento de viagem. Depois da guerra, desconfiados uns dos outros, os países se fecharam como ostras. "O problema naqueles tempos foi que nada se fez para impedir a tragédia do isolacionismo. Agora é uma tragédia que está desencadeando ações positivas", disse Krugman. Em tempos normais os pacotes internacionais de ajuda financeira andam em ritmo de tartaruga. Na economia turbinada pelo pós (ou pré) guerra ao terror, eles estão voando. Em semanas, os países ricos, incentivados pelos Estados Unidos, arregaçaram as mangas para mostrar que estão dispostos a evitar maiores sustos no mercado que os já provocados pelos ataques terroristas. Algumas medidas dão noção desse esforço:

Bush ofereceu 320 milhões de dólares em ajuda humanitária para o Afeganistão e países vizinhos. No mesmo dia, os Estados Unidos liberaram 50 milhões de dólares em empréstimos para que o Paquistão equilibre seu orçamento. O país também recebeu 135 milhões de dólares como empréstimo do Fundo Monetário Internacional. O governo Bush deu sinal verde para que o FMI libere antecipadamente 8 bilhões de dólares de ajuda para a Argentina que só sairiam no começo de 2002. "As crises financeiras serão mortas no nascedouro, antes que contagiem outros países", diz Allan Meltzer, professor de economia na Universidade Carnegie Mellon, ligado à equipe de Bush.

O Senado americano ratificou na semana passada o acordo de livre comércio com o Vietnã. Com isso, as tarifas pagas pelos produtos vietnamitas que entram nos Estados Unidos caem de 40% para 4%, em média. Pelos cálculos do Banco Mundial, esse acordo poderá dobrar o faturamento do Vietnã com exportações. O notável é que ninguém falou em exigências em matéria de direitos humanos – quesito que até agora emperrava os acertos. "A verdadeira ameaça a nosso país são os milhares de pessoas vivendo em desespero pelo mundo. A arma mais poderosa de que dispomos para combater esse inimigo é um mercado livre e aberto", declarou James P. Moran, congressista democrata que se uniu aos republicanos no apoio ao governo.

Uma mostra do papel que os Estados terão daqui para a frente na costura da operação global de saída da crise foi o salvamento da companhia aérea Swissair, orquestrado pelo governo suíço. A empresa foi comprada em parte por dois bancos, na terça-feira passada. A Swissair, vítima de administrações incompetentes, vinha mal fazia tempo. Com a queda abrupta da venda de passagens aéreas depois dos atentados, a empresa afundou. Nos primeiros dias que se seguiram aos atos terroristas, os vôos internacionais decolaram dos Estados Unidos com apenas 20% dos assentos ocupados, em média. Na semana passada, a recuperação já era notável. Os vôos estavam com 60% da lotação habitual.

 
AFP
UNIÃO
Autoridades européias apresentam notas de euro: até a proteção e subsídios à agricultura podem entrar na pauta das discussões

Além dessas medidas práticas, vieram declarações que evidenciam uma mudança de atitude da porção mais rica do planeta em relação à metade mais pobre. O Congresso americano se comprometeu a aprovar, nesta semana, a lei que autoriza o presidente George W. Bush a tomar decisões e a firmar contratos comerciais com outros países sem consulta prévia. É aquele empacada fast track (via expressa), que se arrastou como uma conquista inalcançável pelo governo Bill Clinton. Esse instrumento é considerado fundamental para que o Executivo americano consiga derrotar no Congresso a força dos lobbies protecionistas que emperram acordos de comércio vitais para países pobres.

Há mais. Antes do atentado, dava-se como certa a aprovação de um subsídio extra para os agricultores americanos. Seriam 15 bilhões de dólares. Agora, já se anunciou que a ajuda adicional não sairá como a encomenda. Essa é outra medida que estimulará as exportações de países pobres para os EUA. O ministro da Agricultura da União Européia divulgou que virá ao Brasil e aceitou colocar na pauta das conversas uma discussão sobre a abertura do mercado europeu a produtos brasileiros e do Mercosul. Diplomatas dos países ricos já avisaram seus colegas do Hemisfério Sul que a próxima rodada de conversações sobre comércio mundial, prevista para ocorrer no Catar, em novembro, terá uma pauta mais palatável para o lado menos opulento do planeta. "Daremos um sinal inquestionável de que os Estados Unidos vão liderar a promoção dos livres mercados no mundo", disse Robert Zoellick, secretário de Comércio americano. Muito dessa disposição se pode desfazer no ar, mas o conjunto de atitudes, discursos e ações dos países ricos parece concreto. Não seria a primeira vez que um conflito internacional provocaria um movimento semelhante de reerguimento planejado. Depois da II Guerra Mundial, os americanos inundaram a Europa de dólares – em troca, é claro, da garantia de que os países privilegiariam a compra de produtos americanos. O mesmo entrelaçamento de interesses pode ajudar agora a apressar a recuperação da economia mundial.

 
 
   
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