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A tragédia
reordena o mundo
AP
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ESFORÇO
DE GUERRA
O presidente Bush, o prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, e o
governador George Pataki visitam os escombros do World Trade Center |
São
familiares os mapas que mostram um rearranjo de fronteiras ou nomes de
países antes e depois das duas grandes guerras do século
passado ou da queda do Muro de Berlim. Aquelas imagens refletem mudanças
profundas. Elas desencadearam, em cada caso, uma nova ordem mundial. Ainda
é cedo para saber se os atentados de 11 de setembro aos Estados
Unidos também vão produzir um reordenamento qualquer ou
se tudo voltará a ser como antes quando o trauma passar. A sensação
que se tem depois de quase um mês dos atos terroristas é
de que o mundo continua fora de seu eixo natural. Alguma coisa se alterou
no mecanismo que rege a ordem das coisas. Na semana passada, o presidente
George W. Bush, do conservador Partido Republicano, afirmou, sem gerar
reações violentas, prós e contras, que sua "visão"
para o Oriente
Médio inclui um Estado palestino. Em que outro contexto um presidente
americano poderia dizer isso? Pois bem, agora é possível
e muito recomendável. O presidente dos EUA tem pronto na gaveta
um projeto de paz para a região mais instável do planeta
que inclui a transformação da Palestina em um país
autônomo em troca da renúncia do mundo árabe
a varrer Israel do mapa. Outro salto no tempo e no espaço veio
com a súbita opção preferencial pelo Ocidente manifestada
pelo presidente russo, Vladimir Putin. "A Rússia tem raízes
profundas nos valores europeus", disse Putin.
O
Estado palestino e uma Rússia cultural e politicamente próxima
do Ocidente são mudanças que, mesmo apenas como idéias,
ninguém esperava que deslanchassem tão cedo. O mundo econômico
e financeiro, que não conhece fronteiras geográficas, começou
também a girar em velocidade nunca vista mesmo para os padrões
da globalização. Em menos de três semanas depois dos
atentados, o banco central americano, o Fed, baixou duas vezes a taxa
de juros do país. Na última depenada, colocou o custo anual
do dinheiro nos Estados Unidos em 2,5%. É a menor taxa dos últimos
quarenta anos. Em tempo recorde, o presidente George W. Bush negociou
um pacote de incentivos fiscais às empresas que bateu na casa dos
130 bilhões de dólares. "A combinação das
duas medidas é uma dose cavalar de política monetária
que levantaria até uma economia defunta", observou o economista
americano Paul Krugman, ele próprio recém-convertido à
idéia de que o governo americano não tem outra saída
senão baixar juros e cortar impostos. Embora seja natural imaginar
que as medidas de segurança vão dificultar e encarecer o
trânsito de pessoas, bens e dinheiro pelo mundo, o processo de globalização
vai ser aprimorado. "A interdependência agora é bem mais
estreita que antes dos atentados. Chegou o momento de os países
pobres realmente se aproveitarem dos benefícios da globalização",
afirmou na semana passada o presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn.
Fotos AP
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Fot
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SOCORRO
Aviões
da Swissair, que recebeu ajuda de bancos para não falir, e
o presidente do Fed, Alan Greenspan: ação rápida
nas crises |
A
globalização não é um processo irreversível.
Suas catracas já engataram uma marcha à ré em outros
tempos. O exemplo trágico clássico foi a violenta interrupção
do período liberalizante da economia mundial pela eclosão
da I Guerra, em 1914. Antes dela, a maioria dos países aceitava
carteira de identidade estrangeira como documento de viagem. Depois da
guerra, desconfiados uns dos outros, os países se fecharam como
ostras. "O problema naqueles tempos foi que nada se fez para impedir a
tragédia do isolacionismo. Agora é uma tragédia que
está desencadeando ações positivas", disse Krugman.
Em tempos normais os pacotes internacionais de ajuda financeira andam
em ritmo de tartaruga. Na economia turbinada pelo pós (ou pré)
guerra ao terror, eles estão voando. Em semanas, os países
ricos, incentivados pelos Estados Unidos, arregaçaram as mangas
para mostrar que estão dispostos a evitar maiores sustos no mercado
que os já provocados pelos ataques terroristas. Algumas medidas
dão noção desse esforço:
Bush ofereceu 320 milhões de dólares em ajuda humanitária
para o Afeganistão e países vizinhos. No mesmo dia, os Estados
Unidos liberaram 50 milhões de dólares em empréstimos
para que o Paquistão equilibre seu orçamento. O país
também recebeu 135 milhões de dólares como empréstimo
do Fundo Monetário Internacional. O governo Bush deu sinal verde
para que o FMI libere antecipadamente 8 bilhões de dólares
de ajuda para a Argentina que só sairiam no começo de 2002.
"As crises financeiras serão mortas no nascedouro, antes que contagiem
outros países", diz Allan Meltzer, professor de economia na Universidade
Carnegie Mellon, ligado à equipe de Bush.
O Senado americano ratificou na semana passada o acordo de livre comércio
com o Vietnã. Com isso, as tarifas pagas pelos produtos vietnamitas
que entram nos Estados Unidos caem de 40% para 4%, em média. Pelos
cálculos do Banco Mundial, esse acordo poderá dobrar o faturamento
do Vietnã com exportações. O notável é
que ninguém falou em exigências em matéria de direitos
humanos quesito que até agora emperrava os acertos. "A verdadeira
ameaça a nosso país são os milhares de pessoas vivendo
em desespero pelo mundo. A arma mais poderosa de que dispomos para combater
esse inimigo é um mercado livre e aberto", declarou James P. Moran,
congressista democrata que se uniu aos republicanos no apoio ao governo.
Uma mostra do papel que os Estados terão daqui para a frente na
costura da operação global de saída da crise foi
o salvamento da companhia aérea Swissair, orquestrado pelo governo
suíço. A empresa foi comprada em parte por dois bancos,
na terça-feira passada. A Swissair, vítima de administrações
incompetentes, vinha mal fazia tempo. Com a queda abrupta da venda de
passagens aéreas depois dos atentados, a empresa afundou. Nos primeiros
dias que se seguiram aos atos terroristas, os vôos internacionais
decolaram dos Estados Unidos com apenas 20% dos assentos ocupados, em
média. Na semana passada, a recuperação já
era notável. Os vôos estavam com 60% da lotação
habitual.
AFP
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UNIÃO
Autoridades
européias apresentam notas de euro: até a proteção
e subsídios à agricultura podem entrar na pauta das
discussões |
Além
dessas medidas práticas, vieram declarações que evidenciam
uma mudança de atitude da porção mais rica do planeta
em relação à metade mais pobre. O Congresso americano
se comprometeu a aprovar, nesta semana, a lei que autoriza o presidente
George W. Bush a tomar decisões e a firmar contratos comerciais
com outros países sem consulta prévia. É aquele empacada
fast track (via expressa), que se arrastou como uma conquista inalcançável
pelo governo Bill Clinton. Esse instrumento é considerado fundamental
para que o Executivo americano consiga derrotar no Congresso a força
dos lobbies protecionistas que emperram acordos de comércio vitais
para países pobres.
Há mais. Antes do atentado, dava-se como certa a aprovação
de um subsídio extra para os agricultores americanos. Seriam 15
bilhões de dólares. Agora, já se anunciou que a ajuda
adicional não sairá como a encomenda. Essa é outra
medida que estimulará as exportações de países
pobres para os EUA. O ministro da Agricultura da União Européia
divulgou que virá ao Brasil e aceitou colocar na pauta das conversas
uma discussão sobre a abertura do mercado europeu a produtos brasileiros
e do Mercosul. Diplomatas dos países ricos já avisaram seus
colegas do Hemisfério Sul que a próxima rodada de conversações
sobre comércio mundial, prevista para ocorrer no Catar, em novembro,
terá uma pauta mais palatável para o lado menos opulento
do planeta. "Daremos um sinal inquestionável de que os Estados
Unidos vão liderar a promoção dos livres mercados
no mundo", disse Robert Zoellick, secretário de Comércio
americano. Muito dessa disposição se pode desfazer no ar,
mas o conjunto de atitudes, discursos e ações dos países
ricos parece concreto. Não seria a primeira vez que um conflito
internacional provocaria um movimento semelhante de reerguimento planejado.
Depois da II Guerra Mundial, os americanos inundaram a Europa de dólares
em troca, é claro, da garantia de que os países privilegiariam
a compra de produtos americanos. O mesmo entrelaçamento de interesses
pode ajudar agora a apressar a recuperação da economia mundial.
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