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Intelectuais
em guerra
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FRONTEIRAS
TOMBADAS
Protesto contra a Guerra do Vietnã, em 1970, e manifestação
contra a globalização há duas semanas, em Washington:
antes, era fácil para os intelectuais ser pela paz; no mundo
pós-atentados, o programa mudou |
A
guerra está sendo dura e suja. Travada diante dos teclados de computador,
envolve intelectuais firmemente entrincheirados nas universidades e redações,
prontos para a luta de idéias sobre o significado dos atentados
terroristas e qual a atitude correta a ser adotada diante de um eventual
conflito. Longe vão os dias em que o front intelectual formava
praticamente unânime na militância pacifista, no caso da Guerra
do Vietnã. As fronteiras tradicionais entre direita e esquerda
também ruíram, pelo menos em parte, tragadas pela enormidade
do horror que se abateu sobre Nova York e Washington. A batalha das palavras
envolve, mais apropriadamente, dois lados: os rápidos e os lentos.
Os rápidos são aqueles que captaram as dimensões
da mudança provocada pelos ataques. Perceberam que noções
perfeitamente aceitáveis no mundo pré-atentados não
se aplicavam mais depois deles. Os lentos, tanto conservadores quanto
liberais, não assimilaram a guinada e
continuaram a rodar o mesmo programa mental que tinham antes.
O mais vistoso
combatente da turma dos rápidos é Christopher Hitchens,
jornalista inglês radicado nos Estados Unidos, tão provocador
que escreveu um livro no qual Madre Teresa de Calcutá é
retratada como uma sádica oportunista que maltratava os pobres
doentes entregues a seus cuidados. Hitchens foi para a briga com um artigo
no qual metralhou o chamado relativismo moral dos intelectuais para os
quais, de maneira bem resumida, "os Estados Unidos estão colhendo
o que plantaram". Nada na política externa americana, argumentou
ele, justifica os atentados. Só um "cretino moral", escreveu, imaginaria
que os terroristas desistiriam de seu plano maligno se, por exemplo, os
israelenses acabassem com a brutal repressão nos territórios
palestinos. "Os Estados Unidos fazem realmente muita coisa errada mundo
afora", disse Hitchens a VEJA. "O problema desses intelectuais é
que não podem admitir que o governo americano faça alguma
coisa certa. É uma espécie de masoquismo. Não os
acuso de cumplicidade com os terroristas, mas de estupidez."
Os mísseis
de Hitchens têm endereço certo: o lingüista Noam Chomsky
e sua turma. Ícone da esquerda e último refúgio dos
preguiçosos (todo mundo bate à sua porta quando quer uma
crítica invariável a qualquer iniciativa do governo americano),
o veterano professor ficou patentemente do lado dos lentos. Não
mudou seu discurso em nada, insistindo em equiparar os atentados suicidas
que pulverizaram quase 6.000 pessoas nos Estados
Unidos ao bombardeio de uma fábrica de remédios do Sudão,
desfechado em 1998 a mando do então presidente Bill Clinton, numa
desastrada tentativa de punir colaboradores de Osama bin Laden. Chomsky
sustentou, delirantemente, que o bombardeio provocou "milhões"
de mortes depois reduziu para "dezenas de milhares" e disse que
eram vítimas da falta de remédios que teriam sido produzidos
caso Clinton não tivesse bombardeado a fábrica. Para se
ter idéia da discrepância, o ataque americano em si não
matou ninguém. Na resposta a Hitchens, Chomsky acusou-o de "desprezo
racista pelas vítimas africanas" do bombardeio. O jornalista treplicou
em tom mais virulento ainda, com tanta sofreguidão que, a certa
altura, não acusava mais a esquerda, e sim o governo Bush, de contemporizar
demais na repressão aos terroristas!
A confusão
é natural. O próprio presidente americano e seu grupo de
brucutus conservadores alinharam-se entre o pessoal da reação
rápida, o que desarticulou seus críticos. Edward Said, o
mais conhecido intelectual palestino, professor da Universidade Columbia,
foi um caso clássico. Escrevendo no piloto automático, afirmou
que "o 11 de setembro se transformou numa enorme propaganda em benefício
de Sharon", o primeiro-ministro de Israel, duro entre os duros. Errado.
Bush falou na semana passada, pela primeira vez, na eventual criação
de um Estado palestino, o tipo de assunto que provoca apoplexia em gente
como Sharon. Quem achava que a religião muçulmana seria
lançada na vala comum do terrorismo (com reações
de horror entre a esquerda, de gáudio para os direitistas lentos)
ficou sem ter o que falar diante das insistentes loas tecidas pelo presidente
caipira à fé dos seguidores do profeta Maomé. Você,
caro leitor, está condoído pela sorte dos pobres afegãos
que agora engrossam as fileiras dos refugiados? Donald Rumsfeld, o superfalcão
do Departamento de Defesa, também ficou de "coração
partido", e lá se foram 320 milhões de dólares dos
EUA para ajudar os flagelados afegãos.
Tantas manifestações
de flexibilidade não bastaram para impressionar gente como a escritora
Susan Sontag, que insistiu com todas as letras que o atentado foi uma
conseqüência direta das ações e alianças
americanas. Sontag ainda acrescentou que os terroristas não eram
covardes a coragem é uma virtude moralmente neutra, disse,
com razão, mas sem nenhum senso de oportunidade. Sontag deve ter
esquecido que já defendeu fervorosamente o uso da força
imperialista que agora critica. Há três anos, quando o ditador
sérvio Slobodan Milosevic ainda reinava em Belgrado, ela clamou
pela intervenção americana, defendendo o bombardeio dos
sérvios para evitar a matança dos albaneses de Kosovo (muçulmanos
salvos pelos Estados Unidos). O embate de idéias, natural nos ambientes
intelectuais, caiu mal em alguns círculos mais rudes. Rod Dreher,
colunista do jornal New York Post, escreveu que gostaria de atravessar
a Ponte do Brooklyn, em Nova York, de pés descalços sobre
cacos de vidro, até o apartamento de Sontag, agarrá-la pelo
pescoço, arrastá-la ao World Trade Center e fazê-la
repetir o que havia escrito diante dos bombeiros que trabalharam nos escombros
dos prédios.
Os ânimos
andam acirrados, a ponto de nas marchas antiglobalização
ocorridas há duas semanas em Washington os manifestantes terem
sido chamados de traidores da pátria por gente mais exaltada. Num
clima assim, veio em boa hora a bem-humorada receita para vencer o fanatismo
dada por Salman Rushdie, o escritor anglo-indiano agora radicado em Nova
York, ele mesmo vítima do obscurantismo. "Devemos concordar no
que importa: beijar em lugares públicos, sanduíches de bacon,
discordâncias, roupas decotadas, literatura, generosidade, água,
uma distribuição mais equânime dos recursos do mundo,
filmes, música, liberdade de pensamento, beleza e amor", escreveu.
Desde que foi jurado de morte pelos fundamentalistas iranianos, em 1989,
Rushdie vive sob proteção policial.
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