Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 721 - 10 de outubro de 2001
Especial

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Sumário
Brasil
Geral
Especial
  Os alvos estão escolhidos
Os tentáculos de Osama bin Laden
O que querem os fundamentalistas
Como se articulou a rede do terror
As mulheres e o Islã
A guerra vence o pacifismo do campus
Intelectuais discutem os atentados
Como lidar com a crise
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Luiz Felipe de Alencastro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Hipertexto exclusivo on-line
Gente
Datas

Para usar
VEJA Recomenda
Literatura brasileira
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Digite uma ou mais palavras:

Busca detalhada
Arquivo 1997-2001
Reportagens de capa 2000 | 2001
Entrevistas
2000 | 2001
Busca somente texto 96|97|98|99|00|01


Crie seu grupo




 

Intelectuais em guerra


Fotos AP
s AP
FRONTEIRAS TOMBADAS
Protesto contra a Guerra do Vietnã, em 1970, e manifestação contra a globalização há duas semanas, em Washington: antes, era fácil para os intelectuais ser pela paz; no mundo pós-atentados, o programa mudou

A guerra está sendo dura e suja. Travada diante dos teclados de computador, envolve intelectuais firmemente entrincheirados nas universidades e redações, prontos para a luta de idéias sobre o significado dos atentados terroristas e qual a atitude correta a ser adotada diante de um eventual conflito. Longe vão os dias em que o front intelectual formava praticamente unânime na militância pacifista, no caso da Guerra do Vietnã. As fronteiras tradicionais entre direita e esquerda também ruíram, pelo menos em parte, tragadas pela enormidade do horror que se abateu sobre Nova York e Washington. A batalha das palavras envolve, mais apropriadamente, dois lados: os rápidos e os lentos. Os rápidos são aqueles que captaram as dimensões da mudança provocada pelos ataques. Perceberam que noções perfeitamente aceitáveis no mundo pré-atentados não se aplicavam mais depois deles. Os lentos, tanto conservadores quanto liberais, não assimilaram a guinada e continuaram a rodar o mesmo programa mental que tinham antes.

O mais vistoso combatente da turma dos rápidos é Christopher Hitchens, jornalista inglês radicado nos Estados Unidos, tão provocador que escreveu um livro no qual Madre Teresa de Calcutá é retratada como uma sádica oportunista que maltratava os pobres doentes entregues a seus cuidados. Hitchens foi para a briga com um artigo no qual metralhou o chamado relativismo moral dos intelectuais para os quais, de maneira bem resumida, "os Estados Unidos estão colhendo o que plantaram". Nada na política externa americana, argumentou ele, justifica os atentados. Só um "cretino moral", escreveu, imaginaria que os terroristas desistiriam de seu plano maligno se, por exemplo, os israelenses acabassem com a brutal repressão nos territórios palestinos. "Os Estados Unidos fazem realmente muita coisa errada mundo afora", disse Hitchens a VEJA. "O problema desses intelectuais é que não podem admitir que o governo americano faça alguma coisa certa. É uma espécie de masoquismo. Não os acuso de cumplicidade com os terroristas, mas de estupidez."

Os mísseis de Hitchens têm endereço certo: o lingüista Noam Chomsky e sua turma. Ícone da esquerda e último refúgio dos preguiçosos (todo mundo bate à sua porta quando quer uma crítica invariável a qualquer iniciativa do governo americano), o veterano professor ficou patentemente do lado dos lentos. Não mudou seu discurso em nada, insistindo em equiparar os atentados suicidas que pulverizaram quase 6.000 pessoas nos Estados Unidos ao bombardeio de uma fábrica de remédios do Sudão, desfechado em 1998 a mando do então presidente Bill Clinton, numa desastrada tentativa de punir colaboradores de Osama bin Laden. Chomsky sustentou, delirantemente, que o bombardeio provocou "milhões" de mortes – depois reduziu para "dezenas de milhares" e disse que eram vítimas da falta de remédios que teriam sido produzidos caso Clinton não tivesse bombardeado a fábrica. Para se ter idéia da discrepância, o ataque americano em si não matou ninguém. Na resposta a Hitchens, Chomsky acusou-o de "desprezo racista pelas vítimas africanas" do bombardeio. O jornalista treplicou em tom mais virulento ainda, com tanta sofreguidão que, a certa altura, não acusava mais a esquerda, e sim o governo Bush, de contemporizar demais na repressão aos terroristas!

A confusão é natural. O próprio presidente americano e seu grupo de brucutus conservadores alinharam-se entre o pessoal da reação rápida, o que desarticulou seus críticos. Edward Said, o mais conhecido intelectual palestino, professor da Universidade Columbia, foi um caso clássico. Escrevendo no piloto automático, afirmou que "o 11 de setembro se transformou numa enorme propaganda em benefício de Sharon", o primeiro-ministro de Israel, duro entre os duros. Errado. Bush falou na semana passada, pela primeira vez, na eventual criação de um Estado palestino, o tipo de assunto que provoca apoplexia em gente como Sharon. Quem achava que a religião muçulmana seria lançada na vala comum do terrorismo (com reações de horror entre a esquerda, de gáudio para os direitistas lentos) ficou sem ter o que falar diante das insistentes loas tecidas pelo presidente caipira à fé dos seguidores do profeta Maomé. Você, caro leitor, está condoído pela sorte dos pobres afegãos que agora engrossam as fileiras dos refugiados? Donald Rumsfeld, o superfalcão do Departamento de Defesa, também ficou de "coração partido", e lá se foram 320 milhões de dólares dos EUA para ajudar os flagelados afegãos.

Tantas manifestações de flexibilidade não bastaram para impressionar gente como a escritora Susan Sontag, que insistiu com todas as letras que o atentado foi uma conseqüência direta das ações e alianças americanas. Sontag ainda acrescentou que os terroristas não eram covardes – a coragem é uma virtude moralmente neutra, disse, com razão, mas sem nenhum senso de oportunidade. Sontag deve ter esquecido que já defendeu fervorosamente o uso da força imperialista que agora critica. Há três anos, quando o ditador sérvio Slobodan Milosevic ainda reinava em Belgrado, ela clamou pela intervenção americana, defendendo o bombardeio dos sérvios para evitar a matança dos albaneses de Kosovo (muçulmanos salvos pelos Estados Unidos). O embate de idéias, natural nos ambientes intelectuais, caiu mal em alguns círculos mais rudes. Rod Dreher, colunista do jornal New York Post, escreveu que gostaria de atravessar a Ponte do Brooklyn, em Nova York, de pés descalços sobre cacos de vidro, até o apartamento de Sontag, agarrá-la pelo pescoço, arrastá-la ao World Trade Center e fazê-la repetir o que havia escrito diante dos bombeiros que trabalharam nos escombros dos prédios.

Os ânimos andam acirrados, a ponto de nas marchas antiglobalização ocorridas há duas semanas em Washington os manifestantes terem sido chamados de traidores da pátria por gente mais exaltada. Num clima assim, veio em boa hora a bem-humorada receita para vencer o fanatismo dada por Salman Rushdie, o escritor anglo-indiano agora radicado em Nova York, ele mesmo vítima do obscurantismo. "Devemos concordar no que importa: beijar em lugares públicos, sanduíches de bacon, discordâncias, roupas decotadas, literatura, generosidade, água, uma distribuição mais equânime dos recursos do mundo, filmes, música, liberdade de pensamento, beleza e amor", escreveu. Desde que foi jurado de morte pelos fundamentalistas iranianos, em 1989, Rushdie vive sob proteção policial.

 
 
   
  voltar
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS