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Edição 1 721 - 10 de outubro de 2001
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Nasce uma nova geração


AFP

EM MEMÓRIA DAS VÍTIMAS
Cerca de 15 000 estudantes se reuniram no ginásio de esportes da Universidade Brigham Young, em Utah, para rezar pelos mortos no atentado

Os estudantes das grandes universidades americanas estão contrariando uma velha tradição que os colocava na faixa dos críticos implacáveis do sistema e do governo dos Estados Unidos. Em diversas escolas, foram organizadas manifestações de pesar em que oradores, sem ser vaiados pelos colegas, falaram a favor de uma ação militar contra os autores dos atentados terroristas a Nova York e Washington. Uma surpresa. Mais surpreendentes elas ficam quando se observa sua origem: vieram de Berkeley, Harvard e Yale. Não são apenas algumas das melhores universidades dos Estados Unidos. São historicamente as mais críticas. A Universidade da Califórnia, em Berkeley, é o berço do protesto no país. Harvard, em Cambridge, é a mais arejada das escolas de elite. Foi em suas salas de aula que receberam uma aura de seriedade certas teses politicamente corretas, como a de que o antigo reino africano do Benin deu contribuições tão grandes à civilização quanto o Vale do Silício. De Yale saíram alguns dos mais radicais defensores das liberdades civis.

A voz do campus veio num tom inesperado. Em Harvard, uma pesquisa de opinião mostrou que 69% dos alunos aprovariam uma investida militar contra os terroristas. Quatro em cada dez estudantes de Harvard disseram que se alistariam numa unidade militar caso o governo precisasse deles. São números impressionantes num campus onde o liberalismo político e o pacifismo têm raízes profundas. Ainda mais surpreendente foi a reação do corpo editorial do Crimson, o jornal dos estudantes de Harvard. Eles lamentaram o fato de que foram poucos os alunos que se disseram prontos para vestir uma farda. O Crimson achou que o número desses candidatos a recruta deveria ser muito maior.

 
AP

UNIVERSIDADE DE KENT, 1970:
protestos contra os bombardeios no Camboja foram reprimidos pela Guarda Nacional e quatro estudantes foram mortos

Eis aí uma postura que contraria uma tradição que começou nos anos 60. Naquela década, Berkeley se tornou um foco de resistência ao envolvimento dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. No auge da guerra no Sudeste Asiático, quando os bombardeiros americanos devastavam o território vietnamita, um jornalista perguntou ao líder do Vietnã do Norte, Ho Chi Minh, se ele pensava em retaliar na mesma moeda. O camarada Ho disse que sim, acrescentando que pouparia o campus de Berkeley de seus supostos ataques. Era uma época em que a atriz Jane Fonda fazia aparições eletrizantes nas passeatas dos estudantes, produzia discursos antiamericanos e, por essas atuações, era chamada de "Hanói Jane". Também foi nos campi universitários americanos que as feministas queimaram seus primeiros sutiãs e os hippies seus primeiros cigarros de maconha. A Universidade da Califórnia, no começo dos anos 70, quando o governador do Estado era o conservador Ronald Reagan, pesquisava os efeitos dos alucinógenos no desempenho intelectual humano. Reagan cortou as verbas e asfixiou esses estudos. Os campi eram incendiários. Eram declarados "áreas livres" pelos intelectuais. O escritor Norman Mailer apanhou feio da polícia ao lado dos estudantes da Universidade George Washington quando pregava o socialismo e a desobediência civil contra o recrutamento do Exército. Richard Nixon prometeu na campanha presidencial, no fim dos anos 60, que voltaria a "integrar os campi ao país". Em 1970 mandou a Guarda Nacional reprimir protestos contra o bombardeamento do Camboja no campus da Universidade Estadual de Kent, em Ohio. Quatro estudantes foram mortos a bala.

 
AP

CAMPUS DE BERKELEY, 1983:
estudantes queimam a bandeira em protesto contra a invasão da Ilha de Granada pelos militares americanos

Com o fim da guerra, a rebeldia se transformou em muitas universidades num esquerdismo acadêmico. Antes redutos da contracultura, muitas universidades, como Stanford e Berkeley, se tornaram campeãs do relativismo cultural. Mais recentemente, elas também alimentaram os protestos de rua contra a globalização. Nada disso se harmoniza com as mudanças de tom registradas após os atentados. "Depois de 11 de setembro nós amadurecemos como geração. Temos o mesmo inimigo. E agora o governo está nos chamando. Precisamos atender a esse chamado – porque, se não formos nós, quem irá?" Essa conclamação patriótica apareceu nas páginas do Yale Daily News, o jornal dos estudantes. Numa pesquisa de opinião, a maioria dos alunos de Yale disse que entenderia as "razões de Estado" de uma lei antiterror que limitasse as liberdades civis. O tom de toque de corneta foi um choque. Professor de Yale, Paul Kennedy, historiador de renome, tentou justificar numa palestra o ódio que outros povos nutrem pelos americanos. Mostrou as razões que embasam a aversão. Muitos alunos saíram do auditório.

"A geração paz e amor não pode ser reaglutinada. Os jovens de hoje são pragmáticos", diz Scott Lynch, da organização Peace Action (Ação pela Paz) de Washington, ao reconhecer que estavam falhando seus esforços de angariar fundos e recrutar voluntários para as campanhas. Foi sintomático da mudança também o que ocorreu em Berkeley. No maior ato público na escola desde os tempos da luta pelos direitos civis dos anos 60, 12.000 estudantes se reuniram no campus. Oradores condenaram os ataques terroristas. Houve choro e vigília com velas acesas pelas vítimas. Alguns se abraçaram a bandeiras americanas. Algo nunca visto em Berkeley, onde queimar bandeiras nacionais era usual nos protestos do passado. No dia seguinte a essa demonstração, a ala crítica ao revide militar conseguiu reunir 2.500 manifestantes em defesa da paz. A tréplica veio. Milhares de alunos marcharam pelo campus de Berkeley aos gritos de "USA... USA" – a primeira vez que esse tipo de canto patriótico foi ouvido no coração da dissidência americana. Sabiamente, os estudantes evitaram cair no radicalismo com sinal trocado. Mesmo aqueles a favor de alguma ação militar punitiva intercalaram seus atos públicos com manifestações de repúdio aos ataques a pessoas de origem árabe e às mesquitas. Nas passeatas dos dois lados, estudantes distribuíam cópias de guias explicando o que é o islamismo.

 
 
   
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