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Nasce uma nova geração
AFP

EM
MEMÓRIA DAS VÍTIMAS
Cerca de 15 000 estudantes se reuniram no ginásio de esportes
da Universidade Brigham Young, em Utah, para rezar pelos mortos no
atentado |
Os
estudantes das grandes universidades americanas estão contrariando
uma velha tradição que os colocava na faixa dos críticos
implacáveis do sistema e do governo dos Estados Unidos. Em diversas
escolas, foram organizadas manifestações de pesar em que
oradores, sem ser vaiados pelos colegas, falaram a favor de uma ação
militar contra os autores dos atentados terroristas a Nova York e Washington.
Uma surpresa. Mais surpreendentes elas ficam quando se observa sua origem:
vieram de Berkeley, Harvard e Yale. Não são apenas algumas
das melhores universidades dos Estados Unidos. São historicamente
as mais críticas. A Universidade da Califórnia, em Berkeley,
é o berço do protesto no país. Harvard, em Cambridge,
é a mais arejada das escolas de elite. Foi em suas salas de aula
que receberam uma aura de seriedade certas
teses politicamente corretas, como a de que o antigo reino africano do
Benin deu contribuições tão grandes à civilização
quanto o Vale do Silício. De Yale saíram alguns dos mais
radicais defensores das liberdades civis.
A voz do
campus veio num tom inesperado. Em Harvard, uma pesquisa de opinião
mostrou que 69% dos alunos aprovariam uma investida militar contra os
terroristas. Quatro em cada dez estudantes de Harvard disseram que se
alistariam numa unidade militar caso o governo precisasse deles. São
números impressionantes num campus onde o liberalismo político
e o pacifismo têm raízes profundas. Ainda mais surpreendente
foi a reação do corpo editorial do Crimson, o jornal
dos estudantes de Harvard. Eles lamentaram o fato de que foram poucos
os alunos que se disseram prontos para vestir uma farda. O Crimson
achou que o número desses candidatos a recruta deveria ser muito
maior.
AP

UNIVERSIDADE
DE KENT, 1970:
protestos contra os bombardeios no Camboja foram reprimidos pela Guarda
Nacional e quatro estudantes foram mortos |
Eis aí
uma postura que contraria uma tradição que começou
nos anos 60. Naquela década, Berkeley se tornou um foco de resistência
ao envolvimento dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. No auge
da guerra no Sudeste Asiático, quando os bombardeiros americanos
devastavam o território vietnamita, um jornalista perguntou ao
líder do Vietnã do Norte, Ho Chi Minh, se ele pensava em
retaliar na mesma moeda. O camarada Ho disse que sim, acrescentando que
pouparia o campus de Berkeley de seus supostos ataques. Era uma época
em que a atriz Jane Fonda fazia aparições eletrizantes nas
passeatas dos estudantes, produzia discursos antiamericanos e, por essas
atuações, era chamada de "Hanói Jane". Também
foi nos campi universitários americanos que as feministas queimaram
seus primeiros sutiãs e os hippies seus primeiros cigarros de maconha.
A Universidade da Califórnia, no começo dos anos 70, quando
o governador do Estado era o conservador Ronald Reagan, pesquisava os
efeitos dos alucinógenos no desempenho intelectual humano. Reagan
cortou as verbas e asfixiou esses estudos. Os campi eram incendiários.
Eram declarados "áreas livres" pelos intelectuais. O escritor Norman
Mailer apanhou feio da polícia ao lado dos estudantes da Universidade
George Washington quando pregava o socialismo e a desobediência
civil contra o recrutamento do Exército. Richard Nixon prometeu
na campanha presidencial, no fim dos anos 60, que voltaria a "integrar
os campi ao país". Em 1970 mandou a Guarda Nacional reprimir protestos
contra o bombardeamento do Camboja no campus da Universidade Estadual
de Kent, em Ohio. Quatro estudantes foram mortos a bala.
AP

CAMPUS
DE BERKELEY, 1983:
estudantes queimam a bandeira em protesto contra a invasão
da Ilha de Granada pelos militares americanos |
Com o fim
da guerra, a rebeldia se transformou em muitas universidades num esquerdismo
acadêmico. Antes redutos da contracultura, muitas universidades,
como Stanford e Berkeley, se tornaram campeãs do relativismo cultural.
Mais recentemente, elas também alimentaram os protestos de rua
contra a globalização. Nada disso se harmoniza com as mudanças
de tom registradas após os atentados. "Depois de 11 de setembro
nós amadurecemos como geração. Temos o mesmo inimigo.
E agora o governo está nos chamando. Precisamos atender a esse
chamado porque, se não formos nós, quem irá?"
Essa conclamação patriótica apareceu nas páginas
do Yale Daily News, o jornal dos estudantes. Numa pesquisa de opinião,
a maioria dos alunos de Yale disse que entenderia as "razões de
Estado" de uma lei antiterror que limitasse as liberdades civis. O tom
de toque de corneta foi um choque. Professor de Yale, Paul Kennedy, historiador
de renome, tentou justificar numa palestra o ódio que outros povos
nutrem pelos americanos. Mostrou as razões que embasam a aversão.
Muitos alunos saíram do auditório.
"A geração
paz e amor não pode ser reaglutinada. Os jovens de hoje são
pragmáticos", diz Scott Lynch, da organização Peace
Action (Ação pela Paz) de Washington, ao reconhecer que
estavam falhando seus esforços de angariar fundos e recrutar voluntários
para as campanhas. Foi sintomático da mudança também
o que ocorreu em Berkeley. No maior ato público na escola desde
os tempos da luta pelos direitos civis dos anos 60, 12.000
estudantes se reuniram no campus. Oradores condenaram os ataques terroristas.
Houve choro e vigília com velas acesas pelas vítimas. Alguns
se abraçaram a bandeiras americanas. Algo nunca visto em Berkeley,
onde queimar bandeiras nacionais era usual nos protestos do passado. No
dia seguinte a essa demonstração, a ala crítica ao
revide militar conseguiu reunir 2.500 manifestantes
em defesa da paz. A tréplica veio. Milhares de alunos marcharam
pelo campus de Berkeley aos gritos de "USA... USA" a primeira vez
que esse tipo de canto patriótico foi ouvido no coração
da dissidência americana. Sabiamente, os estudantes evitaram cair
no radicalismo com sinal trocado. Mesmo aqueles a favor de alguma ação
militar punitiva intercalaram seus atos públicos com manifestações
de repúdio aos ataques a pessoas de origem árabe e às
mesquitas. Nas passeatas dos dois lados, estudantes distribuíam
cópias de guias explicando o que é o islamismo.
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