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Edição 1 721 - 10 de outubro de 2001
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Como eles se prepararam para matar e morrer

"O enterro deve ser conduzido rapidamente, em uma reunião com muitas pessoas para rezarem por mim. Quero ser enterrado com outros bons muçulmanos, com o rosto virado para Meca. Ficarei deitado do meu lado direito. Deve-se jogar terra sobre meu corpo três vezes, com as palavras: 'Você veio do pó, você é pó e retornará ao pó. E do pó nascerá um novo homem'. Depois disso todos devem chamar o nome de Alá e testemunhar que morri como um muçulmano crente na religião de Alá. Todos que tomarem parte no meu enterro devem pedir pelo meu perdão."

Em abril de 1996, quando escreveu as frases acima em seu testamento, Mohamed Atta – apontado como o piloto suicida que pulverizou um Boeing 767 no primeiro choque com as torres do World Trade Center – tinha se tornado um crente fiel do Islã, mas não dava indícios de que iria tão longe em seu fanatismo. Esse documento encontrado na parte de sua bagagem que acabou ficando no Aeroporto Logan, em Boston, deixa claro que ele – pelo menos em 1996 – ainda não pretendia explodir. Por isso acreditava que haveria um enterro para seu corpo e que restaria um rosto para ser sepultado voltado para Meca. Mas o plano que levaria Atta e seus companheiros para o suicídio já estava em andamento. A história do maior atentado de todos os tempos começou há uma década.

Faz pouco mais de dez anos que o saudita Hani Hanjour entrou pela primeira vez nos Estados Unidos. Foi estudar inglês num curso de oito semanas na Universidade do Arizona, em Tucson. Sete anos mais tarde, começou a fazer um curso de pilotagem em Scottsdale, naquele mesmo Estado. O FBI concluiu que esse terrorista que também morou em Phoenix, no Arizona, e acumulou 250 horas ao manche de aviões tem o perfil mais próximo dos chamados "ativistas dormentes", militantes que os grupos extremistas deixam por anos numa determinada comunidade, região ou país, até o dia em que são chamados a executar sua missão. Nos atentados de 11 de setembro, coube a Hanjour acertar o Pentágono, em Washington, pilotando um Boeing 757 – o ataque que exigia maior perícia entre todos os planejados pelo grupo de suicidas. Para ajudá-lo no treinamento dessa manobra, conforme descobriram depois os investigadores, os terroristas enviaram aos Estados Unidos o piloto argelino Lotfi Raissi, detido há duas semanas em Londres. Raissi tinha fixado residência na Inglaterra, perto do Aeroporto de Heathrow, havia quatro meses. Entre junho e julho passados, ele esteve em Las Vegas e na Escola de Aviação de Nevada, onde se encontrou com o terrorista saudita e avaliou também as habilidades para pilotar de outros integrantes do grupo.

Hanjour, como Atta, é tido pelos policiais como um dos cérebros da operação terrorista. Ele ajudou outros integrantes do grupo a alugar casa nos Estados Unidos, recebeu vários deles nos meses anteriores ao atentado, na cidade californiana de San Diego e em Nova Jersey, e também fez uma viagem com alguns comparsas para comprar carteiras de motorista de um falsário da Virgínia. Tinha visto de estudante, expedido em 2000, para outro curso de inglês – do qual não freqüentou nenhuma aula. Os outros dois líderes da esquadra extremista também estavam na cabine dos aviões. Marwan Al-Shehhi, de 23 anos, nascido nos Emirados Árabes, teria atingido a torre sul do WTC. Ziad Samir Jarrah, 26, libanês, assumiu a direção do Boeing que caiu na Pensilvânia. Eles estudaram com Atta na Alemanha, no meio da década de 90, militaram num grupo radical islâmico da cidade de Hamburgo, onde foram cooptados pelo terror, e fizeram curso de pilotagem em escolas da Flórida, no sul dos EUA. Uma das hipóteses dos investigadores americanos é que esses quatro homens poderiam ser os únicos que sabiam estar embarcando para a morte no dia dos seqüestros. Nesse caso, os outros teriam sido arregimentados como mão-de-obra para um crime que terminaria com o pagamento de resgates.

Quanto menos gente conhece os detalhes de um plano, menos risco existe de haver defecções ou vazamentos. Os familiares já localizados de terroristas como Atta e Jarrah juram que nunca souberam nem mesmo da militância radical deles. A análise do currículo dos seqüestradores restantes mostra que só mais dois tinham condições de pilotar aviões e, portanto, comandar um ataque na hipótese de uma desistência ou impedimento do chefe principal. Khalid Almidhar e Nawaf Alhazmi, ambos sauditas, moraram juntos em San Diego, onde tiveram seis aulas de pilotagem de Boeing e fizeram dois vôos. Eles foram vistos na Malásia em companhia de suspeitos do atentado contra o destróier Cole, realizado no Iêmen, e essa foi uma das descobertas que levaram as autoridades a ligar rapidamente os novos atentados ao grupo de Osama bin Laden. Como contra-indicação para a liderança, Almidhar e Alhazmi tinham o fato de falar um péssimo inglês.

Calcula-se que 500.000 dólares foram arrecadados de vários grupos terroristas em diferentes países para o financiamento da operação. Duas grandes transferências de dinheiro foram feitas para Atta nos primeiros dez dias de setembro, segundo documentos em poder do FBI, que não divulgou os valores. A revista Time publicou que o terrorista tinha relacionamento financeiro com Mustafah Ahmed, um tradicional operador de Laden. Atta, Al-Shehhi e Waleed Alshehri, outro suspeito, teriam devolvido 15.000 dólares a ele, nos Emirados Árabes – o que seria uma devolução das sobras dos recursos usados na operação.

Com menos responsabilidade no planejamento, o segundo time de seqüestradores – composto de homens sem curso superior e enviado com menor antecedência para os EUA – aproveitou a viagem para se enturmar. O que tinha passaporte com o nome de Abdulaziz Alomari viveu meses em Vero Beach, na Flórida, com uma mulher e quatro crianças, e chegou a dar uma festinha para meninos vizinhos distribuindo pizzas e kits de lanches do McDonald's. A verdadeira identidade desse homem ainda é um mistério. Um candidato a dono do passaporte vive na Arábia Saudita e diz que perdeu o documento nos EUA em 1995.

O saudita Majed Moqed, identificado por um desertor do terrorismo como um homem treinado no Afeganistão, alugou vídeos eróticos numa loja de Beltsville, no Estado de Maryland. Salem Alhamzi, de quem a polícia sabe pouco mais que o nome, revelou-se um devorador de comida chinesa que gostava de mostrar a musculatura desfilando pelo bairro de sandálias, jeans e camiseta. Ele e outros parceiros freqüentaram academias de ginástica em Nova Jersey. Na Califórnia, os dois pilotos que foram aproveitados apenas como músculos na execução do seqüestro freqüentaram assiduamente um centro islâmico, onde compraram o Corolla azul que deixariam abandonado no Aeroporto de Dulles, em Washington. Eles tomariam o vôo que aterrissaria pouco depois em cima do Pentágono.

Dentro desse carro azul, foi encontrada a terceira cópia conhecida da carta de procedimentos para o seqüestro. Pedaços da segunda apareceram nos destroços do avião da Pensilvânia. A primeira estava numa bolsa que Mohamed Atta deixou no aeroporto de Boston. Iguais, todas falam que os terroristas deveriam levar consigo seus testamentos. Segundo o líder religioso islâmico Sheikh Ali Mohamad Abdouni, de São Paulo, o testamento de Atta, que ele pode ter esquecido ou deixado propositadamente para trás, compõe uma espécie de samba do muçulmano doido. Trata de detalhes recomendados pela religião, como a partilha de bens, mas prevê também obviedades, como as roupas do sepultamento e a necessidade de orações. Numa das passagens, o documento determina que mulheres jamais deverão visitar seu túmulo. "Esse é um veto incompreensível no islamismo", diz Abdouni. Mas será cumprido por via transversa: não há chance de que Atta e seus companheiros venham a ter um túmulo.

 

Os cérebros

Fotos AFP
s AFP
MOHAMED ATTA
Fotografado pouco antes de partir numa excursão para Istambul: pivô dos contatos e da movimentação de dinheiro para financiar os atentados

 

HANI HANJOUR
Já havia estado nos EUA no começo dos anos 90. Como piloto, fez o mais difícil: acertar o prédio do Pentágono

 

AP
AP
MARWAN AL-SHEHHI
Chegou a estudar inglês nos EUA com um brasileiro. "Era mau aluno", lembra o professor Tácito Cury
ZIAD JARRAH
Numa festa de família, em fevereiro deste ano, em Beirute: os pais não sabiam de sua ligação com extremistas

 

Os músculos

Voo nº 175

Fotos Reuters
ters
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Ahmed Alghamdi
Deixou pistas no restaurante El Fogon, em Nova Jersey
Hamza Alghamdi
De família pobre, alugou caixa postal em Delray Beach com Mohand Alshehri
Fayez Hassan
Morou em Delray Beach, na Flórida, com um grupo de seqüestradores
Mohand Alshehri
Também de família pobre, não completou a universidade na Arábia

 

Voo nº 11

Abdulaziz Alomari
Casa na Flórida e festinha para os vizinhos
Waleed Alshehri
Sete datas de aniversário e curso de aeronáutica
Wail Alshehri
Ele morou em dois Estados antes dos atentados
Satam M.A. Al Suqami
Sabe-se que tinha 25 anos e que morou nos Emirados Árabes

 

Veja também
Leia na íntegra o testamento de Mohammed Atta


 
 
   
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