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Como eles se prepararam
para matar e morrer
"O
enterro deve ser conduzido rapidamente, em uma reunião com muitas
pessoas para rezarem por mim. Quero ser enterrado com outros bons muçulmanos,
com o rosto virado para Meca. Ficarei deitado do meu lado direito. Deve-se
jogar terra sobre meu corpo três vezes, com as palavras: 'Você
veio do pó, você é pó e retornará ao
pó. E do pó nascerá um novo homem'. Depois disso
todos devem chamar o nome de Alá e testemunhar que morri como um
muçulmano crente na religião de Alá. Todos que tomarem
parte no meu enterro devem pedir pelo meu perdão."
Em
abril de 1996, quando escreveu as frases acima em seu testamento, Mohamed
Atta apontado como o piloto suicida que pulverizou um Boeing 767
no primeiro choque com as torres do World Trade Center tinha se
tornado um crente fiel do Islã, mas não dava indícios
de que iria tão longe em seu fanatismo. Esse documento encontrado
na parte de sua bagagem que acabou ficando no Aeroporto Logan, em Boston,
deixa claro que ele pelo menos em 1996 ainda não
pretendia explodir. Por isso acreditava que haveria um enterro para seu
corpo e que restaria um rosto para ser sepultado voltado para Meca. Mas
o plano que levaria Atta e seus companheiros para o suicídio já
estava em andamento. A história do maior atentado de todos os tempos
começou há uma década.
Faz pouco mais de dez anos que o saudita Hani Hanjour entrou pela primeira
vez nos Estados Unidos. Foi estudar inglês num curso de oito semanas
na Universidade do Arizona, em Tucson. Sete anos mais tarde, começou
a fazer um curso de pilotagem em Scottsdale, naquele mesmo Estado. O FBI
concluiu que esse terrorista que também morou em Phoenix, no Arizona,
e acumulou 250 horas ao manche de aviões tem o perfil mais próximo
dos chamados "ativistas dormentes", militantes que os grupos extremistas
deixam por anos numa determinada comunidade, região ou país,
até o dia em que são chamados a executar sua missão.
Nos atentados de 11 de setembro, coube a Hanjour acertar o Pentágono,
em Washington, pilotando um Boeing 757 o ataque que exigia maior
perícia entre todos os planejados pelo grupo de suicidas. Para
ajudá-lo no treinamento dessa manobra, conforme descobriram depois
os investigadores, os terroristas enviaram aos Estados Unidos o piloto
argelino Lotfi Raissi, detido há duas semanas em Londres. Raissi
tinha fixado residência na Inglaterra, perto do Aeroporto de Heathrow,
havia quatro meses. Entre junho e julho passados, ele esteve em Las Vegas
e na Escola de Aviação de Nevada, onde se encontrou com
o terrorista saudita e avaliou também as habilidades para pilotar
de outros integrantes do grupo.
Hanjour, como Atta, é tido pelos policiais como um dos cérebros
da operação terrorista. Ele ajudou outros integrantes do
grupo a alugar casa nos Estados Unidos, recebeu vários deles nos
meses anteriores ao atentado, na cidade californiana de San Diego e em
Nova Jersey, e também fez uma viagem com alguns comparsas para
comprar carteiras de motorista de um falsário da Virgínia.
Tinha visto de estudante, expedido em 2000, para outro curso de inglês
do qual não freqüentou nenhuma aula. Os outros dois
líderes da esquadra extremista também estavam na cabine
dos aviões. Marwan Al-Shehhi, de 23 anos, nascido nos Emirados
Árabes, teria atingido a torre sul do WTC. Ziad Samir Jarrah, 26,
libanês, assumiu a direção do Boeing que caiu na Pensilvânia.
Eles estudaram com Atta na Alemanha, no meio da década de 90, militaram
num grupo radical islâmico da cidade de Hamburgo, onde foram cooptados
pelo terror, e fizeram curso de pilotagem em escolas da Flórida,
no sul dos EUA. Uma das hipóteses dos investigadores americanos
é que esses quatro homens poderiam ser os únicos que sabiam
estar embarcando para a morte no dia dos seqüestros. Nesse caso,
os outros teriam sido arregimentados como mão-de-obra para um crime
que terminaria com o pagamento de resgates.
Quanto menos gente conhece os detalhes de um plano, menos risco existe
de haver defecções ou vazamentos. Os familiares já
localizados de terroristas como Atta e Jarrah juram que nunca souberam
nem mesmo da militância radical deles. A análise do currículo
dos seqüestradores restantes mostra que só mais dois tinham
condições de pilotar aviões e, portanto, comandar
um ataque na hipótese de uma desistência ou impedimento do
chefe principal. Khalid Almidhar e Nawaf Alhazmi, ambos sauditas, moraram
juntos em San Diego, onde tiveram seis aulas de pilotagem de Boeing e
fizeram dois vôos. Eles foram vistos na Malásia em companhia
de suspeitos do atentado contra o destróier Cole, realizado
no Iêmen, e essa foi uma das descobertas que levaram as autoridades
a ligar rapidamente os novos atentados ao grupo de Osama bin Laden. Como
contra-indicação para a liderança, Almidhar e Alhazmi
tinham o fato de falar um péssimo inglês.
Calcula-se que 500.000 dólares foram arrecadados de vários
grupos terroristas em diferentes países para o financiamento da
operação. Duas grandes transferências de dinheiro
foram feitas para Atta nos primeiros dez dias de setembro, segundo documentos
em poder do FBI, que não divulgou os valores. A revista Time
publicou que o terrorista tinha relacionamento financeiro com Mustafah
Ahmed, um tradicional operador de Laden. Atta, Al-Shehhi e Waleed Alshehri,
outro suspeito, teriam devolvido 15.000 dólares a ele, nos Emirados
Árabes o que seria uma devolução das sobras
dos recursos usados na operação.
Com
menos responsabilidade no planejamento, o segundo time de seqüestradores
composto de homens sem curso superior e enviado com menor antecedência
para os EUA aproveitou a viagem para se enturmar. O que tinha passaporte
com o nome de Abdulaziz Alomari viveu meses em Vero Beach, na Flórida,
com uma mulher e quatro crianças, e chegou a dar uma festinha para
meninos vizinhos distribuindo pizzas e kits de lanches do McDonald's.
A verdadeira identidade desse homem ainda é um mistério.
Um candidato a dono do passaporte vive na Arábia Saudita e diz
que perdeu o documento nos EUA em 1995.
O saudita Majed Moqed, identificado por um desertor do terrorismo como
um homem treinado no Afeganistão, alugou vídeos eróticos
numa loja de Beltsville, no Estado de Maryland. Salem Alhamzi, de quem
a polícia sabe pouco mais que o nome, revelou-se um devorador de
comida chinesa que gostava de mostrar a musculatura desfilando pelo bairro
de sandálias, jeans e camiseta. Ele e outros parceiros freqüentaram
academias de ginástica em Nova Jersey. Na Califórnia, os
dois pilotos que foram aproveitados apenas como músculos na execução
do seqüestro freqüentaram assiduamente um centro islâmico,
onde compraram o Corolla azul que deixariam abandonado no Aeroporto de
Dulles, em Washington. Eles tomariam o vôo que aterrissaria pouco
depois em cima do Pentágono.
Dentro desse carro azul, foi encontrada a terceira cópia conhecida
da carta de procedimentos para o seqüestro. Pedaços da segunda
apareceram nos destroços do avião da Pensilvânia.
A primeira estava numa bolsa que Mohamed Atta deixou no aeroporto de Boston.
Iguais, todas falam que os terroristas deveriam levar consigo seus testamentos.
Segundo o líder religioso islâmico Sheikh Ali Mohamad Abdouni,
de São Paulo, o testamento de Atta, que ele pode ter esquecido
ou deixado propositadamente para trás, compõe uma espécie
de samba do muçulmano doido. Trata de detalhes recomendados pela
religião, como a partilha de bens, mas prevê também
obviedades, como as roupas do sepultamento e a necessidade de orações.
Numa das passagens, o documento determina que mulheres jamais deverão
visitar seu túmulo. "Esse é um veto incompreensível
no islamismo", diz Abdouni. Mas será cumprido por via transversa:
não há chance de que Atta e seus companheiros venham a ter
um túmulo.

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