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O que querem os fundamentalistas
Osama
bin Laden e sua corte de fanáticos vivem na clandestinidade, enfurnados
em cavernas do Afeganistão, envoltos numa aura de mistério,
mas seus objetivos são bem claros. Basta consultar os escritos
do milionário que virou o mais exaltado dos radicais islâmicos.
Primeiro, ele pretende expulsar os militares americanos das bases que
eles mantêm na Arábia Saudita, onde a mera presença
de
não-muçulmanos é vista pelos fanáticos como
uma profanação do solo santo onde nasceu o Islã.
"Todos os esforços devem ser concentrados em combater, destruir
e matar o inimigo até que, pela graça de Alá, esteja
completamente aniquilado", esclarece Laden, em documento datado de 1996.
Realizada a primeira missão divina, ele pretende partir para a
segunda, de alcance mais amplo: unir todos os muçulmanos numa mesma
comunidade, governada de acordo com a interpretação mais
literal e estrita dos preceitos do Corão. Para isso, os
governos dos países muçulmanos considerados corrompidos
pela influência ocidental ou seja, todos, com exceção
do Afeganistão, onde já reina o fundamentalismo mais radical
devem ser varridos do mapa. Sem fronteiras nacionais, unificados sob
esse governo ideal, chamado califado, os verdadeiros crentes se lançariam
então rumo à etapa final arrebatar o resto do planeta.
"Chegará o tempo em que vocês desempenharão papel
decisivo no mundo, de forma que a palavra de Alá seja suprema e
as palavras dos infiéis sejam subjugadas", prometeu ele a seus
seguidores. Em qualquer uma dessas etapas, o dever dos muçulmanos
é empregar todas as armas possíveis para atacar os inimigos
de Alá. O título do documento em que faz essa afirmação
diz tudo: "A Bomba Nuclear do Islã".
Parece coisa
de uma mente delirante, dos gênios do mal caricaturados no cinema
ou nas histórias em quadrinhos. A forma aberrante de fanatismo
religioso pregada por Laden, porém, tem raízes bem fincadas
na história da religião muçulmana, constantemente
marcada por esse desejo de mergulhar na fonte original, de beber da palavra
mais pura do Corão, de reviver um passado mítico.
Esse movimento é chamado, genericamente, de fundamentalismo e está
entranhado no próprio código genético do Islã,
religião que tem uma visão totalizante do mundo e apresenta
um modelo para tudo o que se faz em qualquer das esferas da vida, públicas
ou privadas. Na ótica fundamentalista, a união da religião
e do Estado é um ideal ordenado por Deus e sua separação,
uma invenção ocidental que provocou o declínio do
mundo muçulmano. Para retornar ao "verdadeiro Islã", todas
as sociedades muçulmanas devem se unir numa comunidade única,
chamada ummah. Tudo isso sob o signo da charia, a lei corânica tal
como foi estabelecida há quase 1.400
anos, com castigos coerentes com a sociedade tribal da época: amputação
de membros para os ladrões, decapitação para assassinos
ou hereges, apedrejamento para as adúlteras.
O modelo
a ser seguido é o que vigorou no tempo dos quatro califas, como
são chamados os primeiros sucessores diretos do profeta Maomé.
Esse passado idílico, um ideal comum às correntes messiânicas
de várias religiões, obviamente está mais na imaginação
dos fundamentalistas. Na verdade, três dos quatro califas foram
assassinados nas violentas disputas sucessórias a morte
do último deles, Ali, produziu a mais conhecida corrente minoritária
da religião muçulmana, os xiitas. "Eles dizem que houve
um momento na História em que a comunidade social e seus líderes
foram perfeitos. Tudo, evidentemente, é uma interpretação
muito pessoal do que apresentam como uma verdade eterna", explica o estudioso
das religiões Martin E. Marty, da Universidade de Chicago. "No
fundo, todas as religiões querem ser absolutamente puras e se consideram
o único instrumento de Deus. Nesse anseio, os fundamentalistas
se isolam, erguem barreiras psicológicas para se manter a distância.
Dessa forma, o mundo fica dividido em dois: os seus seguidores e seus
inimigos."
Uma comparação
que ajuda a entender a mentalidade fundamentalista é com a Igreja
Católica na fase em que se encontrava quando tinha a mesma "idade"
do Islã hoje. Naquela época, os padres da Santa Inquisição
queimavam pessoas que não acreditassem em dogmas católicos.
Torturavam e matavam suspeitos de crimes como bruxaria. Qualquer idéia
inovadora era condenada, mesmo que fosse uma idéia científica
defendida por pesquisadores de talento, como Galileu Galilei, que sofreu
perseguição no século XVII por ter afirmado que a
Terra girava em torno do Sol. Os historiadores também coincidem
ao apontar as razões desse movimento de refluxo: em comparação
com seu passado glorioso, os países islâmicos vivem hoje
um período de decadência. O Ocidente cristão, com
o qual conviveram e combateram ao longo dos séculos em pé
de igualdade, às vezes até de superioridade, superou-os
vastamente em matéria de progresso material, científico,
administrativo e tecnológico. A primeira organização
fundamentalista moderna, a Fraternidade Muçulmana, foi criada em
1928 pelo xeque Hasan al-Banna num Egito humilhado pelo colonialismo britânico.
Também ganharam contornos de males a ser combatidos as liberdades
individuais, a emancipação das mulheres, as mudanças
nos padrões familiares e outras transformações que
se sucederam nas sociedades ocidentais. "Aterrorizados por sua visão
do mundo contemporâneo, os integristas procuram abrigo e proteção
num passado que nunca existiu da forma como imaginam hoje", analisou o
iraniano Amir Taheri, autor de dois livros sobre o "terror sagrado".
Chegamos,
assim, àquilo que distingue o fundamentalismo em sua vertente mais
extremada: o recurso à violência como meio não só
legítimo como obrigatório. Ancorados em textos do Corão
ou ensinamentos do profeta e seus seguidores, evidentemente interpretados
da maneira mais literal, os fundamentalistas aperfeiçoam há
séculos uma teoria da violência total. "Aqueles que ignoram
tudo do Islã pretendem que ele recomende não fazer a guerra.
São insensatos. O Islã diz: 'Matem todos os infiéis
da mesma maneira que eles os matariam'", escreveu um dos aiatolás
que lançaram as bases da revolução fundamentalista
que derrotou o regime do xá Reza Pahlevi no Irã. O aiatolá
complementa: "Aqueles que estudam a guerra santa islâmica compreendem
por que o Islã quer conquistar o mundo inteiro. Todos os países
subjugados pelo Islã receberão a marca da salvação
eterna. Pois eles viverão sob a luz da lei celestial". Quando Osama
bin Laden diz que "matar americanos e seus aliados, civis e militares,
é um dever individual de todo muçulmano que tenha condições
de fazer isso, em qualquer lugar onde seja possível fazer isso",
ele está seguindo exatamente o mesmo raciocínio.
É
interessante notar que Laden estabeleceu como objetivo número 1
o seu próprio país, a Arábia Saudita. Quer livrar
o território saudita da presença contaminadora de militares
americanos. A ironia é que na Arábia Saudita já vigora
o mais severo fundamentalismo. É um dos poucos países islâmicos
onde o Corão é a Constituição e as
normas punitivas islâmicas ocupam o lugar do Código Penal.
O Irã xiita, que tem relações gélidas com
as demais nações muçulmanas, e o Sudão também
formam nesse grupo. A unificação e a independência
da Arábia Saudita aconteceram sob a bandeira de uma seita chamada
wahabita, cujo radicalismo é reproduzido agora no Afeganistão
do Talibã. Além de cobrir as mulheres de panos dos pés
à cabeça, sem deixar uma única nesga de pele à
mostra, os wahabitas têm horror a tudo que lembre remotamente diversão
música, cinema, teatro, até vasos de flores a certa
altura foram proibidos. O rei Faisal foi assassinado em 1975 por um sobrinho
por ter tomado uma medida muito liberal: depois de um longo debate teológico,
liberou a televisão. Bebidas alcoólicas rendem chicotadas
em praça pública, a polícia religiosa anda pela rua
controlando qualquer desvio. Até uma princesa da família
reinante foi executada, por adultério. Pois todo esse rigor, para
Laden, não vale nada. Ao permitir que militares americanos se instalassem
no país (para proteger os sauditas, e todo seu petróleo,
da sanha de Saddam Hussein), a monarquia wahabita se transformou em traidora
da fé e merecedora de todos os castigos. É para arrancar
os americanos do solo saudita, reverenciado como o berço do profeta
Maomé e da revelação divina, que Laden iniciou a
campanha de ataques terroristas que culminou com o massacre de Manhattan.
O que pode vir em seguida?
Operações
espetaculares como os atentados contra os Estados Unidos, estarrecedores
tanto por sua magnitude quanto pelas conseqüências em todo
o planeta, podem criar a impressão de que o mundo está à
beira de ser engolfado pelo fundamentalismo mais ensandecido, com massas
de seguidores do profeta tomando o poder de assalto. Na verdade, as duas
grandes ondas de apoio popular aconteceram em 1979, com a revolução
iraniana, e 1991, quando os integristas ganharam, mas não levaram,
as eleições na Argélia. Nos outros países
muçulmanos onde existe algum tipo de teste das urnas, os partidos
fundamentalistas costumam ter em torno de 20% dos votos. Inseridos no
jogo político, acabam envolvidos em projetos nacionais. Isso é
exatamente o oposto do que prega o fundamentalismo, que "rejeita violentamente
não só o nacionalismo, mas a própria idéia
de construir um Estado islâmico num só país", segundo
analisa o pesquisador francês Olivier Roy, estudioso do tema.
Na visão
de Roy, o fundamentalismo "clássico" está em refluxo. Desde
1997, quando aconteceu o massacre dos turistas estrangeiros em Luxor,
não acontecem atentados de grande impacto no Egito. A situação
acalmou-se na Argélia, a violência brutal dos atentados palestinos
contra israelenses acontece contra o pano de fundo de uma luta nacional.
E, ironia das ironias, o Irã dos aiatolás tem agora uma
convergência de interesses com os Estados Unidos no combate aos
talibãs e seu aliado saudita. Para o pesquisador, Laden é
uma aberração até mesmo no contexto do fundamentalismo.
Seus seguidores, arrancados do grupo familiar e da sociedade de origem,
desenraizados e aculturados, "fazem um retorno individual a um Islã
abstrato e desligado da realidade social". Reside aí, justamente,
seu ponto fraco. Como se diria no jargão de uma outra doutrina
fundamentalista, já extinta, eles se afastaram das bases
e por isso estão condenados ao fracasso. Queira Alá que
seja verdade.
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