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O cerco aos homens
das cavernas

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Uma
estranha questão está colocada sobre a mesa dos estrategistas
do Pentágono: como a superpotência, munida das armas mais
sofisticadas que existem, deve combater uma milícia do Quarto Mundo
cujo principal trunfo é a habilidade com que se esconde em cavernas?
Batalhas travadas com muçulmanos fanáticos em estreitas
galerias escavadas no arenito das montanhas afegãs são quase
inevitáveis caso as forças americanas se aproximem do grande
prêmio: a captura, vivo ou morto, de Osama bin Laden, o chefão
do terrorismo islâmico. Túneis e Laden compõem, pode-se
dizer, o mesmo cenário. Assim que chegou ao Afeganistão,
em 1979, para lutar contra os soviéticos, o milionário saudita
decidiu usar sua fortuna e experiência como engenheiro para ampliar,
conectar e fortificar as cavernas que já vinham sendo utilizadas
como abrigo pelos mujahidin, os guerrilheiros islâmicos. Laden mandou
buscar caminhões e maquinaria pesada da empreiteira de sua família
na Arábia Saudita e deu início à construção
de fortalezas encravadas em rocha pura. Estima-se que só na Cordilheira
do Hindu Kush, na região central do Afeganistão, exista
uma complexa rede de 10 000 cavernas. É quase irônico que
os responsáveis pela destruição do World Trade Center,
símbolo da modernidade e da prosperidade econômica, acabem
caçados em tocas, como trogloditas pré-históricos.
O uso militar de cavernas é uma tradição afegã.
Nos anos 80, naturais ou abertas pelos guerrilheiros, elas serviam de
posto de observação e de espera para emboscar os soldados
soviéticos. Era de dentro dessas trincheiras que os guerrilheiros
disparavam os mísseis Stinger, fornecidos pela CIA, de efeito tão
devastador contra os helicópteros e aviões da União
Soviética. Depois da guerra, os Estados Unidos ofereceram 100.000
dólares por cada Stinger devolvido, mas estima-se que pelo menos
100 deles tenham sido guardados como troféus por chefes tribais.
Nada se compara ao furor obsessivo com que Laden se pôs a construir
trincheiras, abrigos subterrâneos e a escavar túneis nos
anos 90. Ele não poupou dinheiro para terminar uma série
de complexos fortificados em vários pontos do país. Cada
uma dessas bases é guardada por metralhadoras e artilharia antiaérea.
Um assalto para tirar os terroristas das tocas exigiria bombardeios pesados,
incluindo o uso de mísseis capazes de penetrar a rocha (veja
quadro). A seguir, forças especiais precisariam
infiltrar-se nas galerias para o que seria literalmente uma luta corpo
a corpo. A experiência mais parecida com isso ocorreu nos túneis
cavados pelos guerrilheiros comunistas no Vietnã mas esses
não eram tão extensos, largos e profundos nem tão
bem defendidos como os do saudita Laden.
Reuters

A
BUSCA POR REFÚGIO
Refugiados afegãos chegam ao Paquistão: fuga apressada para escapar
da guerra e da opressão do Talibã |
Em
que momento começará a batalha dos túneis, para a
qual, dizem os jornais londrinos, os soldados da SAS inglesa e das forças
especiais americanas estão treinando intensamente? O que se pode
dizer é que na semana passada, quase um mês depois dos atentados
de 11 de setembro, a campanha antiterrorista finalmente parece ter chegado
à fase militar. Não apenas as forças mobilizadas
para a guerra se postaram em torno do Afeganistão para o ataque
como os alvos prioritários dos bombardeios já estão
escolhidos. São uma dúzia de campos de treinamento da Al
Qaeda, a organização de Laden (entre elas a célebre
área da Brigada 055, na qual se acredita que sejam treinados terroristas
suicidas), cinco ou seis bases aéreas e guarnições
com tropas do Talibã. Há também usinas elétricas,
equipamentos de comunicação e lugares onde se armazena combustível.
Em Washington e Londres, o presidente George W. Bush e o primeiro-ministro
Tony Blair fizeram pronunciamentos que soaram como chamados às
armas. Ao exibir as provas contra o terrorista saudita, Blair afirmou
que o Talibã e Osama bin Laden são "dois lados da mesma
moeda. Osama não poderia existir no Afeganistão sem o Talibã
e o Talibã não poderia existir sem Osama". A mensagem é
claríssima: não há mais tempo ou disposição
para negociar com a milícia de fanáticos islâmicos
que controla quase todo o território do Afeganistão e protege
o terrorista saudita. O Talibã será destruído junto
com a organização de Laden.
AFP

A rivalidade tribal impede que a vitória da Aliança
do Norte, que reúne etnias minoritárias, pacifique o
país |
O
que até a sexta-feira passada ainda segurava o gatilho era a necessidade
de amarrar pontas soltas na coalizão internacional. O secretário
da Defesa americano, Donald Rumsfeld, partiu em visita à Arábia
Saudita, Omã, Egito e Uzbequistão. Sua missão era
convencer esses aliados nervosos a conceder apoio militar e logístico.
Na hora em que precisam ir além do apoio verbal, essas nações
hesitam, com medo de provocar a fúria de seus próprios fundamentalistas.
A monarquia saudita prometeu cooperar com os americanos, mas, pelo menos
em público, insistiu que não vai permitir o uso de seu território
como ponto de partida para ataques a outros países muçulmanos.
Na verdade, em nenhum desses países Rumsfeld obteve carta branca
para agir. Até o momento, a mais promissora base disponível
é o Uzbequistão, país que tem problemas com seus
próprios fundamentalistas. Na semana passada, admitiu-se o envio
dos primeiros 1 000 soldados americanos para lá. O esforço
para cativar o mundo muçulmano azedou as relações
com um aliado tradicional, Israel. Irritado com a insistência americana
por trégua no conflito com os palestinos, na quinta-feira, o primeiro-ministro
Ariel Sharon advertiu aos Estados Unidos, em tom agressivo, que não
tentem "chegar a um acordo com os árabes em detrimento de Israel".
Com rispidez inusitada, a Casa Branca qualificou as palavras de Sharon
como "inaceitáveis". Nesse ambiente tenso, só faltava a
explosão misteriosa de um avião russo, que partira de Tel-Aviv
com 76 pessoas a bordo. É bem possível que tenha sido atingido
acidentalmente por um míssil disparado em exercícios militares
na Ucrânia mas a suspeita de novo terrorismo aéreo
injetou nova onda de tensão.
Com a máquina de guerra azeitada, os Estados Unidos tiveram fôlego
para se dedicar a outra questão: organizar como será a vida
do Afeganistão depois da destruição do Talibã.
Na última semana, até o governo do Paquistão, o único
que ainda mantém um canal diplomático com os fundamentalistas
de Cabul, admitiu que os dias da milícia estão contados.
Uma das dores de cabeça dos aliados da coalizão antiterrorista
é como pacificar o Afeganistão de modo que deixe de ser
um terreno fértil para o surgimento e treinamento de terroristas.
A saída mais atraente no horizonte é a Aliança do
Norte, que representa a única oposição organizada
ao Talibã. Uma coligação de forças diversas
reúne talvez 15.000 guerrilheiros e controla cerca de 10% do território
afegão. Há um problema óbvio nessa solução.
Esses combatentes são recrutados nas etnias minoritárias
tadjiques, uzbeques e hazarás , enquanto foi entre
os patanes, a majoritária, que surgiu o Talibã. Dado o peso
das rivalidades tribais, é quase impossível que o Afeganistão
seja unificado por essas etnias minoritárias. Há outro problema.
A Aliança do Norte tem um passado terrível. No governo até
1996, arruinou o país com rixas sangrentas entre as facções,
saques e massacres generalizados. A situação era tão
ruim que os afegãos respiraram aliviados com a chegada do puritanismo
talibã pelo menos por algum tempo. Para ter alguma chance,
a Aliança precisaria se expandir, incluindo maior número
de patanes.
Se alguém pode iniciar um movimento de colagem do mosaico afegão
é o patane Mohamed Zahir Shah, o rei exilado. Aos 86 anos, ele
vive em Roma há quase três décadas e já disse
que nem pensa no retorno da monarquia. Mas, depois de um encontro com
líderes da Aliança do Norte há uma semana, Zahir
aceitou retornar a Cabul e convocar uma Loya Jirga, assembléia
de líderes religiosos e tribais. O país também não
tem boas recordações da monarquia, que foi violenta e instável.
O criador do Afeganistão moderno, Abdor Rahman, que reinou de 1880
a 1901, foi o único a comandar sem golpes. Os quatro reis seguintes
foram assassinados. Zahir Shah, que criou uma monarquia constitucional,
com eleições e partidos, foi derrubado por um primo, em
1973. Na verdade, o rei que querem trazer de volta nunca governou. Primeiro,
muito jovem, foi tutelado por tios. Depois, por primeiros-ministros eleitos.
Daí vem a imagem de bonachão, de um governante sem gosto
pelo poder, que desfruta entre seu povo. Um rei bonachão? Que alívio
não seria para os afegãos depois da tirania de Omar, o mulá
de um só olho que manda açoitar as mulheres, proibiu a música,
o jogo de cartas e deu abrigo a terroristas internacionais.
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