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Edição 1 721 - 10 de outubro de 2001
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O cerco aos homens
das cavernas

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Alvos dos EUA no Afeganistão

Uma estranha questão está colocada sobre a mesa dos estrategistas do Pentágono: como a superpotência, munida das armas mais sofisticadas que existem, deve combater uma milícia do Quarto Mundo cujo principal trunfo é a habilidade com que se esconde em cavernas? Batalhas travadas com muçulmanos fanáticos em estreitas galerias escavadas no arenito das montanhas afegãs são quase inevitáveis caso as forças americanas se aproximem do grande prêmio: a captura, vivo ou morto, de Osama bin Laden, o chefão do terrorismo islâmico. Túneis e Laden compõem, pode-se dizer, o mesmo cenário. Assim que chegou ao Afeganistão, em 1979, para lutar contra os soviéticos, o milionário saudita decidiu usar sua fortuna e experiência como engenheiro para ampliar, conectar e fortificar as cavernas que já vinham sendo utilizadas como abrigo pelos mujahidin, os guerrilheiros islâmicos. Laden mandou buscar caminhões e maquinaria pesada da empreiteira de sua família na Arábia Saudita e deu início à construção de fortalezas encravadas em rocha pura. Estima-se que só na Cordilheira do Hindu Kush, na região central do Afeganistão, exista uma complexa rede de 10 000 cavernas. É quase irônico que os responsáveis pela destruição do World Trade Center, símbolo da modernidade e da prosperidade econômica, acabem caçados em tocas, como trogloditas pré-históricos.

O uso militar de cavernas é uma tradição afegã. Nos anos 80, naturais ou abertas pelos guerrilheiros, elas serviam de posto de observação e de espera para emboscar os soldados soviéticos. Era de dentro dessas trincheiras que os guerrilheiros disparavam os mísseis Stinger, fornecidos pela CIA, de efeito tão devastador contra os helicópteros e aviões da União Soviética. Depois da guerra, os Estados Unidos ofereceram 100.000 dólares por cada Stinger devolvido, mas estima-se que pelo menos 100 deles tenham sido guardados como troféus por chefes tribais. Nada se compara ao furor obsessivo com que Laden se pôs a construir trincheiras, abrigos subterrâneos e a escavar túneis nos anos 90. Ele não poupou dinheiro para terminar uma série de complexos fortificados em vários pontos do país. Cada uma dessas bases é guardada por metralhadoras e artilharia antiaérea. Um assalto para tirar os terroristas das tocas exigiria bombardeios pesados, incluindo o uso de mísseis capazes de penetrar a rocha (veja quadro). A seguir, forças especiais precisariam infiltrar-se nas galerias para o que seria literalmente uma luta corpo a corpo. A experiência mais parecida com isso ocorreu nos túneis cavados pelos guerrilheiros comunistas no Vietnã – mas esses não eram tão extensos, largos e profundos nem tão bem defendidos como os do saudita Laden.

 
Reuters

A BUSCA POR REFÚGIO
Refugiados afegãos chegam ao Paquistão: fuga apressada para escapar da guerra e da opressão do Talibã

Em que momento começará a batalha dos túneis, para a qual, dizem os jornais londrinos, os soldados da SAS inglesa e das forças especiais americanas estão treinando intensamente? O que se pode dizer é que na semana passada, quase um mês depois dos atentados de 11 de setembro, a campanha antiterrorista finalmente parece ter chegado à fase militar. Não apenas as forças mobilizadas para a guerra se postaram em torno do Afeganistão para o ataque como os alvos prioritários dos bombardeios já estão escolhidos. São uma dúzia de campos de treinamento da Al Qaeda, a organização de Laden (entre elas a célebre área da Brigada 055, na qual se acredita que sejam treinados terroristas suicidas), cinco ou seis bases aéreas e guarnições com tropas do Talibã. Há também usinas elétricas, equipamentos de comunicação e lugares onde se armazena combustível.

Em Washington e Londres, o presidente George W. Bush e o primeiro-ministro Tony Blair fizeram pronunciamentos que soaram como chamados às armas. Ao exibir as provas contra o terrorista saudita, Blair afirmou que o Talibã e Osama bin Laden são "dois lados da mesma moeda. Osama não poderia existir no Afeganistão sem o Talibã e o Talibã não poderia existir sem Osama". A mensagem é claríssima: não há mais tempo ou disposição para negociar com a milícia de fanáticos islâmicos que controla quase todo o território do Afeganistão e protege o terrorista saudita. O Talibã será destruído junto com a organização de Laden.

 
AFP

A rivalidade tribal impede que a vitória da Aliança do Norte, que reúne etnias minoritárias, pacifique o país

O que até a sexta-feira passada ainda segurava o gatilho era a necessidade de amarrar pontas soltas na coalizão internacional. O secretário da Defesa americano, Donald Rumsfeld, partiu em visita à Arábia Saudita, Omã, Egito e Uzbequistão. Sua missão era convencer esses aliados nervosos a conceder apoio militar e logístico. Na hora em que precisam ir além do apoio verbal, essas nações hesitam, com medo de provocar a fúria de seus próprios fundamentalistas. A monarquia saudita prometeu cooperar com os americanos, mas, pelo menos em público, insistiu que não vai permitir o uso de seu território como ponto de partida para ataques a outros países muçulmanos. Na verdade, em nenhum desses países Rumsfeld obteve carta branca para agir. Até o momento, a mais promissora base disponível é o Uzbequistão, país que tem problemas com seus próprios fundamentalistas. Na semana passada, admitiu-se o envio dos primeiros 1 000 soldados americanos para lá. O esforço para cativar o mundo muçulmano azedou as relações com um aliado tradicional, Israel. Irritado com a insistência americana por trégua no conflito com os palestinos, na quinta-feira, o primeiro-ministro Ariel Sharon advertiu aos Estados Unidos, em tom agressivo, que não tentem "chegar a um acordo com os árabes em detrimento de Israel". Com rispidez inusitada, a Casa Branca qualificou as palavras de Sharon como "inaceitáveis". Nesse ambiente tenso, só faltava a explosão misteriosa de um avião russo, que partira de Tel-Aviv com 76 pessoas a bordo. É bem possível que tenha sido atingido acidentalmente por um míssil disparado em exercícios militares na Ucrânia – mas a suspeita de novo terrorismo aéreo injetou nova onda de tensão.

Com a máquina de guerra azeitada, os Estados Unidos tiveram fôlego para se dedicar a outra questão: organizar como será a vida do Afeganistão depois da destruição do Talibã. Na última semana, até o governo do Paquistão, o único que ainda mantém um canal diplomático com os fundamentalistas de Cabul, admitiu que os dias da milícia estão contados. Uma das dores de cabeça dos aliados da coalizão antiterrorista é como pacificar o Afeganistão de modo que deixe de ser um terreno fértil para o surgimento e treinamento de terroristas. A saída mais atraente no horizonte é a Aliança do Norte, que representa a única oposição organizada ao Talibã. Uma coligação de forças diversas reúne talvez 15.000 guerrilheiros e controla cerca de 10% do território afegão. Há um problema óbvio nessa solução. Esses combatentes são recrutados nas etnias minoritárias – tadjiques, uzbeques e hazarás –, enquanto foi entre os patanes, a majoritária, que surgiu o Talibã. Dado o peso das rivalidades tribais, é quase impossível que o Afeganistão seja unificado por essas etnias minoritárias. Há outro problema. A Aliança do Norte tem um passado terrível. No governo até 1996, arruinou o país com rixas sangrentas entre as facções, saques e massacres generalizados. A situação era tão ruim que os afegãos respiraram aliviados com a chegada do puritanismo talibã – pelo menos por algum tempo. Para ter alguma chance, a Aliança precisaria se expandir, incluindo maior número de patanes.

Se alguém pode iniciar um movimento de colagem do mosaico afegão é o patane Mohamed Zahir Shah, o rei exilado. Aos 86 anos, ele vive em Roma há quase três décadas e já disse que nem pensa no retorno da monarquia. Mas, depois de um encontro com líderes da Aliança do Norte há uma semana, Zahir aceitou retornar a Cabul e convocar uma Loya Jirga, assembléia de líderes religiosos e tribais. O país também não tem boas recordações da monarquia, que foi violenta e instável. O criador do Afeganistão moderno, Abdor Rahman, que reinou de 1880 a 1901, foi o único a comandar sem golpes. Os quatro reis seguintes foram assassinados. Zahir Shah, que criou uma monarquia constitucional, com eleições e partidos, foi derrubado por um primo, em 1973. Na verdade, o rei que querem trazer de volta nunca governou. Primeiro, muito jovem, foi tutelado por tios. Depois, por primeiros-ministros eleitos. Daí vem a imagem de bonachão, de um governante sem gosto pelo poder, que desfruta entre seu povo. Um rei bonachão? Que alívio não seria para os afegãos depois da tirania de Omar, o mulá de um só olho que manda açoitar as mulheres, proibiu a música, o jogo de cartas e deu abrigo a terroristas internacionais.

 
 
   
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