A farra do forró

Bailes nordestinos viram moda no sul do país
e fazem a festa dos jovens da classe média

Ana Pessoa

Forró numa danceteria paulistana: milhares de pessoas divertem-se ao som da sanfona e da zabumba
Foto: Antonio Milena  

Depois do samba, chegou a vez de o forró fazer a classe média sacudir o esqueleto. O tradicional baile nordestino atravessou o sertão e virou moda nas pistas de dança das capitais do Sul e do Sudeste. A maioria dos neoforrozeiros nunca arrastou as sandálias de griffe em festas típicas do gênero, como os célebres forrós de Caruaru, no interior de Pernambuco. Mas já se tinha deixado levar por nativos bronzeados em festas sobre terra batida de praias badaladas, como Jericoacoara, no Ceará, e Trancoso, na Bahia. "Muita gente aprendeu a dançar durante as férias nesses lugarejos e agora aproveita para se exercitar nos bares da moda da capital", diz Guilardo Veloso, dono de uma casa noturna em Belo Horizonte.

Diversos lugares reservam uma noite por semana para o forró. No Projeto Equilíbrio, em São Paulo, toda sexta-feira é dia de bailão e de faturar alto com as 1.000 pessoas que se reúnem para o arrasta-pé ao som de sanfona, zabumba e triângulo. "O mais legal é dançar juntinho, aproveitar para perder a timidez e conhecer muita gente", explica a estudante Mariana Bueno, de 21 anos. Os forrós tradicionais, antes freqüentados apenas por migrantes nordestinos de baixa renda, também passaram a receber uma chusma de bacanas. O Asa Branca, no centro do Rio de Janeiro, tornou-se ponto de atração para a moçada da Zona Sul. Outra novidade entre os cariocas é promover forrós em casarões antigos dos bairros de Botafogo, Santa Teresa e Jardim Botânico. "É uma alternativa a mais de diversão, com a vantagem de divulgar uma parte da cultura brasileira que mal conhecemos", filosofa a estudante Cláudia Quelhas, de 22 anos.

Foto: Antonio Milena
O professor Cunha
numa aula de forró:
"Basta relaxar"

O sucesso do forró no Sul Maravilha vem atraindo bandas nordestinas, como a pernambucana Mestre Ambrósio, que se instalou em São Paulo. "Gravamos um CD por conta própria e em pouco tempo vendemos 10.000 cópias", espanta-se o vocalista e violeiro Siba. "Desde que mudamos de região não paramos de fazer shows. Estivemos no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte e em Curitiba." Ao contrário do que acontece em boa parte do Nordeste, onde o forró se pasteurizou para atrair a turistada estrangeira, os hits nas pistas de dança do Sul e do Sudeste são os clássicos do gênero canções como Asa Branca, Xote das Meninas e Coisa Bonita. "Forró eletrônico, do tipo Mastruz com Leite, é proibido", diz a produtora Ana Lana, descobridora do filão em Minas Gerais.

Muita gente pensa que o termo "forró" é uma forma abrasileirada da expressão inglesa for all (para todos) assim como o nome maranhense Sarney surgiu de sir Ney. "Isso é lenda", diz o historiador de música e ritmos brasileiros José Ramos Tinhorão. Forró, explica ele, é na verdade uma abreviação da palavra "forrobodó", que significa confusão, desordem. "Trata-se de uma palavra muito apropriada", completa Tinhorão, "pois forró não é um ritmo, é um baile popular, uma festa bagunçada, onde se tocam ritmos diversos como baião, xote, xaxado, maracatu, embolada e coco." Nessa confusão, vale tudo até não saber dançar. "Forró é a coisa mais fácil do mundo. Basta relaxar e inventar o próprio passo", diz o professor de dança de salão Marcelo Cunha, que há um ano ministra cursos específicos dos ritmos do forró. "O que vale é a sedução."

Com reportagem de Roberta Cavalcanti, do Rio de Janeiro
e
José Edward, de Belo Horizonte




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