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O MITO ETERNIZADO

Lizia Bydlowski

Daqui a cinqüenta anos, quando alguém for contar a história de Diana, a princesa de Gales, talvez seja difícil explicar a comoção mundial que despertou, em vida e na morte trágica. Diana se casou muito bem e se divorciou muito mal os dois fatos mais retumbantes de seus 36 anos. Nunca, no entanto, fez nada de excepcional. Ao ter o peito destroçado no desastre ocorrido em um túnel de Paris, na madrugada do domingo 31 de agosto, ela era simplesmente "a esposa divorciada de um herdeiro já velhusco do trono de uma monarquia puramente cerimonial e cada vez mais desacreditada, e a mãe do provável herdeiro do herdeiro". A definição foi feita por David Aaronovitch, colunista do jornal inglês The Independent. Tudo verdade e, no entanto, nada mais longe da realidade.

Para os cínicos, os de coração duro e mente ferina, ela podia ser realmente uma moça fútil, obcecada por roupas da moda, participante voluntária de uma farsa que a transformou em modelo de noiva virginal, primeiro, e depois em ícone no qual se projetavam os sonhos e frustrações de milhões de mulheres comuns, que não tinham sua beleza, nem seu status, nem seu dinheiro. Para os outros, que não estavam preocupados em dissecar mitos, ela era uma fonte de diversão, de alegria, de encantamento, de empatia. A jovem mal saída da adolescência, escolhida como Cinderela pelo herdeiro do trono inglês, ia se casar, envolta em nuvens de seda marfim e véus cerimoniais que espetáculo mais interessante existiria? Depois o príncipe mau a rejeitava, humilhava, arrumava outra. Como uma mártir dos infortúnios conjugais, Diana expunha sua tristeza, chorava, sofria. Que enredo de novela se compararia a isso? O ex passava a persegui-la, tramando intrigas por suas costas, e ela resistia, valente, cada vez mais bonita, cada vez mais chique, cada vez mais desafiadora. Todas as mulheres rejeitadas do mundo, e quantas não as há, se sentiam vingadas. Podia haver coisa melhor?

O fascínio de Diana se ancorava em dois fatos que, conjugados, lhe conferiam uma posição única: ela era bela e era princesa, princesa de verdade, da monarquia mais prestigiada do mundo ocidental, não de um playground de ricos como a Mônaco de Grace Kelly. Qual menina não cresceu ouvindo histórias de princesas de olhos azuis, as mais lindas de seus reinos? Diana era o retrato moderno dessa imagem ancestral. Desde o momento em que apareceu pela primeira vez como a escolhida por Charles, na foto famosa em que segura duas crianças da escolinha maternal onde era professora, olhar tímido de baixo para cima, as pernas bem delineadas pelo tecido fino da saia, fotografada na contraluz, ninguém teve dúvidas. Essa, sim, era uma princesa, ou a idéia que se tem de uma princesa, não aquelas senhoras com roupas antiquadas e feições eqüinas da família real. Bela e única, ela tinha mais outra característica rara, que desde os primórdios do cinema se tenta definir como star quality, o brilho especial que, entre milhares de mulheres bonitas, faz com que apenas uma se firme como estrela. É difícil de explicar, mas quem alguma vez viu Diana entrar em qualquer lugar que fosse, num salão de recepções, num hospital ou numa chatíssima fila de cumprimentos oficiais, não ficou com a menor dúvida ela ofuscava tudo à sua volta.

A transformação de Diana nessa mulher fascinante, capaz de embasbacar o mais sofisticado dos esnobes, foi acompanhada pelo mundo inteiro. Ao surgir como namoradinha dos sonhos do príncipe Charles, no final de 1980, lady Diana Frances Spencer era uma jovem de 19 anos bonitinha e de família aristocrática, que vivia em um apartamento próprio em Londres com mais três colegas. Trabalhava três vezes por semana no jardim-de-infância, fazia bicos como babá nas horas vagas, adorava as aulas de balé, deixava roupas jogadas pela casa, comia muita massa e chocolate e tinha de estar sempre de olho na balança, para manter a forma enquanto praticava o esporte próprio para sua classe e idade: procurar marido. Um marido de verdade, para a vida toda, que a amasse incondicionalmente. Esse é o sonho de qualquer garota sem maiores ambições, mas para ela tinha um peso total, absoluto.

Ah, como Diana queria ser amada e como sofreu com a rejeição. Aos 6 anos, viu a mãe, Frances, fazer as malas e partir, apaixonada por outro. Frances mandou buscar Diana e o filho Charles, três anos mais novo (Jane e Saentar a nação, num programa de TV, e admitir, compungido, que havia sido infiel, "mas só depois do naufrágio do casamento". Condenação geral. Diana confirmava o romance com Hewitt, cabeça inclinada num ângulo melancólico. Pobrezinha. Charles tinha uma equipe de nove pessoas para melhorar sua imagem e salvar seu direito a trono. Diana punha um vestido decotado, glamouroso, e não sobrava espaço para ninguém mais.

O príncipe nunca foi equipado para enfrentar uma mulher assim. Criado para cumprir estritamente seus deveres de herdeiro real e manter a compostura em qualquer circunstância, ele se interessa por ecologia, arquitetura, vida ao ar livre segundo os padrões da aristocracia e música clássica. É capaz de cumprimentar várias centenas de pessoas por dia e dizer uma frase gentil a cada uma delas. Diana, que só estudou até os 16 anos e certa vez se declarou, faceiramente, "burra como uma porta", tinha o calor humano que faltava ao ex-marido. "Todos os discursos sobre a floresta tropical e a arquitetura dos centros urbanos empalidecem diante da mulher mais popular da Inglaterra", resumiu o escritor Anthony Holden, autor de uma biografia sobre o príncipe.

Foi em cima dessa empatia natural que Diana desenvolveu a face mais bonita de sua personalidade a preocupação, inegavelmente genuína, pelos doentes, os desvalidos, os infelizes. "Ela quer ser a santa Diana dos gays?", provocou um tablóide quando a princesa segurou longamente a mão de um aidético terminal, com as pernas escalavradas pelo sarcoma de Kaposi. As críticas se repetiriam anos depois, quando Diana, em sua fúria humanitária, chegou a assistir uma cirurgia cardíaca de maquilagem completa e brincos. Os inimigos de Diana, ou os amigos de Charles, chegaram a plantar fofocas, dizendo que ela estava virando mitômana e acreditava que podia curar com o toque das mãos curiosamente, um dom que até há alguns séculos era atribuído ao monarca. "Se ela tivesse a cara da princesa Anne, ninguém lhe atribuiria poderes mágicos", ironizou o colunista Aaronovitch.

Tudo inútil. Diana deixou uma imagem de personalidade pública que se preocupava realmente com a infelicidade alheia, e qualquer pessoa que já tenha visto um político em campanha sabe dizer a diferença entre o verdadeiro e o encenado. Ninguém sabia, como ela, pegar uma criança no colo, consolar um enfermo, comover-se diante de uma vítima da guerra ou das minas terrestres, sua última e mais difundida causa. Segundo confidentes, com quem conversou pouco antes do encontro trágico com o destino num túnel de Paris, até essas causas, no entanto, ela pretendia abandonar. Diana achava que tinha encontrado o amor, todo aquele amor que não teve do marido indiferente, da mãe ausente, do pai distante. O amor que contou para o mundo há menos de dois meses, quando, sem dizer palavra, exibiu o namoro com Dodi Fayed, o playboy milionário, muçulmano e nascido no Egito em tudo e por tudo o oposto do que a "Firma", como a família real se autodenomina, gostaria de ver como padrasto do futuro rei da Inglaterra.

A princesa parecia relaxada e contente nos passeios de iate com Dodi, fotografados a distância por um batalhão de papparazzi. Segundo os amigos, andava felicíssima e falava em se casar e ter mais filhos. A modelo Cindy Crawford, sua amiga desde que Diana a procurou para lhe apresentar William, fã da beldade americana como qualquer garoto da sua idade (e qual não se desmancharia com uma mãe assim?), revelou que ela e Dodi vinham se encontrando há quase um ano. William e Harry, os filhos adorados, iam se encontrar com a mãe em Londres, no domingo, para aproveitar os últimos dias de férias. Se o caso fosse adiante, a família do ex-marido certamente iria fazer cara feia mas, no fundo, até que acharia bom. O preço de um novo casamento, para Diana, seria deixar a Inglaterra. Nos braços de um homem com muito dinheiro e pouco pedigree, Diana talvez perdesse a aura de fascínio. Talvez o romance não desse certo, e viria outro, e mais outro. Morta, tragicamente, aos 36 anos, nada disso acontecerá. O mito fica eternizado, congelado no tempo, no esplendor de sua beleza e graça. Para a família real, um peso incômodo. Para o resto do mundo, uma lembrança encantadora.




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