| |
MORTE NO TÚNEL
Excesso de
velocidade e uma sucessão de erros grosseiros na
segurança da princesa resultam em trombada fatal
Eurípedes
Alcântara, de Paris
Por alguns segundos
o veterano fotógrafo francês Jacques Langevin chegou a
pensar que a princesa Diana estava acenando para ele e os
colegas que descarregavam furiosamente os flashes de suas
câmaras sobre ela na noite de sábado 30 de agosto.
Diana voltava ao Hotel Ritz-Carlton, na Praça Vendôme,
o endereço mais elegante de Paris, depois de ir às
compras na Avenida Champs-Elysées. Não era aceno. Diana
levantou o braço direito apenas para proteger os olhos
do espocar estonteante das luzes. "Foi um gesto
mecânico", lembra Langevin. Bem poderia ser um
aceno. No começo de julho, no sul da França, ela havia
estarrecido os fotógrafos ao se aproximar deles para,
com expressão enigmática e alegre, prometer para breve
uma "surpresa enorme"
logo depois, tornou-se público, através dos mesmos
paparazzi, o seu namoro com o milionário egípcio Dodi
Fayed. A princesa, o namorado e os flashes de Langevin e
seus colegas se cruzariam minutos mais tarde no cenário
de terror e morte de uma tragédia que ainda não pode
ser dissecada com precisão mas cuja magnitude fez com
que se apontassem apressadamente os culpados.
O inquérito que
apura as causas do acidente com o Mercedes-Benz S 280 que
se espatifou a quase 200 quilômetros por hora no pilar
de um túnel paralelo ao Rio Sena em Paris, matando a
princesa Diana, o namorado e o motorista, chegava a 350
páginas no final da semana passada. Estão indiciados
como suspeitos um motoqueiro e nove fotógrafos, entre
eles Langevin. Os fotógrafos são acusados de ter
contribuído para o desastre ao perseguir o automóvel na
tentativa de fazer fotos de Diana e Dodi. Pesa ainda
sobre eles a suspeita de omissão de socorro a feridos
num acidente de trânsito, como exige a lei. Se
condenados, os fotógrafos podem pegar cinco anos de
cadeia e pagar uma multa equivalente a 83.000 dólares.
De certa forma já foram julgados pela opinião pública.
Muros em Paris apareceram pichados com a expressão
"paparazzi assassinos".
Na quinta-feira,
decidiu-se incluir na lista dos responsabilizáveis pelo
acidente o Ritz, cujo dono é Mohammed Al Fayed, pai do
pretendente da princesa. O Mercedes estava sendo dirigido
por Henri Paul, o segundo homem na hierarquia da
segurança do hotel. O motorista morreu na hora e há
fortes evidências de que estivesse conduzindo a princesa
depois de ingerir o equivalente a sete doses de uísque,
sua bebida favorita. Se tivesse sobrevivido, o próprio
Dodi também poderia ter sua parcela de culpa apurada. Na
madrugada fatídica de domingo foi o esquema de
segurança montado por Dodi Fayed que falhou. "Um
motorista não acelera o carro a mais de 100 quilômetros
por hora a não ser que o patrão lhe dê ordens para
fazer isso", acusa Jean-Marc Coblence, advogado de
um dos fotógrafos acusados. "Um motorista só
trabalha bêbado porque os critérios de segurança de
seu patrão são relaxados."
Vão se passar
ainda alguns meses antes que se possa reconstruir com
exatidão os detalhes mais íntimos da tragédia. O
único sobrevivente, o guarda-costas Trevor Rees-Jones,
está fora de perigo num hospital parisiense. Ele perdeu
todo o lábio inferior, dois terços da língua e
fraturou o maxilar em diversos pontos. Rees-Jones só
poderá depor dentro de um ou dois meses. "Quando
ele conseguir falar, o inquérito poderá mudar de
rumo", diz o advogado William Bourdon, que defende
outro dos fotógrafos suspeitos. Com o que já se sabia
da apuração até o final da semana passada, pode-se
montar um cenário bastante aproximado das
imprevidências, erros e fatalidades cuja soma levou à
morte a princesa Diana:
O
carro menos seguro. Talvez intimidados
com o cerco dos fotógrafos ao Ritz, Diana e Dodi mandam
cancelar a reserva no restaurante Benoit e jantam na
suíte presidencial do próprio hotel. Diana comeu uma
entrada de cogumelos e aspargos e, como prato principal,
linguado assado. Decidem passar a noite na casa de Dodi
em vez de ficar ali mesmo no hotel. Um Mercedes S 600, um
S 280 e um utilitário Land Rover de vidros enegrecidos
esperam pelo casal. Os seguranças decidem usar o S 600 e
o Land Rover como despiste. Os dois carros saem em
disparada como se levassem os passageiros. Os fotógrafos
não se deixam enganar. Diana e Fayed têm então de ser
transportados no Mercedes S 280 alugado, que, ao
contrário do modelo maior, não possui airbag nas portas
nem ETS, ou "sistema eletrônico de
estabilidade", um computador de bordo que corrige a
trajetória do carro quando o motorista entra muito veloz
nas curvas.
O
motorista bêbado. Para dar mais realismo ao
disfarce, o motorista que normalmente serve ao casal saiu
dirigindo o carro vazio. Diana e Dodi ficaram nas mãos
de Henri Paul. Aos 41 anos, solteiro, piloto brevetado,
diplomado pela Mercedes-Benz num curso de direção
defensiva e de transporte de executivos, Paul caiu nas
graças dos Fayed, a quem servia havia dez anos.
Funcionário aplicado, adorava o convívio com os ricos e
famosos. Fazia-se fotografar ao lado deles e, no
trabalho, bebia apenas suco de laranja e água mineral
Perrier. Nas horas de folga, relaxava com doses generosas
de uísque. Na noite de sábado, Paul havia sido
dispensado e já se entregara à garrafa quando veio a
ordem do patrão para se apresentar de novo ao trabalho.
Paul sentou-se ao volante do carro com o qual levaria a
si mesmo e a princesa de Gales à morte com 1,87 grama de
álcool por litro de sangue no organismo, concentração
quase quatro vezes maior que a permitida pela lei
francesa. Com a mesma quantidade de álcool em
circulação, muitas pessoas não conseguiriam sequer
acertar o buraco da chave no contato do carro.
O
erro fatal. Os técnicos franceses
acreditam que apenas o guarda-costas sobrevivente,
Rees-Jones, usava o cinto de segurança. Como os airbags
foram acionados no primeiro choque lateral com o paredão
do túnel, quando o Mercedes bateu de frente no pilar
não havia mais proteção alguma para os passageiros.
Henri Paul entrou a mais de 180 quilômetros por hora no
túnel de L'Alma, batizado assim em homenagem a uma
batalha na Guerra da Criméia. A pedido de uma rede de TV
francesa, o ex-piloto de Fórmula 1 Jean-Pierre Beltoise,
contemporâneo de Emerson Fittipaldi, refez o trajeto do
Mercedes da princesa Diana. Seu diagnóstico: só um
piloto profissional, com carro de competição,
conhecendo a pista, poderia entrar e sair ileso do túnel
de L'Alma a mais de 180 quilômetros por hora. Logo na
entrada do túnel há uma leve curva para a esquerda, em
declive. Paul perdeu a direção. O Mercedes seguiu em
linha reta e o lado direito do carro chocou-se com o
paredão do túnel. Foi um choque de raspão, mas tão
violento que estilingou o Mercedes para o lado oposto da
pista numa trajetória balística. Um segundo depois, o
Mercedes bateu de frente contra o pilar. O carro capotou,
girou sobre seu eixo, bateu de novo no muro e,
finalmente, parou sobre as quatro rodas.
E os fotógrafos
que os seguiam? A polícia ainda não tem elementos
conclusivos para afirmar que tiveram culpa direta no
acidente. Na hipótese mais assustadora, eles teriam
armado uma emboscada para o Mercedes, deixando um carro
ou um motoqueiro nas proximidades do túnel de forma a
obrigar o motorista de Diana a diminuir a velocidade. O
inquérito policial não menciona essa hipótese, mas ela
não foi de todo abandonada. Na quinta-feira, um francês
do interior do país que passava férias em Paris,
François Levi, procurou os jornais para contar, pelo
telefone, que viu pelo retrovisor de seu carro o
Mercedes-Benz que conduzia Diana desviar de uma
motocicleta antes de bater no paredão do túnel. Se a
informação de Levi puder ser confirmada, os policiais
terão em mãos a mais forte evidência contra os
fotógrafos. Até agora se acreditava que eles apenas
seguiram o Mercedes a distância com suas motos. Os
fotógrafos são unânimes em dizer que perderam o carro
de vista na Praça de la Concorde, quando Paul teria
furado um sinal vermelho, deixando-os para trás.
E depois do choque?
A cronologia mais aproximada do que se passou no túnel
de L'Alma nos minutos que se seguiram ao acidente sugere
que alguns dos paparazzi foram as primeiras pessoas a se
aproximar do carro acidentado. O primeiro telefonema de
alerta aos bombeiros foi dado do celular de um fotógrafo
à 0h27 de domingo. Frédéric Maillez, um médico de 38
anos que passava por acaso no túnel, foi o primeiro a
atender Diana. "Ela gesticulava caoticamente e
balbuciava coisas sem sentido", contou Maillez, que
fez seu trabalho sem saber a identidade da loira em quem
aplicou uma máscara de oxigênio e corrigiu a posição
do pescoço, que estava caído sobre o ombro direito,
dificultando a respiração. Maillez diz que os
fotógrafos não o atrapalharam e "rapidamente
abriram caminho" quando disse que era médico.
Momentos antes de
Maillez chegar, o fotógrafo Romuald Rat, da agência
Gamma, tivera a ousadia de abrir a porta do Mercedes do
lado da princesa Diana. Ele conta que encontrou Diana
semiconsciente sentada no chão do carro, entre os dois
bancos, e, como tem curso de primeiros socorros, tentou
ajudá-la. Checou a pulsação tocando levemente em seu
pescoço na altura da carótida. Disse também que cobriu
o ventre de Dodi, que estava com as vísceras expostas. E
garante que só começou a fotografar depois que os
bombeiros e a polícia chegaram. Não será difícil
checar suas alegações. Seus rolos de filme em poder da
polícia serão a mais eloqüente prova para condená-lo
ou absolvê-lo. Com certeza sabe-se que quando os
primeiros paramédicos chegaram ao túnel, cerca de doze
minutos depois da chamada telefônica, entre doze e
quinze fotógrafos espocavam seus flashes ao redor do
carro. Os bombeiros levaram uma hora e quinze minutos
para cortar as ferragens e liberar a princesa. Ela estava
com a perna esquerda presa sob os destroços do banco e
do painel do carro, que foram parar no banco de trás.
Enquanto os
bombeiros trabalhavam, os médicos aplicaram-lhe
sedativos e massagens cardíacas, pois seu pulso sumiu
duas vezes. Só às 2 da manhã Diana chegou ao hospital
Pitié Salpêtrière. O pulmão esquerdo se enchera de
líquido e a cavidade torácica estava encharcada de
sangue em razão do rompimento da veia pulmonar esquerda.
Em segundos, o cirurgião Bruno Riou entendeu a extensão
do drama. A hemorragia era gravíssima. Sem sangue para
alimentar o músculo cardíaco, o coração de Diana
estava morrendo, exatamente como ocorre num ataque
cardíaco quando as coronárias entopem. O coração
parou e não reagia a impulsos elétricos ou drogas de
revitalização injetáveis. Riou abriu o peito da
princesa num procedimento de urgência. A intervenção
estancou a hemorragia da veia pulmonar, que foi
costurada, e permitiu ao cirurgião massagear o coração
de Diana com as próprias mãos. Inútil. "O
ventrículo esquerdo estava muito danificado. Conseguimos
reparar o dano cirurgicamente, mas não deu para
restabelecer a circulação", disse Riou. Às 4
horas, Riou constatou a morte da princesa Diana.
O cardiologista
brasileiro Leonardo Esteves de Lima, 32 anos, que faz
doutorado em Paris e há sete anos trabalha no Pitié
Salpêtrière, fora chamado às pressas em casa. Nada
mais havia a fazer. Leonardo costurou um pequeno corte
que a princesa tinha na testa. A autópsia, feita na
Inglaterra, mostrou que, além das lesões no tórax,
Diana teve o ombro direito fraturado e a região pélvica
bastante atingida. O corpo, num caixão envolto pela
bandeira da Casa de Windsor, foi levado pelo ex-marido, o
príncipe Charles, de volta para uma Inglaterra
inconsolável.
|