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NOS BRAÇOS DO POVO
A família
real fica fria até o trágico fim,
mas os ingleses fazem homenagem
inolvidável a Diana, a princesa bem-amada
Vilma
Gryzinski
Ela era uma moça
de ambições simples. Queria casar e ser feliz.
Ambições tão simples, tão semelhantes às de tantas
outras jovens. Tão impossíveis. Ela se casou com o
futuro rei da Inglaterra e foi formidavelmente infeliz.
Mas entre o momento em que foi apresentada ao mundo, como
a professorinha de olhar faceiro, e as horas de luto em
que seu caixão seguiu pelas ruas de Londres, Diana
Spencer conseguiu o que a mais ambiciosa das mulheres nem
ousaria sonhar. O que em vida já se sabia amplificou-se
excepcionalmente depois que a tragédia, absurda,
incompreensível, como todas as tragédias, cruzou o seu
caminho num túnel de Paris, no começo da madrugada do
dia 31 de agosto. Diana foi amada, intensamente amada, na
Inglaterra e no resto de um mundo carente de figuras
notáveis. Em vida, sua graça, seu encanto, suas crises,
suas fraquezas, seus dramas, seu toque humano e sua
preocupação pelos desvalidos fizeram dela a mais
querida das princesas, a mais famosa das mulheres. Morta,
ela atingiu o ápice de um processo, deflagrado
involuntariamente, de ousar mostrar seus sentimentos em
público, e vergou as regras da monarquia. Quando sua
ex-sogra, a rainha da Inglaterra, apareceu na televisão
na sexta-feira, um dia antes do enterro, para fazer um
pouco confortável discurso em homenagem àquela
"pessoa excepcional", ninguém teve dúvida. A
princesa morta era mais poderosa do que a rainha viva.
Por que Diana foi
tão popular, tão querida, tão amada? Os políticos
são uns fingidores, mas talvez a morte chocante da
princesa, aos 36 anos de idade, tenha produzido o milagre
de arrancar uma declaração autêntica de um
profissional do fingimento. "As pessoas gostavam
dela, amavam-na, consideravam que era alguém do
povo", resumiu o primeiro-ministro Tony Blair,
revelando, pelo que não disse, a imensa distância entre
o resto da família real e a plebe. "Ela era a
princesa do povo, e é assim que permanecerá em nosso
coração e na nossa lembrança para sempre." A
emoção era sincera, embora as palavras tenham sido
atribuídas à excelência verbal de seu secretário de
imprensa, Alastair Campbell. O que importa? O breve
discurso de Blair resumiu o sentimento coletivo que se
apossou da Inglaterra e se espraiou por outras plagas.
O fato de depender
de votos deve ter ajudado Blair a captar e definir o
imenso apelo popular de Diana. A família real, que
conviveu com ela durante dezessete anos, demorou mais
tempo para entender. Depois de romper em lágrimas diante
do corpo alquebrado da ex-mulher, que ele foi buscar num
quarto de hospital de Paris onde um ventilador movia
suavemente a franja loura sobre a testa cortada, o
príncipe Charles estabeleceu as bases da cerimônia
fúnebre. Seria na Abadia de Westminster, com amplas
honrarias, embora Diana não pertencesse mais à família
real desde o divórcio
ela só mantinha o título de princesa de Gales porque
era mãe do segundo na linha de sucessão ao trono.
Charles pode ter achado que era suficiente, mas o povo
achou que era pouco.
As homenagens
oficiais a Diana cresceram ao longo de toda a semana. A
família real teve de aparecer e antecipar a ida de
Balmoral, o castelo na Escócia onde estava trancada,
para Londres, onde um mar de flores aumentava e aumentava
sem parar, enquanto o caixão da princesa repousava
sozinho na capela do Palácio de St. James. Contra sua
vontade, a rainha Elizabeth teve de, finalmente, fazer o
discurso pela televisão. O amor do povo pela
"menina cansativa", como a rainha certa vez
qualificou a ex-nora, foi mais forte.

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