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Edição 2077

10 de setembro de 2008
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Pelos bigodes de Stalin

Em seus artigos sobre a II Guerra Mundial, Jorge Amado
se coloca do lado certo do conflito – mas também revela
uma servil adesão às posições da União Soviética


Jerônimo Teixeira

Álbum de família
Comunistas líricos
Jorge Amado (à dir.) com os camaradas Prestes e Pablo Neruda (à esq.): Stalin tinha mãos mágicas e sorriso bondoso


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Exclusivo on-line
Trecho do livro

Os comunistas cultivavam gostos estranhos. Tome-se o exemplo de Jorge Amado (1912-2001): o escritor baiano tinha verdadeira fixação nos pêlos faciais do camarada Stalin. Em um artigo de 1943, ao fantasiar a rendição de Hitler, Amado colocava as seguintes palavras na boca do líder nazista: "Stalin, quero alisar o teu bigode, eu te amo". Eis como Amado comemorava as vitórias soviéticas sobre as tropas nazistas, em janeiro do ano seguinte: "O largo sorriso do marechal Josef Stalin, saído de sob os bigodes como um símbolo, é o povo soviético sorrindo". Poucas semanas depois, o romancista de Terras do Sem Fim instalava-se mais uma vez sob as narinas do ditador soviético: "Stalin, o dos longos bigodes, aquele que tem um sorriso de criança inocente na face serena de sábio e de condutor de homens". Essas passagens fetichistas foram extraídas de Hora da Guerra (Companhia das Letras; 266 páginas; 47 reais), coletânea de textos escritos por Jorge Amado entre 1942 e 1944 no jornal O Imparcial, de Salvador. Até hoje inéditos em livro, são artigos inflamados de apoio ao esforço de guerra do Brasil e dos aliados. Não há dúvida de que, naquele tempo beligerante, o autor estava do lado certo da trincheira. Mas, por mais que admiremos o ardor com que Jorge Amado atacava o nazismo, hoje é difícil ignorar a contrapartida dessa atitude: a defesa entusiasmada de outro totalitarismo criminoso, o comunismo.

Em sua excelente introdução a Hora da Guerra, o historiador Boris Fausto observa que Jorge Amado escrevia da "perspectiva política" do Partido Comunista do Brasil, que, por sua vez, seguia as diretrizes de Moscou. Naquele momento, a palavra de ordem do "partidão" era a unidade contra o nazifascismo. Jorge Amado elogiava os esforços de guerra do Estado Novo de Getúlio Vargas, que já o aprisionara e queimara seus livros. Tratava-se, vale insistir, de derrotar o nazismo, objetivo internacional que justificava a aliança estratégica com a ditadura local. Amado, no entanto, não deixou jamais de criticar a censura, como registram alguns dos melhores textos da coletânea. "Estamos lutando contra o obscurantismo, contra aqueles que queimam livros e prendem escritores", diz o autor comunista em Cultura e Democracia. Belos princípios. Mas na União Soviética de Stalin também se prendiam e matavam escritores como o contista Isaac Bábel e o poeta Óssip Mandelstam. Seria mais preciso afirmar que a luta era contra apenas um obscurantismo em particular, o nazismo.

A retórica militante torna o estilo de Amado um tanto pesado. Não estamos diante do romancista lírico de Mar Morto, mas de um propagandista do partido. Ele se mostra vigilante contra simpatizantes do fascismo e supostos traidores da pátria, que chama de "quinta-colunas" e "muniquistas" (alusão ao tratado de Munique, de 1938, assinado por Hitler e pelo primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain, que ingenuamente achou possível conter o expansionismo alemão pela negociação). O integralismo, a versão brasileira do fascismo, é exemplarmente ridicularizado pelo autor. Os ataques exaltados de Amado, porém, às vezes extrapolam os limites do justo e do razoável. Ele chega a propor a absolvição de um sujeito que assassinou um italiano em estúpido gesto de retaliação contra o ataque de um submarino fascista a um navio brasileiro. Outro momento vergonhoso do livro é o elogio da proposta soviética para o traçado das fronteiras com a Polônia. Nem uma só palavra é dita sobre o pacto germano-soviético que acarretou a divisão da Polônia entre nazistas e comunistas, em 1939. Ao contrário, o artigo louva a "maneira correta com que a pátria de Stalin resolve seus conflitos internacionais".

Embora os interesses soviéticos sejam sempre defendidos, a pregação estritamente comunista é discreta. Para os fins da propaganda, era contraproducente associar o combate ao nazismo com a luta pelo socialismo. Luís Carlos Prestes, chefão do PCB que Amado exaltara no livro O Cavaleiro da Esperança, nem sequer é citado em Hora da Guerra. Somente Stalin – tirano em cuja conta são debitados pelo menos 20 milhões de mortes – é enaltecido nos termos que já se viu. Jorge Amado não foi o único escritor a cantar loas ao ditador. O poeta chileno Pablo Neruda louvou a "simplicidade" de Stalin e se encantou com suas mãos poderosas, das quais nasciam cereais e tratores. A fixação no bigode, porém, é só de Jorge Amado.

 

Getty Images


O tirano libertador

"Saudemos com entusiasmo esta ordem do dia do marechal Josef Stalin, o dos longos bigodes e do bondoso sorriso: 180 mil assassinos nazistas estão cercados na Ucrânia! Comemoraram assim os soldados soviéticos o aniversário da grande vitória de Stalingrado. (...) Os soldados soviéticos marcham com uma decisão inabalável e não existe obstáculo que eles não derrubem, que eles não vençam, que eles não transponham. São soldados da vitória, da liberdade, da cultura.

Trecho de Aniversário de Stalingrado

 



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