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Livros Em
seus artigos sobre a II Guerra Mundial, Jorge Amado
Os comunistas cultivavam gostos estranhos. Tome-se o exemplo de Jorge Amado (1912-2001): o escritor baiano tinha verdadeira fixação nos pêlos faciais do camarada Stalin. Em um artigo de 1943, ao fantasiar a rendição de Hitler, Amado colocava as seguintes palavras na boca do líder nazista: "Stalin, quero alisar o teu bigode, eu te amo". Eis como Amado comemorava as vitórias soviéticas sobre as tropas nazistas, em janeiro do ano seguinte: "O largo sorriso do marechal Josef Stalin, saído de sob os bigodes como um símbolo, é o povo soviético sorrindo". Poucas semanas depois, o romancista de Terras do Sem Fim instalava-se mais uma vez sob as narinas do ditador soviético: "Stalin, o dos longos bigodes, aquele que tem um sorriso de criança inocente na face serena de sábio e de condutor de homens". Essas passagens fetichistas foram extraídas de Hora da Guerra (Companhia das Letras; 266 páginas; 47 reais), coletânea de textos escritos por Jorge Amado entre 1942 e 1944 no jornal O Imparcial, de Salvador. Até hoje inéditos em livro, são artigos inflamados de apoio ao esforço de guerra do Brasil e dos aliados. Não há dúvida de que, naquele tempo beligerante, o autor estava do lado certo da trincheira. Mas, por mais que admiremos o ardor com que Jorge Amado atacava o nazismo, hoje é difícil ignorar a contrapartida dessa atitude: a defesa entusiasmada de outro totalitarismo criminoso, o comunismo. A retórica militante torna o estilo de Amado um tanto pesado. Não estamos diante do romancista lírico de Mar Morto, mas de um propagandista do partido. Ele se mostra vigilante contra simpatizantes do fascismo e supostos traidores da pátria, que chama de "quinta-colunas" e "muniquistas" (alusão ao tratado de Munique, de 1938, assinado por Hitler e pelo primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain, que ingenuamente achou possível conter o expansionismo alemão pela negociação). O integralismo, a versão brasileira do fascismo, é exemplarmente ridicularizado pelo autor. Os ataques exaltados de Amado, porém, às vezes extrapolam os limites do justo e do razoável. Ele chega a propor a absolvição de um sujeito que assassinou um italiano em estúpido gesto de retaliação contra o ataque de um submarino fascista a um navio brasileiro. Outro momento vergonhoso do livro é o elogio da proposta soviética para o traçado das fronteiras com a Polônia. Nem uma só palavra é dita sobre o pacto germano-soviético que acarretou a divisão da Polônia entre nazistas e comunistas, em 1939. Ao contrário, o artigo louva a "maneira correta com que a pátria de Stalin resolve seus conflitos internacionais". Embora os interesses soviéticos sejam sempre defendidos, a pregação estritamente comunista é discreta. Para os fins da propaganda, era contraproducente associar o combate ao nazismo com a luta pelo socialismo. Luís Carlos Prestes, chefão do PCB que Amado exaltara no livro O Cavaleiro da Esperança, nem sequer é citado em Hora da Guerra. Somente Stalin tirano em cuja conta são debitados pelo menos 20 milhões de mortes é enaltecido nos termos que já se viu. Jorge Amado não foi o único escritor a cantar loas ao ditador. O poeta chileno Pablo Neruda louvou a "simplicidade" de Stalin e se encantou com suas mãos poderosas, das quais nasciam cereais e tratores. A fixação no bigode, porém, é só de Jorge Amado.
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