Especial
Um
dia muito especial
VEJA reuniu 500 personalidades
da política, da economia e da cultura
para pensar o Brasil. O debate
deu origem às 40 propostas desta reportagem
Fotos
Roberto Setton
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Idéias
contam. Ao longo de 40 anos, que se completam nesta quinta-feira, dia 11 de setembro,
VEJA foi movida por essa convicção. Na terça-feira passada,
a mesma crença nas idéias norteou a realização do
seminário "O Brasil que Queremos Ser", que se dividiu em seis
painéis: Educação, Meio Ambiente, Economia, Imprensa, Democracia,
Raça e Pobreza e Megacidades. Os debates deram origem às 40 propostas
que se encontram neta reportagem. Elas não pretendem ser uma receita final
de país, mas o começo de uma discussão racional, suprapartidária
e realista a respeito dos entraves que ainda impedem o Brasil de atingir seu potencial
pleno de progresso.
Foi um dia especial.
No palco, dezenove especialistas debateram. Além disso, quatro influentes
lideranças políticas nacionais o deputado Ciro Gomes, os
governadores Aécio Neves e José Serra e a ministra Dilma Rousseff
apresentaram sua visão do que significa governar para as próximas
gerações. O vice-presidente da República, José Alencar,
discursou. Na platéia, cerca de 500 convidados acompanharam os debates.
Entre eles, Garibaldi Alves, presidente do Senado, cinco ministros de estado,
cinco governadores, líderes das maiores empresas brasileiras, publicitários
e acadêmicos.
As propostas descritas
nesta reportagem resumem as melhores sugestões produzidas no seminário
e adiantadas nos discursos do dia. VEJA não considera encerrado o trabalho
a que se propôs com o seminário "O Brasil que Queremos Ser",
cujos melhores momentos podem ser vistos no site www.veja40anos.com.br.
Também no site a discussão se manterá acesa e você,
leitor, está convidado a continuar participando. Nos próximos meses,
VEJA levará os painéis com os temas e as conclusões do seminário
para debates em diversas universidades brasileiras. A revista vai conferir periodicamente,
por meio de reportagens e entrevistas, o grau de aceitação de cada
uma das 40 propostas, submetendo-as a um teste de realidade, avaliando sua viabilidade
e progresso e, quem sabe, dando como efetivamente implantadas algumas delas.
Se isso ocorrer, o dia do seminário "O Brasil que Queremos Ser"
terá sido, além de especial, histórico.
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Pela
meritocracia O ministro Fernando Haddad,
a secretária Maria Helena Guimarães e o economista Alexandre Scheinkman |
Educação
1
Choque de meritocracia na educação
Mérito é
premiar com promoção e aumento de salário os professores
que formam mais alunos capazes de atingir boa colocação em disputas
acadêmicas internacionais. O conceito é desconhecido no Brasil. Aqui
quase sempre o professor recebe aumento de salário por tempo de serviço.
Na ausência de outros fatores e só com a aplicação
de um choque de meritocracia, o desempenho dos alunos brasileiros em matemática
ficaria entre os 43 melhores do mundo, ombreando com o de Israel e Itália,
e não, como é agora, em 53º lugar, ao lado do Quirguistão.
2
Convencer os pais de que eles são parte da escola
Pais educam.
Escolas ensinam. Esse provérbio caducou. As pesquisas mostram que, além
de um bom professor, nada melhora mais o desempenho escolar do que o envolvimento
dos pais no processo educacional. É uma guerra cultural que pode ser vencida
com as armas certas: a internet (os pais podem até acompanhar algumas aulas)
e os cursos para pais.
3
Ampliar a rede de ensino técnico superior
O ensino de geografia,
ciências sociais e outras áreas de humanas conta pouco. O fator decisivo
para o progresso material está no ensino da matemática, das engenharias
e da física aplicada. Apenas 8% dos jovens brasileiros se formam em algum
curso superior dessas áreas contra 18% nos países avançados.
A saída é popularizar as faculdades técnicas. Nelas, em dois
anos, o jovem obtém um diploma de ensino superior e tem lugar garantido
no mercado de trabalho. Foi um sucesso na Coréia do Sul, que, assim, colocou
um diploma e um emprego nas mãos de 80% dos jovens.
4
Fomentar a competição entre as universidades
Nenhuma universidade
brasileira figura entre as 100 melhores do mundo. Não é surpresa.
Elas não têm incentivo para isso. As 100 melhores do mundo lutam
para sê-lo para obter financiamento. Aqui, com ou sem desempenho, as verbas
públicas chegam religiosamente. Melhorar para quê?
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| "Contrariar
os que estão no poder é a contrapartida quase inevitável
do compromisso com a verdade da imprensa responsável." Roberto
Civita, presidente da Editora Abril e
editor de VEJA |
5
Financiar os melhores pesquisadores
Apenas duas de cada 1 000 patentes
registradas no mundo são brasileiras. Falta incentivo. O pesquisador brasileiro
que registra patentes ganha, em geral, a mesma verba de quem não registra
nenhuma. A tendência mundial é dar mais aos pesquisadores que produzem
mais conhecimento original e valioso.
6
Criar currículos obrigatórios para a educação básica
Um ponto em comum entre os dez países de maior sucesso educacional, social
e material do mundo é a existência de um currículo obrigatório
na educação básica. Sem um currículo com metas acadêmicas
bem definidas, nenhum país progride. Na maior parte do Brasil, não
há esse currículo.
7 Investir na formação
dos professores e de quem forma os professores
A cadeia do ensino tradicional
tem alunos, professores, diretores e pedagogos. Falta uma categoria: a dos profissionais
que ensinam os professores como ensinar. Apenas 20% das disciplinas nas faculdades
de pedagogia se dedicam às metodologias de ensino, mostra um estudo da
revista Nova Escola/Fundação Carlos Chagas.
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SUSTENTABILIDADE
O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, o governador de Mato Grosso, Blairo
Maggi, e o consultor Luiz Augusto Horta Nogueira, no painel Meio Ambiente
Conservação X Desenvolvimento: eles concordaram na necessidade de
fazer um zoneamento agroclimático, pagar por serviços ambientais
e recuperar terras degradadas |
Ambiente
8 Mais pesquisa
ambiental no Brasil
Tanto a Amazônia como as áreas de proteção
ambiental no Brasil recebem pouquíssimos pesquisadores. Apesar de ocupar
cerca da metade do território nacional e ser o cenário da maior
biodiversidade do planeta, a Amazônia concentra apenas 5% dos pesquisadores
brasileiros. Significa que há um cientista para cada 4 000 quilômetros
quadrados. Apenas 10% das espécies da região estão catalogadas.
Só com conhecimento profundo dos biomas brasileiros será possível
criar estratégias mais eficazes para a preservação daqueles
tesouros naturais.
9
Dobrar o saneamento básico em dez anos
Menos de 50% dos domicílios
brasileiros são ligados à rede de esgotos. Destes, apenas 35% recebem
tratamento. O restante é despejado diretamente em rios, córregos
e lagos. O Brasil ainda é africano nessa área. O ministro Carlos
Minc estima que tratar 70% dos esgotos até 2018 custaria 12 bilhões
de reais por ano. O custo é elevado? Não em vista dos benefícios.
Entregar a tarefa à iniciativa privada, por meio de concessões,
é uma saída.
10
Transformar pastos em áreas produtivas
O avanço da fronteira
do boi e da soja derruba oito de cada dez árvores das florestas de clima
da Amazônia. Para deter esse avanço é vital ocupar áreas
já desmatadas. Cerca de 16 milhões de hectares de áreas de
pasto estão abandonados na Amazônia. Com sua recuperação
e uso, a produção de grãos pode crescer 30% na região
sem exigir a derrubada de uma única árvore. Recuperar custa o dobro
do que simplesmente desmatar. Subsidiar a recuperação de áreas
degradadas é a abordagem econômica mais racional.
11
Premiar prefeituras pela preservação ambiental
A degradação
ambiental tem maior impacto sobre a qualidade de vida dos habitantes das cidades
do que para o morador de um grotão isolado na floresta. Por essa razão,
iniciativas locais de preservação são mais impactantes. É
exemplar o sucesso do programa ICMS Verde, adotado no Paraná para premiar
municípios com desempenho acima da média no tratamento de lixo e
na conservação de bacias hidrográficas. A área preservada
no estado cresceu doze vezes nos últimos dez anos.
12
Unificar as leis ambientais
O Brasil tem mais de trinta leis ambientais
federais. Combinadas às regras estaduais e municipais essas leis deixam
apenas 30% do território livre para a ocupação econômica.
Como não temos 70% do território ocupado por paraísos ecológicos,
fica óbvio o exagero das restrições. O emaranhado legal provoca
insegurança jurídica, dificulta a fiscalização e cria
oportunidades para a corrupção. Leis mais simples são, sempre,
mais eficientes.
13
Dar independência financeira aos parques ecológicos
Os 63
parques nacionais ocupam uma área de 24,1 milhões de hectares, o
equivalente ao território do estado de São Paulo. Em comum, têm
o fato de ser mal administrados são apenas 348 funcionários
para cuidar de todos. Eles falham na missão preservacionista e, quando
abertos à visitação, oferecem serviços precários.
São como os cofres públicos para os corruptos: uma riqueza a ser
apropriada pelo mais esperto. Os Estados Unidos têm oitenta vezes mais visitas
pagas em seus parques. É hora de valorizar os nossos, protegê-los
e mantê-los com o dinheiro arrecadado dos visitantes.
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| "Temos
muitas pessoas que só consomem o essencial. É maior ainda a camada
que nem o essencial consome. Não se pode achatar o consumo." José
Alencar, vice-presidente da República |
14 Criar um plano nacional
de zoneamento econômico-ecológico
O governo paga aventureiros
para derrubar a floresta amazônica, dando-lhes crédito destinado
à atividade agrícola. Isso não se faz por maldade, mas por
ignorância sobre quais são as áreas aráveis do território
nacional e quais são as preserváveis. Ninguém sabe ao certo
onde começa uma e acaba a outra. Muitos debates gastam horas apontando
a mesma área no mapa e enxergando nela solos diferentes. O zoneamento agroclimático
é ferramenta vital para planejar o desenvolvimento sustentável.
15
Tornar mais vantajoso manter uma árvore de pé do que cortá-la
Dez milhões de moradores da Amazônia Legal dependem da atividade
extrativista ou agropecuária. Para eles, discurso e consciência ecológica
não funcionam. Eles precisam de medidas que tornem mais vantajoso preservar
do que destruir. O governo da Costa Rica remunera proprietários que conservam
as matas nativas em suas terras. Um estudo mostra que, em Mato Grosso, dar 1 000
reais ao ano por hectare preservado seria estímulo suficiente para conter
a devastação. É quase de graça.
16
Investir em fontes renováveis de energia
Nos próximos dez
anos o Brasil precisará acrescentar produção equivalente
à de três usinas de Itaipu para suprir sua necessidade de energia
elétrica. O sol e os ventos abundantes no país podem oferecer parte
da solução. O potencial da produção de energia eólica
é estimado em dez Itaipus. A incidência solar no Brasil é
o dobro da registrada na Alemanha, um dos países que mais investem nessa
fonte renovável de energia elétrica.
17
Não desperdiçar energia
Para cada dólar produzido
pela economia, o Brasil precisa de 40% mais de energia do que os Estados Unidos
e 70% mais do que a Alemanha. Isso se deve menos ao custo de geração
do que ao desperdício. O Brasil perde 16,5% de toda a energia elétrica
produzida. É quase uma Itaipu que se joga fora a cada ano. Para tornar
mais eficiente o aproveitamento da energia, seria preciso investir em duas frentes:
programas de conscientização dos consumidores e a busca de processos
industriais e equipamentos mais econômicos.
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DEFESA
DAS REFORMAS O presidente do Banco Central,
Henrique Meirelles, o economista Armínio Fraga, o presidente do BNDES,
Luciano Coutinho, e o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega |
Economia
18
Reforma da Previdência já
O custo da Previdência é um dos
principais motivos pelos quais o Brasil lidera o ranking mundial de juros reais
e tem uma carga tributária de 36% da riqueza produzida pelo país.
Ele consome 12% do PIB. Nenhum país emergente consegue crescer de forma
acelerada com tamanho peso nas costas. A China e o Chile gastam 3%. A Colômbia,
apenas 1%. Se a despesa previdenciária brasileira fosse de 6%, o país
economizaria 180 bilhões de reais ao ano. Com esse dinheiro, as pessoas
e empresas pagariam 17% a menos de impostos, com melhoria de qualidade de vida
para todos
19
Criar um teto para os gastos públicos
De todos os agentes econômicos,
quem gasta pior é justamente aquele que não produz nenhuma riqueza:
o governo. No Brasil, os gastos do governo federal crescem, em termos reais, duas
vezes mais rápido do que a economia. Dentro de quinze anos os impostos
vão equivaler à metade de toda a riqueza que o país produz.
É ruinoso? Sim. Reversível? Só por força superior.
O aumento real do gasto público brasileiro deveria ser limitado por emenda
constitucional ao teto de 1% ao ano.
20
Um
Banco Central independente
Se o Banco Central brasileiro tivesse a
independência assegurada por lei, a taxa real de juros cairia imediatamente
até 3 pontos porcentuais de 7% para 4% ao ano. O crescimento do
país saltaria dos atuais 5% para 7% ao ano. É preciso outra justificativa?
21
Aplicar a lei de responsabilidade fiscal ao governo federal
Essa lei revolucionou
o controle das contas públicas. Com ela, os estados e municípios
foram obrigados a reduzir sua necessidade de financiamento em 20% desde 2001.
Imune a ela, a União fez o movimento inverso e aumentou seu déficit
em 79% no mesmo período.
22
Modernizar as leis trabalhistas
Ao lado de Zimbábue e Zâmbia,
o Brasil ocupa a 119ª posição no ranking mundial de adequação
das leis trabalhistas. Por isso, metade dos brasileiros tem ocupação
informal. Uma mudança radical que extirpasse os arcaísmos custosos
e corporativistas incentivaria a contratação formal com conseqüências
saneadoras na Previdência (mais gente contribuindo), positivas na carga
fiscal (mais gente pagando menos) e redentoras para o ambiente de negócios.
| 
| "O
governo do presidente Lula começou a construir o futuro com uma política
econômica que preza a inclusão social e com a criação
de uma nova classe média." Dilma
Rousseff, ministra-chefe
da Casa Civil |
23
Tornar as agências reguladoras menos vulneráveis ao loteamento político
A
certeza do cumprimento de contratos é uma das condições definidoras
de um país moderno, ao lado do direito de propriedade e do ambiente de
negócios. E como garantir que os governos preservem seus contratos? O mecanismo
clássico, adotado e aprovado nas melhores economias, são agências
reguladoras equipadas e protegidas contra a ingerência política.
No Brasil há agências reguladoras, mas elas estão longe de
ser imunes às pressões políticas.
24
Garantir a concorrência na exploração do pré-sal
Desde o século
XVI a humanidade sabe que os recursos naturais não levam, necessariamente,
ao progresso econômico e social. Isso foi aprendido com sangue no ciclo
de exploração da prata e do ouro na América Latina. Foi reafirmado
pelos diamantes da África subsaariana e agora o petróleo da Venezuela.
É a maneira de explorar esses recursos que produz conhecimento e bem-estar.
Só se obtém riqueza efetiva quando os recursos naturais são
explorados de forma transparente e competitiva.
25
Poupar os dólares do petróleo
A humanidade vai um dia encontrar um substituto
para esse líquido escuro e pegajoso. Enquanto isso não ocorre, é
crucial utilizar as reservas com sabedoria. Se todo o potencial dos depósitos
de petróleo na chamada camada pré-sal do litoral brasileiro for
confirmado, o Brasil pode vir a se transformar em um grande exportador de petróleo.
O que fazer com os dólares obtidos? A opção mais racional
é o depósito dos lucros do petróleo em um fundo externo,
gastando-se apenas parte dos rendimentos. Isso preservaria a riqueza para as gerações
futuras e impediria pressões cambiais e inflacionárias desestabilizadoras.
| 
| "Que
as pessoas encontrem mais oportunidades de vida, distribuídas de forma
mais equânime, democrática e num meio ambiente de boa qualidade." José
Serra, governador de São Paulo |
26 Privatizar a gestão
hospitalar
Hospitais administrados pelo estado são menos eficientes
e tratam pior seus pacientes. No estado de São Paulo, a taxa de mortalidade
em hospitais geridos diretamente pelo governo é de 5,3 em cada 1 000 pacientes
e o custo de cada internação é de 400 reais por dia. Em 25
hospitais terceirizados no mesmo estado, a taxa de mortalidade cai para 3,3 por
1 000 pacientes e o gasto por internação, para 360 reais. Essas
e outras estatísticas a favor da privatização da gestão
da saúde são absolutamente convincentes.
27
Privatizar a infra-estrutura
Não
fosse pela infra-estrutura caótica, hoje majoritariamente nas mãos
do governo, o Brasil poderia contar com 250 bilhões de reais a mais no
PIB um valor equivalente ao PIB do Chile.
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DIREITO
DE INFORMAR O presidente do Tribunal Superior
Eleitoral, ministro Carlos Ayres Britto, o ex-ministro da Justiça Márcio
Thomaz Bastos e o deputado federal Miro Teixeira: debate sobre o papel da imprensa |
Liberdade de expressão
28
Uma nova Lei de Imprensa
Com a revogação total pelo Supremo Tribunal
Federal (STF) da Lei de Imprensa que vigorava no Brasil desde o período militar,
a atividade jornalística no Brasil passou a ter seus direitos garantidos pela
Constituição e seus abusos punidos pelos códigos Civil e Penal. O fim da lei dos
tempos da ditadura foi um avanço. É recomendável, porém, a criação de uma lei
sucinta para delimitar o valor das ações de direito de resposta e de dano moral.
Isso daria segurança jurídica aos jornalistas e às empresas que mantêm um dos
pilares da democracia: a liberdade de informação.
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ASSISTENCIALISMO
EM PAUTA O ministro Patrus Ananias e os
professores Roberto DaMatta e Helio Santos |
Democracia, raça e pobreza
29
Profissionalizar a gestão pública
A palavra burocracia nasceu
com sentido positivo: um estamento dedicado à organização
ágil e racional. Com o tempo a burocracia passou a ser um fim em si mesma.
O público que se dane. Em estados brasileiros como São Paulo, Minas
Gerais e no Distrito Federal, a burocracia começa a retomar seu sentido
original. Para isso foram adotados modelos empresariais, como a orientação
para resultados, a flexibilidade e a recompensa do mérito. Quando a prática
se espalhar e chegar a Brasília, será o caso de comemorar um novo
descobrimento do Brasil.
30
Recriar o federalismo
Com a Constituição de 1988, o governo
federal passou a concentrar a receita dos impostos, e com isso usurpou uma parte
do poder de estados e municípios para decidir onde investir dinheiro. Reverter
esse processo daria ao governo federal o papel de coordenador e aos estados e
municípios maior autonomia para atender às necessidades dos cidadãos.
Pois o fato é que ninguém vive nesse espaço abstrato chamado
"União".
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| "Não
faltam candidatos à Presidência. Falta um projeto claro do que nós
queremos quando chegarmos lá." Aécio
Neves, governador de Minas Gerais |
31 Fiscalizar os programas
sociais
Uma pesquisa do iBase com brasileiros no Bolsa Família
mostra que 64% dos próprios beneficiários excluiriam todos aqueles
que se recusassem a cumprir as poucas exigências do programa a mais
importante delas é manter o filho na escola. O mesmo estudo revela que
o governo é leniente e falha ao vigiar o cumprimento das exigências.
Dar dinheiro é entregar o peixe. Cobrar a contrapartida é ensinar
a pescar.
32 Inserir
os pobres no mercado de trabalho
A melhor coisa que programas assistencialistas
podem fazer por um miserável é transformá-lo num trabalhador
capaz de prover as próprias necessidades. Dar qualificação
profissional a quem nunca a teve, ou criar programas de microcrédito, que
transformam excluídos em pequenos empreendedores, é mais que um
paliativo. É uma cura real da pobreza.
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MEGADESAFIOS O
arquiteto e urbanista Jaime Lerner, ex-prefeito de Curitiba, a professora da Faculdade
de Arquitetura e Urbanismo da USP Raquel Rolnik e Jonas Rabinovitch, conselheiro
das Nações Unidas |
Megacidades
33
Eliminar as favelas da paisagem
Nas cidades do país, 12,3 milhões
de pessoas vivem em casebres, a maioria deles em situação irregular.
Se nada for feito, em 2020 haverá 55 milhões de favelados
praticamente uma Itália no Brasil. É preciso revogar a negligência
e o populismo que permitem o surgimento de favelas. No caso das já existentes,
eliminar as que estão em área de risco ou proteção
ambiental. Conferir títulos de propriedade é um primeiro passo para
a urbanização dessas chagas das grandes cidades.
34
Superprefeitos para as regiões metropolitanas
Os prefeitos das
cidades que fazem parte de uma região metropolitana são como condôminos
que jamais se reúnem para discutir os problemas do prédio onde moram.
São Paulo é um exemplo dramático. A prefeitura não
consegue limpar o Tietê porque Guarulhos não tem rede de esgoto tratado
e despeja imundície no rio. Um superprefeito seria como um síndico
eficiente. Com perfil técnico, poderia coordenar o uso da água,
o saneamento, o destino do lixo, a unificação do transporte entre
cidades. Quem escolheria o superprefeito? O governador do estado.
35
Combater o tráfico de drogas com realismo
O tráfico de drogas
é o principal responsável pela criminalidade no Brasil. No Rio de
Janeiro, os barões da cocaína controlam 300 das 752 favelas. Não
é possível extirpar a droga do cotidiano urbano, mas dá para
diminuir as taxas de violência associadas a ela. Para tanto, urge eliminar
o caráter territorial do tráfico brasileiro. É pelo controle
de áreas geográficas, nas quais também exploram outros serviços
tão lucrativos quanto ilegais, que os bandos se digladiam. Há mais
cocaína em Nova York do que no Rio, mas lá os traficantes não
têm feudos a defender ou tomar. Circulam para vender o seu único
produto.
36 Planejar
o crescimento
As cidades médias, com população entre
100 000 e 500 000 habitantes, são as que mais crescem no Brasil. Como resolver
um problema urbano custa 100 vezes mais do que preveni-lo, é óbvio
o ganho em se planejar a expansão dessas cidades. As prefeituras devem
estabelecer regras férreas sobre o que pode ou não ser feito em
termos de ocupação do solo, tendo em vista o futuro almejado para
seus municípios.
37
Tirar a majestade do carro
No Primeiro Mundo, progresso é transporte
coletivo de qualidade e restrição severa à circulação
de carros, por meio de medidas como rodízio e pedágio. O Brasil
está na contramão, porque suas cidades continuam a reduzir o espaço
para pedestres, a ampliar as vias para automóveis particulares e a tratar
o transporte público com descaso. São Paulo, onde já rodam
mais de 6,1 milhões de carros, pode parar de vez em 2015.
| 
| "É
necessário um choque de meritocracia. É preciso acabar com o corporativismo
de pseudo-esquerda. É preciso recuperar os centros de excelência." Ciro
Gomes, deputado federal |
38 Organizar o transporte
coletivo
O Brasil é o lugar em que eufemismos viram solução
de governo. É o caso do chamado transporte alternativo. A palavra correta
é "ilegal". No Rio de Janeiro, a bandalha já superou os
serviços regulares. Circulam na cidade 7 500 ônibus de empresas formais
e 8 000 vans ilegais. Estabelecer um sistema integrado de transporte é
a melhor forma de evitar a invasão de perueiros e assemelhados.
39
Conferir aos ônibus o padrão de metrô
Nos pontos de
ônibus londrinos e parisienses há luminosos que informam em quanto
tempo chegará o próximo carro de cada linha. A margem de erro é
muito pequena, mesmo no horário do rush. É a prova de que o serviço
de ônibus pode ser pontual, rápido e guardar intervalos curtos entre
as partidas. Para seguirem o exemplo, as cidades brasileiras precisam criar corredores
exclusivos.
40 Não
se intimidar com os desafios
Quando se fala em problemas urbanos, surgem
cifras que, não raro, paralisam as administrações e os cidadãos.
Mas sempre é possível encontrar soluções baratas.
Curitiba tornou-se referência de transporte público sem gastos excessivos.
Também se deve levar em conta que parte dos custos embute a corrupção.
São Paulo e Cidade do México começaram a construir metrô
no mesmo período. A primeira conta, hoje, com 60 quilômetros de linhas.
A segunda, com 200. O quilômetro escavado paulistano custa 500 milhões
de reais. O mexicano, 90 milhões. E olhe que a Cidade do México
enfrenta terremotos...