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Auto-Retrato
Como manter um brinquedo inventado há sessenta anos atrativo para as crianças? Quando começaram a surgir videogames e brinquedos eletrônicos, fizemos uma opção puritana: permanecemos fiéis aos velhos blocos de montar. Mas as vendas só caíam. Foi aí que a Lego tomou a dura decisão de criar robôs e acrescentar circuitos elétricos aos blocos. Isso nos manteve vivos. Até as escolas passaram a usá-los na sala de aula. Com que finalidade? Basicamente, para ensinar princípios de robótica às crianças. Elas próprias montam os robôs e instalam os circuitos. Isso faz mais sucesso nos países asiáticos. Lá, o que mais diverte os alunos é saber quem constrói mais em menos tempo. Depois, eles exibem suas esculturas na internet. A rede sempre entra de algum modo na brincadeira e as pesquisas confirmam isso. O que dizem as pesquisas? Elas mostram que a rede proporciona às crianças algo que elas descrevem com imenso prazer: a chance de competir umas com as outras em escala global. No caso dos blocos de montar, o desafio é criar edifícios que impressionem pelo tamanho e pela complexidade. Os adultos participam dos torneios. Adultos também brincam de Lego? Eles representam 10% das vendas. Em países de inverno rigoroso, onde as pessoas costumam ficar confinadas em casa, os blocos de montar ajudam a aplacar o tédio. Outro grupo compra Lego para construir edificações gigantes com o propósito de impressionar. Ouvi, certa vez, de um dos chefões da revista Wired, orgulhoso de um avião que havia montado: "Isso aqui dá vazão à minha megalomania". O site da empresa é campeão em acessos entre os fabricantes de brinquedos. O que as pessoas buscam? Dar idéias de novos formatos e acessórios para os blocos. São, em geral, pessoas que já brincavam de Lego décadas atrás. Algumas até colecionam as peças. Por sua familiaridade com o brinquedo, acabamos de contratar seis delas para executar uma única tarefa: a de palpitar. Ao assumir a presidência da empresa, em 2004, o senhor foi alvo de muitas críticas. Por quê? Precisei demitir 2 000 pessoas, e isso me tornou bastante impopular. Mas não havia outra saída. A empresa acumulava 340 milhões de dólares em dívidas, e coube a mim corrigir erros básicos cometidos por meus antecessores. Onde a Lego errou? Primeiro, superestimou o valor da marca. Na década de 90, produzíamos brinquedos 25% mais caros do que os concorrentes, acreditando que apenas o nome faria as pessoas optar por eles. Isso não aconteceu e precisamos aprender a cortar custos de modo a competir num mercado globalizado. Outro erro foi ter apostado na fabricação de relógios e bicicletas. Por que não deu certo? A empresa entrou em negócios sobre os quais entendia muito pouco. Faltou, sem dúvida, investir em novas tecnologias que pudessem tornar tais produtos mais atraentes e lucrativos. Descobrimos, com algum sofrimento, que a única coisa que fazemos realmente bem são bloquinhos de montar. E, nisso, ninguém é melhor.
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