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Edição 2077

10 de setembro de 2008
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André Petry
O general sem guerra

"É bom não esquecer: é ficção de criminoso
dizer que todo mundo faz grampo no Brasil.
A maioria nem faz idéia do que seja isso"

No caso gravíssimo do grampo da toga, é cedo, talvez seja até injusto, falar numa operação-abafa, como são apelidadas as clássicas maquinações palacianas para que uma investigação termine em nada ou quase nada. Mas, diante do histórico nacional de aloprações impunes, é recomendável ficar de olho em algumas manifestações – que, isoladas, parecem apenas devaneios, porém, examinadas em conjunto, oferecem uma desagradável sugestão de que tudo pode ficar como está. Ou que se trava nos bastidores uma batalha surda para tudo ficar como está. Nos dois casos, o patrocinador é o general Jorge Felix, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional.

O general lançou a Operação Tecnologia Vadia, ao dizer que, com o avanço tecnológico de hoje, a única forma de evitar grampo telefônico "é não abrir a boca". O general esconde uma verdade e divulga uma mentira. A mentira, algo medieval, é que a tecnologia é uma coisa contra a qual não há antídoto possível. Que a tecnologia, essa bandida vadia, tem um poder incontrastável e está fora de controle. Se fosse assim, seria o fim do progresso, e não existiria o chamado avanço tecnológico... A verdade que o general tenta esconder é que a Abin, sob seu comando indireto, faz pouco o que deve e faz muito o que não deve. E que a tal maleta que a Abin comprou faz grampo, ao contrário do que disse o general, inclusive ao presidente Lula.

Atarefado, o general também lançou a Operação Lama Geral, ao levantar a hipótese de que o grampo – feito por agentes da Abin, conforme VEJA publicou em sua edição passada – pode ter sido obra do banqueiro Daniel Dantas. Talvez nem o próprio banqueiro seja capaz de listar de memória todos os crimes de que é suspeito, mas não deixa de ser estranho que o general, antes mesmo de abrir uma investigação, saia levantando hipóteses diferentes da divulgada. Na Lama Geral, o general contou com um exército de voluntários e apareceram hipóteses para todo lado. Teria sido o banqueiro? Teria sido a Polícia Federal? Teria sido o Senado? Teria sido forjado pelo senador grampeado? Ou forjado pelo ministro grampeado? Ou forjado por ambos? A pergunta que fica é: a quem interessa essa profusão delirante de hipóteses contraditórias?

Juntando-se as duas operações, a Tecnologia Vadia e a Lama Geral, tem-se o seguinte: a tecnologia inviabiliza o combate ao grampo telefônico e todo mundo pode ser suspeito de grampo porque todo mundo faz grampo no Brasil. É a receita para nada de um general sem guerra. Donde se pode concluir que o grampo só pode ser da Abin do general! Mesmo porque é bom não esquecer: é ficção de criminoso dizer que todo mundo faz grampo no Brasil. A maioria não faz nem idéia do que seja isso. O problema é que se trata de um crime altamente disseminado – e tolerado, a começar por generais. Basta ver que se contam nos dedos de uma única mão o número de criminosos de grampo condenados no Brasil.

colunadopetry@abril.com.br



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