Edição 1819 . 10 de setembro de 2003

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Ponto de vista: Claudio de Moura Castro
Itabirito não
tem Fome Zero

"Quando mergulhamos na teia das
múltiplas manifestações de uma
sociedade civil ativa, vemos que
todos se conhecem, é fácil cooperar
e as coisas malfeitas não se
escondem no anonimato"

Itabirito, Minas Gerais, é sacudida por um assassinato. Acode a Belo Horizonte uma delegação, pedindo reforço no policiamento. Mas, em Minas, a distribuição da polícia é calculada em função da criminalidade. Olhando as estatísticas de Itabirito, o oficial da polícia sorri e explica que seriam necessários muito mais crimes para justificar tal reforço.

De fato, a cidade tem uma trajetória invejável de estatísticas sociais (IDH entre os 10% mais altos de MG). A criminalidade é um quarto da média brasileira. Nunca houve mendigos ou indigentes. O desemprego sempre foi residual. O coronelismo acabou, faz tempo. Os casos de corrupção ou desmandos da administração municipal são mínimos e suas contas fecham.

Por que, sem ser uma cidade rica, Itabirito escapa quase ilesa da fome e outras mazelas sociais? Robert Putnam parece dar as pistas certas, em seu famoso estudo sobre as cidades italianas. Ali ganha corpo a idéia do capital social, isto é, a solidariedade e a confiança de uns nos outros. Putnam descobriu que nas cidades italianas que funcionavam melhor havia muitas bandas de música, times de futebol e outras organizações voluntárias, evidenciando os múltiplos entrelaçamentos e hábitos de cooperação dos habitantes, ou seja, o capital social era maior.

Ilustração Ale Setti


Com uma população de 38.000 habitantes, Itabirito tem um elevado nível de capital social, com 23 times de futebol, duas bandas e cinco corais, alguns quase centenários. Tem também 42 associações de bairro (ativíssimas). Em suas várias formas, há mais de 45 ONGs (orfanatos, asilos, clubes de serviço, bombeiros voluntários, clube da melhor idade, quinze clubes de mães e até o clube do colesterol). Quando mergulhamos na teia das múltiplas manifestações de uma sociedade civil ativa, vemos que todos se conhecem, é fácil cooperar e as coisas malfeitas não se escondem no anonimato.

Há um clube privado de tênis, onde 200 crianças pobres recebem aulas, gratuitamente, desde que freqüentem a escola com bom aproveitamento. Em vez de infratores, já saíram desse grupo dois campeões brasileiros.

Não há favelas ou cortiços e 95% dos habitantes têm casa própria. Boa parte foi construída no sistema de mutirão, sem a participação do governo.

Completou 93 anos a Escola Laura de Queiroz. Recentemente, tornou-se uma instituição de tempo integral para 300 alunos do ensino fundamental com passado complicado, beirando a delinqüência. Além do currículo convencional, ensina artesanato, música, teatro, poesia, inglês e a história local. A escola divide os alunos em times que competem entre si. Ausência de alunos e professores subtrai pontos. Assim, quando falta um colega ou a professora, os próprios alunos vão à sua casa implorar que venha para a aula.

Para gerar fundos adicionais para a escola, foi criada a Fundação Viva Natura, que abriga também uma fábrica de blocos de concreto, para empregar jovens com passado de delinqüência. As empresas locais compram o produto (além de fazer a manutenção da escola). Um médico oferece anualmente 1.000 atendimentos gratuitos aos alunos. O prefeito dá aula na escola, como voluntário. Com 74 anos, trabalha também como voluntária a mesma merendeira que lá estava na década de 50.

As comemorações tiveram exposições de alunos, fanfarras, medalhas e muitos discursos. O mesmo de sempre, pois não? Não exatamente. Havia três diferenças, sutis mas fundamentais. 1) Os políticos não falaram mal de seus adversários nem culparam os antecessores. 2) Só se falou do que havia sido feito, nada de promessas mirabolantes. 3) As medalhas e homenagens não foram apenas para os altos dignitários, mas para os antigos funcionários, professores e merendeiras. Um antropólogo diria que são os ritos de intensificação, reforçando o espírito cívico.

Obviamente, há delinqüência (pela proximidade da capital), há droga, há problemas, mas tudo em menor escala. Como outras cidades com elevado capital social, Itabirito não terá um programa do Fome Zero, porque a fome é zero. A fórmula é simples: todos ajudam, todos confiam, todos vigiam.

 

Claudio de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)

 
 
 
 
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