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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro
Itabirito
não
tem Fome Zero
"Quando
mergulhamos na teia das
múltiplas manifestações de uma
sociedade civil ativa, vemos que
todos se conhecem, é fácil cooperar
e as coisas malfeitas não se
escondem no anonimato"
Itabirito, Minas Gerais, é sacudida por um assassinato. Acode
a Belo Horizonte uma delegação, pedindo reforço
no policiamento. Mas, em Minas, a distribuição da
polícia é calculada em função da criminalidade.
Olhando as estatísticas de Itabirito, o oficial da polícia
sorri e explica que seriam necessários muito mais crimes
para justificar tal reforço.
De fato, a cidade tem uma trajetória invejável de
estatísticas sociais (IDH entre os 10% mais altos de MG).
A criminalidade é um quarto da média brasileira. Nunca
houve mendigos ou indigentes. O desemprego sempre foi residual.
O coronelismo acabou, faz tempo. Os casos de corrupção
ou desmandos da administração municipal são
mínimos e suas contas fecham.
Por que, sem ser uma cidade rica, Itabirito escapa quase ilesa da
fome e outras mazelas sociais? Robert Putnam parece dar as pistas
certas, em seu famoso estudo sobre as cidades italianas. Ali ganha
corpo a idéia do capital social, isto é, a solidariedade
e a confiança de uns nos outros. Putnam descobriu que nas
cidades italianas que funcionavam melhor havia muitas bandas de
música, times de futebol e outras organizações
voluntárias, evidenciando os múltiplos entrelaçamentos
e hábitos de cooperação dos habitantes, ou
seja, o capital social era maior.
Ilustração Ale Setti
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Com uma população de 38.000 habitantes, Itabirito
tem um elevado nível de capital social, com 23 times de futebol,
duas bandas e cinco corais, alguns quase centenários. Tem
também 42 associações de bairro (ativíssimas).
Em suas várias formas, há mais de 45 ONGs (orfanatos,
asilos, clubes de serviço, bombeiros voluntários,
clube da melhor idade, quinze clubes de mães e até
o clube do colesterol). Quando mergulhamos na teia das múltiplas
manifestações de uma sociedade civil ativa, vemos
que todos se conhecem, é fácil cooperar e as coisas
malfeitas não se escondem no anonimato.
Há um clube privado de tênis, onde 200 crianças
pobres recebem aulas, gratuitamente, desde que freqüentem a
escola com bom aproveitamento. Em vez de infratores, já saíram
desse grupo dois campeões brasileiros.
Não há favelas ou cortiços e 95% dos habitantes
têm casa própria. Boa parte foi construída no
sistema de mutirão, sem a participação do governo.
Completou 93 anos a Escola Laura de Queiroz. Recentemente, tornou-se
uma instituição de tempo integral para 300 alunos
do ensino fundamental com passado complicado, beirando a delinqüência.
Além do currículo convencional, ensina artesanato,
música, teatro, poesia, inglês e a história
local. A escola divide os alunos em times que competem entre si.
Ausência de alunos e professores subtrai pontos. Assim, quando
falta um colega ou a professora, os próprios alunos vão
à sua casa implorar que venha para a aula.
Para gerar fundos adicionais para a escola, foi criada a Fundação
Viva Natura, que abriga também uma fábrica de blocos
de concreto, para empregar jovens com passado de delinqüência.
As empresas locais compram o produto (além de fazer a manutenção
da escola). Um médico oferece anualmente 1.000 atendimentos
gratuitos aos alunos. O prefeito dá aula na escola, como
voluntário. Com 74 anos, trabalha também como voluntária
a mesma merendeira que lá estava na década de 50.
As comemorações tiveram exposições de
alunos, fanfarras, medalhas e muitos discursos. O mesmo de sempre,
pois não? Não exatamente. Havia três diferenças,
sutis mas fundamentais. 1) Os políticos não falaram
mal de seus adversários nem culparam os antecessores. 2)
Só se falou do que havia sido feito, nada de promessas mirabolantes.
3) As medalhas e homenagens não foram apenas para os altos
dignitários, mas para os antigos funcionários, professores
e merendeiras. Um antropólogo diria que são os ritos
de intensificação, reforçando o espírito
cívico.
Obviamente, há delinqüência (pela proximidade
da capital), há droga, há problemas, mas tudo em menor
escala. Como outras cidades com elevado capital social, Itabirito
não terá um programa do Fome Zero, porque a fome é
zero. A fórmula é simples: todos ajudam, todos confiam,
todos vigiam.
Claudio de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)
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