Edição 1819 . 10 de setembro de 2003

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Entre sósias e sombras

Os Estados Unidos temeram ser enganados
por falsos Saddams e acabaram ocupando
um falso Iraque

Os americanos não terem ainda encontrado Saddam Hussein não é nada. Pior é não terem encontrado nem o sósia, ou os sósias, de Saddam. Essa particularidade já foi certa vez exposta nesta página. Volta-se hoje ao assunto para explorar mais detidamente a questão dos sósias. Sósias remetem a sombras e espelhos, que por sua vez remetem a enganos e ilusões. Melhor que as doutas análises militares, políticas ou econômicas, tais elementos podem explicar o que ocorre no Iraque.

A informação de que Saddam costumava operar com sósias foi amplamente alardeada pelo governo de George W. Bush no período que antecedeu a guerra e durante seu transcurso. Assim, nas várias vezes em que a TV iraquiana, durante a guerra, mostrou um tranqüilo Saddam, cercado de ministros, em supostas reuniões de trabalho, logo o governo americano sugeriu cautela – talvez não fosse Saddam, mas um sósia. Em outra e mais surpreendente ocasião, em que um efusivo Saddam, já com a guerra praticamente liquidada, apareceu nas ruas de Bagdá, cercado e saudado por uma entusiasmada claque, ocorreu o mesmo. Cuidado. Pode ser um falso Saddam, alertou o governo americano.

Se tanto falaram nos sósias, por que não ir atrás deles? A captura de um sósia do ex-ditador, de perfil igualmente rechonchudo, o bigodão espesso e o jeito absurdamente bonachão, para alguém com mãos tão manchadas de sangue, ofereceria duas alternativas. Ou bem ele seria apresentado como sósia ou como o próprio Saddam. Ambas as hipóteses são potencialmente vantajosas. A primeira delas, no mínimo, exporia um problema de segurança pessoal do ex-ditador, desprovido de um de seus escudos. No máximo, ao esfregar-lhe na cara a captura do sósia, lhe assestaria um golpe capaz de levar à desestrutura psicológica. Quem convive com duplos brinca com fogo. Põe em jogo a própria identidade. Eis então um Saddam desconcertado com a captura de seu "outro eu". Seria como se lhe arrancassem a sombra, ou a imagem do espelho. Junto, ia-se o desejo de resistência. Do presunçoso ditador de outrora sobraria um farrapo, a alma reduzida ao meio.

Resultado mais efetivo ainda traria o anúncio de que o capturado fora o próprio Saddam. Escrúpulos com certeza tal decisão não suscitaria. Uma mentira a mais, uma a menos, não faz diferença. Bush, em triunfal discurso, anunciaria ter em mãos o ex-ditador, e com isso não apenas se livraria do nó que lhe sufoca a garganta, com a demora em apoderar-se do ás de ouros, entre os procurados do Iraque, como também, numa espetacular reversão de golpes ilusionistas, usaria a seu favor o sósia que o inimigo inventara para ludibriá-lo. Claro que a partir desse momento o pobre-diabo do sósia seria preso, julgado e talvez morto, pelo crime de fingir-se de outro, mas que fazer? No contrato de trabalho dos sósias não figuram apenas as vantagens. De resto, o anúncio da captura do falso Saddam poderia desencadear uma explosão de orgulho ferido no verdadeiro. "Capturaram nada", ele proclamaria. "Esse não é Saddam." Talvez acrescentasse, imprudentemente: "Saddam sou eu, e estou aqui". Pronto – eis a caça a tirar o pescoço da toca.

O que os americanos fizeram de mais crucial, até agora, contra a pessoa de Saddam Hussein foi derrubar-lhe a estátua. Mas... e se a estátua era de um sósia de Saddam? A hipótese circulou na internet, em forma de piada. Acautelemo-nos. Conhecido prestidigitador da própria identidade, Saddam bem pode ter moldado até as estátuas à imagem dos sósias. Na verdade, não é de descartar que mesmo o poder ele tenha entregado a um sósia, pondo-se ardilosamente de lado, a divertir-se com um inimigo tão vociferante contra sua pessoa, quando o efetivo responsável pelas políticas do Iraque era "o outro". Nessa hipótese, os americanos teriam atacado não Saddam, mas o sósia. E, se assim foi, não é de estranhar que de repente se tenham surpreendido a ocupar um falso Iraque, pois quanto a isso não há dúvida – o Iraque que os americanos têm sob os pés é sósia do verdadeiro. O verdadeiro, aquele com que sonharam Bush e Cheney, Rumsfeld e a querida Condoleezza, Wolfowitz e os outros, era um país que receberia os libertadores de braços abertos, iniciaria com eles uma cordial e frutuosa colaboração e depois era só sentar e contemplar o espetáculo, doce entre todos, do jorro do petróleo. Em vez disso, o Iraque em que desembarcaram, o falso, o sósia, oferece emboscadas contra os soldados, bombas a produzir hecatombes, as ruínas do que foi uma indústria petrolífera e uns restos a pagar de 1 bilhão de dólares por semana.

É o que dá uma potência envolver-se com sósias e sombras. "Poucas coisas são mais perigosas do que impérios que perseguem seus próprios interesses na crença de que estão fazendo um favor à humanidade", escreveu, a respeito da atual política americana, o historiador Eric Hobsbawn. Pior, para esse mesmo império, é quando, na execução de tal empreitada, se mete num jogo de ilusões.

 
 
 
 
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