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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Entre sósias e sombras
Os
Estados Unidos temeram ser enganados
por falsos Saddams e acabaram ocupando
um falso Iraque
Os
americanos não terem ainda encontrado Saddam Hussein não
é nada. Pior é não terem encontrado nem o sósia,
ou os sósias, de Saddam. Essa particularidade já foi
certa vez exposta nesta página. Volta-se hoje ao assunto
para explorar mais detidamente a questão dos sósias.
Sósias remetem a sombras e espelhos, que por sua vez remetem
a enganos e ilusões. Melhor que as doutas análises
militares, políticas ou econômicas, tais elementos
podem explicar o que ocorre no Iraque.
A
informação de que Saddam costumava operar com sósias
foi amplamente alardeada pelo governo de George W. Bush no período
que antecedeu a guerra e durante seu transcurso. Assim, nas várias
vezes em que a TV iraquiana, durante a guerra, mostrou um tranqüilo
Saddam, cercado de ministros, em supostas reuniões de trabalho,
logo o governo americano sugeriu cautela talvez não
fosse Saddam, mas um sósia. Em outra e mais surpreendente
ocasião, em que um efusivo Saddam, já com a guerra
praticamente liquidada, apareceu nas ruas de Bagdá, cercado
e saudado por uma entusiasmada claque, ocorreu o mesmo. Cuidado.
Pode ser um falso Saddam, alertou o governo americano.
Se
tanto falaram nos sósias, por que não ir atrás
deles? A captura de um sósia do ex-ditador, de perfil igualmente
rechonchudo, o bigodão espesso e o jeito absurdamente bonachão,
para alguém com mãos tão manchadas de sangue,
ofereceria duas alternativas. Ou bem ele seria apresentado como
sósia ou como o próprio Saddam. Ambas as hipóteses
são potencialmente vantajosas. A primeira delas, no mínimo,
exporia um problema de segurança pessoal do ex-ditador, desprovido
de um de seus escudos. No máximo, ao esfregar-lhe na cara
a captura do sósia, lhe assestaria um golpe capaz de levar
à desestrutura psicológica. Quem convive com duplos
brinca com fogo. Põe em jogo a própria identidade.
Eis então um Saddam desconcertado com a captura de seu "outro
eu". Seria como se lhe arrancassem a sombra, ou a imagem do espelho.
Junto, ia-se o desejo de resistência. Do presunçoso
ditador de outrora sobraria um farrapo, a alma reduzida ao meio.
Resultado
mais efetivo ainda traria o anúncio de que o capturado fora
o próprio Saddam. Escrúpulos com certeza tal decisão
não suscitaria. Uma mentira a mais, uma a menos, não
faz diferença. Bush, em triunfal discurso, anunciaria ter
em mãos o ex-ditador, e com isso não apenas se livraria
do nó que lhe sufoca a garganta, com a demora em apoderar-se
do ás de ouros, entre os procurados do Iraque, como também,
numa espetacular reversão de golpes ilusionistas, usaria
a seu favor o sósia que o inimigo inventara para ludibriá-lo.
Claro que a partir desse momento o pobre-diabo do sósia seria
preso, julgado e talvez morto, pelo crime de fingir-se de outro,
mas que fazer? No contrato de trabalho dos sósias não
figuram apenas as vantagens. De resto, o anúncio da captura
do falso Saddam poderia desencadear uma explosão de orgulho
ferido no verdadeiro. "Capturaram nada", ele proclamaria. "Esse
não é Saddam." Talvez acrescentasse, imprudentemente:
"Saddam sou eu, e estou aqui". Pronto eis a caça a
tirar o pescoço da toca.
O
que os americanos fizeram de mais crucial, até agora, contra
a pessoa de Saddam Hussein foi derrubar-lhe a estátua. Mas...
e se a estátua era de um sósia de Saddam? A hipótese
circulou na internet, em forma de piada. Acautelemo-nos. Conhecido
prestidigitador da própria identidade, Saddam bem pode ter
moldado até as estátuas à imagem dos sósias.
Na verdade, não é de descartar que mesmo o poder ele
tenha entregado a um sósia, pondo-se ardilosamente de lado,
a divertir-se com um inimigo tão vociferante contra sua pessoa,
quando o efetivo responsável pelas políticas do Iraque
era "o outro". Nessa hipótese, os americanos teriam atacado
não Saddam, mas o sósia. E, se assim foi, não
é de estranhar que de repente se tenham surpreendido a ocupar
um falso Iraque, pois quanto a isso não há dúvida
o Iraque que os americanos têm sob os pés é
sósia do verdadeiro. O verdadeiro, aquele com que sonharam
Bush e Cheney, Rumsfeld e a querida Condoleezza, Wolfowitz e os
outros, era um país que receberia os libertadores de braços
abertos, iniciaria com eles uma cordial e frutuosa colaboração
e depois era só sentar e contemplar o espetáculo,
doce entre todos, do jorro do petróleo. Em vez disso, o Iraque
em que desembarcaram, o falso, o sósia, oferece emboscadas
contra os soldados, bombas a produzir hecatombes, as ruínas
do que foi uma indústria petrolífera e uns restos
a pagar de 1 bilhão de dólares por semana.
É
o que dá uma potência envolver-se com sósias
e sombras. "Poucas coisas são mais perigosas do que impérios
que perseguem seus próprios interesses na crença de
que estão fazendo um favor à humanidade", escreveu,
a respeito da atual política americana, o historiador Eric
Hobsbawn. Pior, para esse mesmo império, é quando,
na execução de tal empreitada, se mete num jogo de
ilusões.
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