Edição 1819 . 10 de setembro de 2003

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Livros
Uma espiada atrás
da cortina de ferro

Um Diário Russo, de John Steinbeck e
Robert Capa, é um retrato sentimental
da União Soviética de 1947


Marilia Pacheco Fiorillo


Fotos divulgação
Stalingrado em ruínas, camponesas que dançam descalças e a simplicidade da vida familiar, entre rendas e ícones religiosos: registros que desagradaram à esquerda, por não exaltar o modo de vida comunista, e à direita, por não pintar uma visão do inferno

Galeria de fotos: Robert Capa
Trecho do livro

Em março de 1947, nos primórdios da Guerra Fria, um americano célebre por seu livro sobre os anos da Depressão nos Estados Unidos – As Vinhas da Ira – e um húngaro famoso por sua cobertura fotográfica da II Guerra se encontram num bar de Nova York para bebericar coquetéis verde-claros. Muitas doses depois, tramam um plano e o submetem ao barman, Willy, que aprova: "O tipo de coisa que eu gostaria de ler". Foi assim que nasceu a parceria entre John Steinbeck, futuro Nobel de Literatura em 1962, e Robert Capa, o fundador da agência de fotografia Magnum. O plano, simples, soava inexeqüível: dar um pulo à União Soviética e registrar o cotidiano de seu povo. Conseguiram do jornal New York Herald Tribune a promessa de publicar alguns artigos. Mais tarde trechos sairiam também no Ladies' Home Journal, pelos quais Capa teria recebido 20.000 dólares, contra os 3.000 de Steinbeck.

Para Steinbeck o visto foi fácil. Graças a As Vinhas da Ira, uma saga de migrantes miseráveis na Califórnia dos anos 30, ele era tido na finada Cortina de Ferro como um simpatizante comunista, a ponto de o FBI tê-lo na mira. Erradamente, pois o humanitarismo de Steinbeck estava longe de ser vermelho, tanto que mais tarde ele apoiaria abertamente a Guerra do Vietnã. Ele e Capa nunca souberam bem a convite de quem estavam embarcando, se da União dos Escritores ou da Voks, a sociedade de relações culturais da União Soviética. De qualquer modo, foi vantajoso constar num intercâmbio cultural, pois permitiu-lhes escapar da censura do Ministério do Exterior a que estavam constrangidos os correspondentes jornalísticos, e visitar pequenas aldeias e fazendas coletivas.

A intenção de Capa e Steinbeck em Um Diário Russo (tradução de Claudio Alves Marcondes; Cosac & Naify; 275 páginas; 89 reais) era modesta: desfazer alguns mitos da opinião pública americana, o equivalente, hoje, a voltar do Irã com a notícia de que nem todo iraniano é homem-bomba e nem todo xador recobre uma analfabeta. Pois a União Soviética era o eixo do mal da vez, como provam os absurdos que eles ouviram antes de embarcar. Uma senhora se horrorizou ("oh, vocês vão desaparecer assim que cruzarem a fronteira"), um motorista de táxi os alertou sobre a promiscuidade ("eles tomam banho todos juntos, homens e mulheres, pelados"), confundindo russos com sauna finlandesa, e um importante empresário os saudou pela missão ("levem algumas bombas para explodir aqueles vermelhos").


Fotos divulgação
A devoção em uma missa, a imagem da colheita que lembra uma pintura real-socialista e o bocejo flagrado diante do Kremlin: "Se a foto não está suficientemente boa, é porque você não está suficientemente perto", dizia o húngaro Robert Capa

Tais atavismos talvez expliquem a fria recepção que o livro teve em 1948, desagradando tanto à esquerda eclesiástica, que esperava uma exaltação do modo de vida comunista, como à direita rastaqüera, que aguardava a descrição de um inferno. Lido, e sobretudo visto hoje, mais de meio século depois, Um Diário Russo não tem nada de superficial. E sobrevive exatamente como seus autores queriam: um compassivo mural onde figuram pessoas comuns, que querem o de sempre. Segurança, conforto e paz.

Os autores não estavam interessados em figurões e suas dachas, e Stalin só se faz presente nos cartazes que poluem o visual das cidades. A Rússia de Capa e Steinbeck é intimista, sem ser piegas: de mamuschkas ao fogão, roupas no varal entre destroços de guerra e salas de jantar emolduradas por indestrutíveis ícones religiosos e cortinas de renda. É lírica, como na passagem sobre as jovens camponesas ucranianas que dançam quase até a hora de sair para a colheita, descalças e entre elas, pois a maioria dos homens morreu durante a guerra. Ou na descrição do menino pequeno que se debruça sobre um jardim onde estão enterrados em vala comum ex-combatentes, e explica que vai todas as noites visitar o pai.

Uma Rússia prosaica e cotidiana, além e aquém de regimes políticos. Da intensa devoção religiosa numa missa em Tbilisi, a capital da Geórgia, contrariando a impressão inicial de Capa de que "o museu é a igreja da Rússia moderna". De um bocejo em frente ao Kremlin. Do estoicismo da população vivendo sob as ruínas em Stalingrado, alvo dos piores bombardeios na II Guerra, magnificamente capturado na imagem de um lambe-lambe cujo recruta não move um milímetro sua pose diante da presença dos estrangeiros. E ainda da glutonaria e espírito farrista dos georgianos, que entopem os visitantes de vodca e comida.

Comer e beber até perder os sentidos, esperar nos aeroportos até perder a paciência e agüentar a congênita burrice dos burocratas até o infinito: essa é a tróica de suplícios a que são submetidos os viajantes. Steinbeck descreve essas situações com um humor delicioso, boa parte devedor das manias e invencionices de Capa. É dele, por exemplo, o achado "Gremlin do Kremlin" – ou "diabrete do Kremlin" – para explicar por que nada do que o guia moscovita providencia dá certo: os aviões decolam sem eles, os carros não estão à espera nos aeroportos, os hotéis nunca têm reservas. A mania de Capa por banhos ou seu infatigável hábito de roubar livros alheios são um capítulo à parte, divertidíssimo. Nesse particular, como no relato da demora dos restaurantes para servir comida devido à intrincada contabilidade estatal dos pratos, o livro é uma aula magna sobre a arte da convivência para qualquer dupla que saia pelo mundo por quarenta dias. A parceria foi um sucesso inclusive no estilo, pois Steinbeck parece anotar o que vê segundo a máxima de Capa de que "se a foto não está suficientemente boa, é porque você não está suficientemente perto". A maioria dos episódios é descrita num tom de proximidade, doméstico e pacato. Texto e fotos têm a mesma cadência, o que é extraordinário se lembrarmos da total incompatibilidade de personalidades entre escritor e fotógrafo.

O californiano John Steinbeck, nascido em 1902, depois de uma breve passagem pela Universidade Stanford e alguns trabalhos errantes, como pintor e caseiro, tornou-se uma celebridade com a publicação, em 1939, de As Vinhas da Ira – 430.000 cópias vendidas só no primeiro ano, um prêmio Pulitzer e duradoura carreira de best-seller, com uma tiragem, até hoje, de mais de 14 milhões de exemplares. O livro virou filme dirigido por John Ford e estrelado por Henry Fonda, e iniciou uma longa colaboração do autor com Hollywood. O diretor Elia Kazan levaria às telas outro romance seu, A Leste do Éden (aqui intitulado Vidas Amargas), com James Dean, e Steinbeck escreveria outros roteiros, entre eles Viva Zapata!, para o mesmo Kazan. Embora a direita americana tenha recepcionado As Vinhas da Ira como a "criação infernal de uma mente distorcida", a obra de Steinbeck, incluindo-se Um Diário Russo, seria mais justamente qualificada como fruto de uma mente honesta, levemente melodramática e despretensiosa, a prosa límpida de um americano tranqüilo, longe da angústia e ambição experimental de seu contemporâneo William Faulkner.

Onze anos mais jovem, Robert Capa, nascido Endre Erno Friedmann em Budapeste, tornou-se sinônimo de fotojornalismo de guerra antes mesmo de fundar a agência Magnum, com o francês Cartier-Bresson, o inglês George Rodger e o polonês David "Chim" Seymour. Onde houvesse risco e confusão, para lá corria Capa. Cobriu a Guerra Civil Espanhola, em 1936, clicou o exilado Trotsky em Copenhague em 1932, foi para a China em 1938 atrás da guerra sino-japonesa e registrou o desembarque dos aliados no Dia D. Temperamento de jogador, inquieto, instável, cínico, carismático e fanfarrão até morrer, em 1954, ao pisar acidentalmente numa mina no Vietnã, não foi à toa que escolheu para si esse pseudônimo. Capa, em húngaro, significa tubarão.

Pode-se reclamar que não há nada de dramático, nenhuma convulsão ou ambigüidade no relato de Steinbeck. E que sua perspectiva sentimental da Rússia do pós-guerra, ao omitir o pior – do racionamento às perseguições políticas – é enganosa. A simpática e desodorizada ingenuidade do relato faz às vezes lembrar Alden Pyle, o protagonista do romance O Americano Tranqüilo, de Graham Greene, sobre o Vietnã dos anos 50. Pyle é um americano atlético e cheio de boas intenções, que, graças a convicções demais sobre a democracia, e experiência de menos do mundo, deflagra o inferno. Não é o caso de Um Diário Russo, cuja boa intenção, dinamitar preconceitos, já faz a boa causa. Mas não deixa de ser verdade que a inocência, inclusive nesse livro, nem sempre leva a melhor. A grande foto não pôde ser vista. Era sobre a menina louca que vivia como bicho, desmemoriada, nos escombros de Stalingrado. Foi confiscada pelas autoridades soviéticas horas antes de Capa decolar de volta.

 
 
 
 
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