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Livros
Uma
espiada atrás
da cortina de ferro
Um
Diário Russo, de
John Steinbeck e
Robert Capa, é um retrato sentimental
da União Soviética de 1947

Marilia
Pacheco Fiorillo
Fotos divulgação
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| Stalingrado
em ruínas, camponesas que dançam descalças
e a simplicidade da vida familiar, entre rendas e ícones
religiosos: registros que desagradaram à esquerda, por
não exaltar o modo de vida comunista, e à direita,
por não pintar uma visão do inferno |
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Em
março de 1947, nos primórdios da Guerra Fria, um americano
célebre por seu livro sobre os anos da Depressão nos
Estados Unidos As Vinhas da Ira e um húngaro
famoso por sua cobertura fotográfica da II Guerra se encontram
num bar de Nova York para bebericar coquetéis verde-claros.
Muitas doses depois, tramam um plano e o submetem ao barman, Willy,
que aprova: "O tipo de coisa que eu gostaria de ler". Foi assim
que nasceu a parceria entre John Steinbeck, futuro Nobel de Literatura
em 1962, e Robert Capa, o fundador da agência de fotografia
Magnum. O plano, simples, soava inexeqüível: dar um
pulo à União Soviética e registrar o cotidiano
de seu povo. Conseguiram do jornal New York Herald Tribune
a promessa de publicar alguns artigos. Mais tarde trechos sairiam
também no Ladies' Home Journal, pelos quais Capa teria
recebido 20.000 dólares, contra
os 3.000 de Steinbeck.
Para
Steinbeck o visto foi fácil. Graças a As Vinhas
da Ira, uma saga de migrantes miseráveis na Califórnia
dos anos 30, ele era tido na finada Cortina de Ferro como um simpatizante
comunista, a ponto de o FBI tê-lo na mira. Erradamente, pois
o humanitarismo de Steinbeck estava longe de ser vermelho, tanto
que mais tarde ele apoiaria abertamente a Guerra do Vietnã.
Ele e Capa nunca souberam bem a convite de quem estavam embarcando,
se da União dos Escritores ou da Voks, a sociedade de relações
culturais da União Soviética. De qualquer modo, foi
vantajoso constar num intercâmbio cultural, pois permitiu-lhes
escapar da censura do Ministério do Exterior a que estavam
constrangidos os correspondentes jornalísticos, e visitar
pequenas aldeias e fazendas coletivas.
A
intenção de Capa e Steinbeck em Um Diário
Russo (tradução de Claudio Alves Marcondes;
Cosac & Naify; 275 páginas; 89 reais) era modesta: desfazer
alguns mitos da opinião pública americana, o equivalente,
hoje, a voltar do Irã com a notícia de que nem todo
iraniano é homem-bomba e nem todo xador recobre uma analfabeta.
Pois a União Soviética era o eixo do mal da vez, como
provam os absurdos que eles ouviram antes de embarcar. Uma senhora
se horrorizou ("oh, vocês vão desaparecer assim que
cruzarem a fronteira"), um motorista de táxi os alertou sobre
a promiscuidade ("eles tomam banho todos juntos, homens e mulheres,
pelados"), confundindo russos com sauna finlandesa, e um importante
empresário os saudou pela missão ("levem algumas bombas
para explodir aqueles vermelhos").
Fotos divulgação
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| A
devoção em uma missa, a imagem da colheita que lembra uma pintura
real-socialista e o bocejo flagrado diante do Kremlin: "Se a
foto não está suficientemente boa, é porque você não está suficientemente
perto", dizia o húngaro Robert Capa |
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Tais
atavismos talvez expliquem a fria recepção que o livro
teve em 1948, desagradando tanto à esquerda eclesiástica,
que esperava uma exaltação do modo de vida comunista,
como à direita rastaqüera, que aguardava a descrição
de um inferno. Lido, e sobretudo visto hoje, mais de meio século
depois, Um Diário Russo não tem nada de superficial.
E sobrevive exatamente como seus autores queriam: um compassivo
mural onde figuram pessoas comuns, que querem o de sempre. Segurança,
conforto e paz.
Os
autores não estavam interessados em figurões e suas
dachas, e Stalin só se faz presente nos cartazes que poluem
o visual das cidades. A Rússia de Capa e Steinbeck é
intimista, sem ser piegas: de mamuschkas ao fogão, roupas
no varal entre destroços de guerra e salas de jantar emolduradas
por indestrutíveis ícones religiosos e cortinas de
renda. É lírica, como na passagem sobre as jovens
camponesas ucranianas que dançam quase até a hora
de sair para a colheita, descalças e entre elas, pois a maioria
dos homens morreu durante a guerra. Ou na descrição
do menino pequeno que se debruça sobre um jardim onde estão
enterrados em vala comum ex-combatentes, e explica que vai todas
as noites visitar o pai.
Uma
Rússia prosaica e cotidiana, além e aquém de
regimes políticos. Da intensa devoção religiosa
numa missa em Tbilisi, a capital da Geórgia, contrariando
a impressão inicial de Capa de que "o museu é a igreja
da Rússia moderna". De um bocejo em frente ao Kremlin. Do
estoicismo da população vivendo sob as ruínas
em Stalingrado, alvo dos piores bombardeios na II Guerra, magnificamente
capturado na imagem de um lambe-lambe cujo recruta não move
um milímetro sua pose diante da presença dos estrangeiros.
E ainda da glutonaria e espírito farrista dos georgianos,
que entopem os visitantes de vodca e comida.
Comer
e beber até perder os sentidos, esperar nos aeroportos até
perder a paciência e agüentar a congênita burrice
dos burocratas até o infinito: essa é a tróica
de suplícios a que são submetidos os viajantes. Steinbeck
descreve essas situações com um humor delicioso, boa
parte devedor das manias e invencionices de Capa. É dele,
por exemplo, o achado "Gremlin do Kremlin" ou "diabrete do
Kremlin" para explicar por que nada do que o guia moscovita
providencia dá certo: os aviões decolam sem eles,
os carros não estão à espera nos aeroportos,
os hotéis nunca têm reservas. A mania de Capa por banhos
ou seu infatigável hábito de roubar livros alheios
são um capítulo à parte, divertidíssimo.
Nesse particular, como no relato da demora dos restaurantes para
servir comida devido à intrincada contabilidade estatal dos
pratos, o livro é uma aula magna sobre a arte da convivência
para qualquer dupla que saia pelo mundo por quarenta dias. A parceria
foi um sucesso inclusive no estilo, pois Steinbeck parece anotar
o que vê segundo a máxima de Capa de que "se a foto
não está suficientemente boa, é porque você
não está suficientemente perto". A maioria dos episódios
é descrita num tom de proximidade, doméstico e pacato.
Texto e fotos têm a mesma cadência, o que é extraordinário
se lembrarmos da total incompatibilidade de personalidades entre
escritor e fotógrafo.
O
californiano John Steinbeck, nascido em 1902, depois de uma breve
passagem pela Universidade Stanford e alguns trabalhos errantes,
como pintor e caseiro, tornou-se uma celebridade com a publicação,
em 1939, de As Vinhas da Ira 430.000
cópias vendidas só no primeiro ano, um prêmio
Pulitzer e duradoura carreira de best-seller, com uma tiragem, até
hoje, de mais de 14 milhões de exemplares. O livro virou
filme dirigido por John Ford e estrelado por Henry Fonda, e iniciou
uma longa colaboração do autor com Hollywood. O diretor
Elia Kazan levaria às telas outro romance seu, A Leste
do Éden (aqui intitulado Vidas Amargas), com James
Dean, e Steinbeck escreveria outros roteiros, entre eles Viva
Zapata!, para o mesmo Kazan. Embora a direita americana tenha
recepcionado As Vinhas da Ira como a "criação
infernal de uma mente distorcida", a obra de Steinbeck, incluindo-se
Um Diário Russo, seria mais justamente qualificada
como fruto de uma mente honesta, levemente melodramática
e despretensiosa, a prosa límpida de um americano tranqüilo,
longe da angústia e ambição experimental de
seu contemporâneo William Faulkner.
Onze
anos mais jovem, Robert Capa, nascido Endre Erno Friedmann em Budapeste,
tornou-se sinônimo de fotojornalismo de guerra antes mesmo
de fundar a agência Magnum, com o francês Cartier-Bresson,
o inglês George Rodger e o polonês David "Chim" Seymour.
Onde houvesse risco e confusão, para lá corria Capa.
Cobriu a Guerra Civil Espanhola, em 1936, clicou o exilado Trotsky
em Copenhague em 1932, foi para a China em 1938 atrás da
guerra sino-japonesa e registrou o desembarque dos aliados no Dia
D. Temperamento de jogador, inquieto, instável, cínico,
carismático e fanfarrão até morrer, em 1954,
ao pisar acidentalmente numa mina no Vietnã, não foi
à toa que escolheu para si esse pseudônimo. Capa, em
húngaro, significa tubarão.
Pode-se
reclamar que não há nada de dramático, nenhuma
convulsão ou ambigüidade no relato de Steinbeck. E que
sua perspectiva sentimental da Rússia do pós-guerra,
ao omitir o pior do racionamento às perseguições
políticas é enganosa. A simpática e
desodorizada ingenuidade do relato faz às vezes lembrar Alden
Pyle, o protagonista do romance O Americano Tranqüilo,
de Graham Greene, sobre o Vietnã dos anos 50. Pyle é
um americano atlético e cheio de boas intenções,
que, graças a convicções demais sobre a democracia,
e experiência de menos do mundo, deflagra o inferno. Não
é o caso de Um Diário Russo, cuja boa intenção,
dinamitar preconceitos, já faz a boa causa. Mas não
deixa de ser verdade que a inocência, inclusive nesse livro,
nem sempre leva a melhor. A grande foto não pôde ser
vista. Era sobre a menina louca que vivia como bicho, desmemoriada,
nos escombros de Stalingrado. Foi confiscada pelas autoridades soviéticas
horas antes de Capa decolar de volta.
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