Edição 1819 . 10 de setembro de 2003

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Medicina
Maconha na farmácia

A Holanda é o primeiro país do
mundo a aprovar a venda da
droga para fins terapêuticos


Paula Neiva


Reuters
O Ministério da Saúde holandês adverte: fumar faz mal. Inalar e beber pode

A Holanda, que tem uma longa tradição de tolerância, tornou-se na semana passada o primeiro país do mundo a autorizar a venda de maconha para fins terapêuticos. Os primeiros lotes da erva chegaram às farmácias e aos hospitais já na segunda-feira. Por determinação do Ministério da Saúde holandês, a maconha só deve ser prescrita, como última alternativa, para o tratamento de dores crônicas, náuseas, falta de apetite, rigidez muscular e espasmos que acometem pacientes de câncer, Aids, esclerose múltipla e síndrome de Tourette, doença caracterizada por tiques e movimentos involuntários do corpo. Pelos cálculos das autoridades, cerca de 7.000 pessoas devem ser beneficiadas pela medida.

Dois tipos de maconha foram colocados à venda. O pote com 5 gramas da versão mais fraca da erva custa 44 euros (o equivalente a 145 reais). A mesma quantidade da mais potente sai por 50 euros (165 reais, em média). Esses preços são mais altos que os da maconha vendida nos cafés autorizados pelo governo a comercializar a droga. Isso porque a maconha de farmácia é fornecida apenas por dois produtores e leva o selo de qualidade do governo holandês. A recomendação é que a droga seja diluída em água e inalada ou consumida sob a forma de chá. Com isso, os especialistas pretendem evitar que os doentes sejam expostos aos malefícios da fumaça do cigarro de maconha, que contém cerca de 400 substâncias, algumas delas cancerígenas.

O uso da maconha para tratamento médico está longe de ser um consenso. Os críticos da idéia argumentam que as propriedades terapêuticas da erva ainda não foram comprovadas cientificamente. E que, em alguns casos, a droga pode levar à dependência e deflagrar quadros graves de depressão e de esquizofrenia em pessoas com propensão a esses distúrbios psiquiátricos. Os defensores afirmam que a maconha, uma droga que age sobre os centros cerebrais responsáveis por diminuir a saciedade e aumentar a fome, pode ser eficaz para a recuperação de peso de pacientes terminais de câncer e Aids. Quanto ao suposto mecanismo de ação da erva no combate a náuseas, espasmos e dores crônicas, há mais dúvidas do que certezas. Mas a liberalíssima Holanda não quis esperar a chancela da ciência.

 
 
 
 
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