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Governo
A praga do fisiologismo
PT abre as portas dos cargos públicos
para seus militantes e aliados, partidariza
a burocracia federal e instala um radical
e voraz aparelhamento ideológico do Estado
Roberto Castro/AE
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NO
ESTILO
O presidente Lula, com os membros da cúpula do PMDB: votos e
cargos, no melhor estilo fisiológico |
Antes
de chegar ao poder, o PT despertou em alguns setores dois grandes
receios. Primeiro, o de que poderia, em razão de seu passado
esquerdista, arrebentar a economia a golpes de populismo. O outro:
o de que, por sua experiência limitada, tivesse dificuldade
de obter maioria no Congresso para aprovar seus projetos e, em última
instância, governar. O PT, ao contrário do que se temia,
tem sido uma boa surpresa nos dois terrenos. De onde menos se esperava
é que veio a má surpresa. O PT, renegando seu passado
de intransigência a respeito de nepotismo e fisiologismo,
está no centro de um escândalo de nomeações
de petistas aos milhares para a máquina administrativa do
governo, em muitos casos sem levar em conta requisitos técnicos
ou até mesmo a competência dos escolhidos. Os dados
acabam de sair do forno da Casa Civil, a central de nomeações
do governo: nos 21.000 cargos de confiança, aqueles que podem
ser preenchidos sem a necessidade de concurso público, o
PT já reservou lugar para 15.000 companheiros.
Nos próximos meses, o governo pretende completar a monumental
cota de 21.000 cargos, fazendo as 6.000 nomeações
que faltam. Antes mesmo que isso aconteça, o país
já está diante da mais radical e voraz partidarização
da estrutura burocrática do Estado já vista em sua
história. É um fisiologismo radical devido a sua extensão,
já que nenhuma autoridade governamental veio a público
até agora para dizer que talvez não seja preciso trocar
a multidão de 21.000 servidores. Ao contrário. "Nós
fomos eleitos para mudar", proclama José Genoíno,
presidente nacional do PT, deixando cristalino que, entre as mudanças,
está a renovação completa, de alto a baixo,
dos cargos de confiança do governo. É, também,
um fisiologismo voraz pela falta de nitidez de critérios
técnicos e clareza de critérios político-partidários.
O requisito de maior prestígio na mudança patrocinada
pelo PT é uma rotação em torno do mesmo eixo:
ser do PT, simpatizante do PT ou aliado do PT.
Joedson Alves/AE
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SEMELHANÇA
O senador tucano Arthur Virgílio (à esq.)
e seu colega petista Eduardo Suplicy: eles têm partidos
diferentes, mas críticas semelhantes ao festival de
nomeações do governo petista
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Os
dirigentes do partido e membros do governo que trataram do assunto
na semana passada dizem com clareza, com orgulho até, que
as nomeações devem mesmo se guiar por critérios
políticos. Os petistas, no íntimo, parecem julgar
que estão imunes à censura tradicional sobre empreguismo
por se julgarem "puros" e por estarem substituindo com suas ovelhas
brancas os lobos dos partidos que ocuparam o governo antes do PT.
Ou seja, a pureza nasceu em janeiro deste ano com a posse do governo.
A pena é que o monopólio do bem seja sempre uma ilusão
e, no caso, uma ilusão pela qual o Estado brasileiro
ainda poderá pagar caro. Quando se troca toda a cúpula
administrativa da máquina governante numa extensão
tão grande, o governo perde milhares de servidores que funcionavam
como a memória do governo. Sabiam, pela experiência
acumulada em décadas, tocar cada setor do Estado. Em coluna
assinada na sexta-feira passada, em O Estado de S. Paulo,
o jornalista João Mellão Neto dizia que o PT arquivou
o "nepotismo" para criar o "nepetismo". Conforme suas contas, quando
muda o partido no governo, há troca de uma centena de cargos
de direção na Inglaterra, 1.000 na França e
apenas 5.000 no mais intricado governo do planeta, o dos Estados
Unidos. No Brasil, com a troca de 21.000 servidores, o PT corre
o risco de provocar uma paralisia da máquina que comanda,
que aliás já está batendo pino em vários
setores. Em alguns, escandalosamente.
A estréia de um governo, de qualquer governo, sempre produz
uma troca de nomes nos postos centrais da máquina pública.
Foi assim no passado, com um escancarado viés de nepotismo,
na Grécia antiga, na China dos mandarins, no Império
Romano, na Europa medieval. É assim ainda hoje, embora com
o nepotismo contido, mesmo nos países mais desenvolvidos
do mundo. É compreensível, até desejável,
que o partido vitorioso nas urnas governe com a colaboração
de seus aliados, e não com a sabotagem de seus adversários.
Mas, é claro, tudo tem limite. No caso do PT, espanta a intensidade
vertical das mudanças no aparelho estatal. No início,
trocou-se a cúpula dos órgãos mais relevantes.
Depois, o governo passou a mexer em postos intermediários
da administração pública. Agora, a interferência
chegou perto da base da máquina, engolfando gerentes e cargos
técnicos de quarto e quinto escalões. Há órgãos
mudando até secretária, ascensorista e motorista.
Além dos 21.000 cargos de confiança, o PT pretende
colocar os seus em outros 19.000 cargos remanejáveis. Serão,
portanto, 40.000 trocas. Naturalmente, isso não é
mais uma mudança. É coronelismo partidário
ou, para ficar num termo mais caro ao discurso petista, é
"aparelhamento ideológico", com todo o seu rosário
de ineficiência, insegurança, paralisia e patrulhamento.
Ed Ferreira/AE
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BEM-VINDO
O ministro Miguel Rossetto (com a mão na cabeça)
e o novo presidente do Incra, Rolf Hackbart
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"Nomear
15.000 pessoas é uma insanidade", diz o cientista político
Edson Nunes, ex-presidente do Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE) e autor do livro A Gramática
Política do Brasil. "Quem mexe em 15.000 cargos mexe
no coração da máquina pública." No BNDES,
o segundo maior banco de fomento do mundo, com 34 bilhões
de reais para aplicar neste ano, foram tantas as trocas que o coração
está fraco, quase parando. O presidente do banco, Carlos
Lessa, acabou com as 27 superintendências da instituição
e afastou todos os titulares. Depois, recriou onze superintendências,
todas com novos chefes. O resultado é que, neste primeiro
semestre, o volume de financiamento concedido caiu 14%, num momento
em que a economia mais precisa de oxigênio. Um departamento
inteiro, de análise econômica e interlocução
com organismos financeiros internacionais, foi suprimido, e seus
técnicos vagam à toa. "Estamos como cachorro de mudança.
Não tem casa nova para ir, nem casa velha para voltar", diz
um economista com vinte anos de trabalho no banco.
Seria animador imaginar que as mudanças no BNDES eram necessárias,
embora tenham paralisado o banco, mas não parece ser esse
o caso. O departamento que deixou técnicos zanzando como
"cachorros de mudança" foi eliminado apenas porque o presidente
Carlos Lessa entendeu que ali se escondia um "ninho de tucanos".
E se fosse mesmo isso? O fato de ser tucano ou petista, ou
vascaíno não é motivo para promover
uma mudança num cargo técnico. A partidarização
no BNDES é evidente. Até os cargos de conselheiros
nas empresas das quais o banco é acionista têm sido
reservados a petistas ou simpatizantes. Antes, esses postos eram
ocupados por funcionários de carreira, que conheciam bem
os interesses do banco e, por tradição, abriam mão
do jetom que, nesses casos, pode chegar até a 15.000
reais por mês. Agora, Lessa indicou gente de fora do banco
para ser conselheiro nas empresas e, além disso, trava uma
batalha interna para que o jetom seja pago. Porém, com uma
peculiaridade: pago, sim, mas apenas para os conselheiros que ele,
Lessa, indicar...
Com esse festival de nomeações, o PT está perdendo
uma excelente oportunidade de provar que, como diz no discurso,
veio para mudar e modernizar as práticas políticas.
O cientista social Andrew MacMullen, da Universidade de Durhan,
define como nepotismo toda distribuição de empregos
públicos que não se guie por critérios exclusivamente
técnicos, não importa se o beneficiário é
um parente, um amigo ou um aliado político. O pensador italiano
Norberto Bobbio, uma das cabeças mais férteis do pensamento
político, vai mais longe. Classifica o nepotismo, pura e
simplesmente, como um tipo de corrupção. No caso do
PT, a discussão se agrava mais quando se leva em conta que
os petistas que detêm cargo público recolhem um dízimo
para o partido. Ou seja, cada nomeação nova engorda
o caixa da legenda (veja
tabela). Estima-se que, até a eleição
municipal, em outubro do ano que vem, os cofres do PT ganhem mais
de 30 milhões de reais com o dízimo de seus novos
servidores públicos.
A central de nomeações do PT tem um mecanismo rígido
de funcionamento. Está tudo centralizado no Gabinete Civil,
chefiado pelo poderoso ministro José Dirceu, encarregado
de dar a palavra final sobre todas as nomeações. A
estrutura, lembre-se, não é original. No governo tucano,
o então secretário-geral Eduardo Jorge Caldas Pereira
desempenhava o mesmo papel, a pretexto de evitar a nomeação
de pessoas com nódoas no currículo. Agora, o PT afirma
ter o mesmo objetivo. "Não há conotação
ideológica nisso", informa Marcelo Sereno, o homem da Casa
Civil que examina a ficha dos indicados. "Verificamos apenas se
o sujeito tem ou já teve problema com a Justiça."
O atestado ideológico, na verdade, precede a chegada do currículo
à Casa Civil. Funciona assim: interessados em cargos regionais
mandam currículo ao diretório estadual do PT, que
faz a triagem e, se for o caso, manda o documento a Brasília.
Currículo de candidato a cargo de alcance nacional é
examinado, antes, pelo diretório nacional do PT. Com isso,
o processo já faz o refinamento ideológico.
O mecanismo produz uma sintonia admirável. Entre aqueles
conselheiros do BNDES que Carlos Lessa quer empossar nas empresas
privadas e, de preferência, embolsando jetom
estão nomes muito próximos do ministro José
Dirceu. Um deles é o próprio Marcelo Sereno, encarregado
de examinar os currículos e chefe de gabinete de Dirceu.
Outro é Marcelo Barbieri, ex-aliado de Orestes Quércia
que hoje trabalha na assessoria de Dirceu. Um terceiro é
Silvio Pereira, secretário de organização do
PT e assessor informal de Dirceu, também envolvido na seleção
dos futuros servidores petistas de confiança. Através
desse mecanismo, o PT pretende garantir sua presença em pelo
menos 70% dos 21.000 cargos de confiança e, com isso, evitar
os "gargalos de corrupção" na máquina federal,
como se todos os petistas fossem incorruptíveis, e apenas
eles. Assim, o partido já trocou todas as diretorias financeiras
das estatais elétricas estaduais das quais o governo federal
é acionista e praticamente monopolizou as indicações
nas delegacias regionais do trabalho. "Nessas áreas, nós
temos quadros excepcionais", afirma José Genoíno,
o presidente do PT.
Roberto Castro/AE
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DE NOVO
Numa cena cada vez mais comum, os radicais do PT protestam
contra Lula
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O
fisiologismo, é claro, não é uma invenção
do PT. No início do século passado, com o regime republicano
dando seus primeiros passos, a máquina pública brasileira
era um poleiro de filhos, parentes, amigos, aliados, compadres,
amantes, namoradas. Os empregos públicos eram distribuídos
entre os membros da oligarquia rural que, graças aos cargos,
garantiam o sucesso na eleição seguinte. Sob o governo
de Getúlio Vargas, o funcionalismo conheceu as primeiras
tentativas de profissionalização, com a criação
de concursos e a definição de critérios impessoais
para o exercício da função pública.
Mas ninguém dava muita importância para isso, num sistema
republicano marcado por nove intervenções militares
e pouquíssimo respeito às regras. Em 1985, com o fim
da ditadura militar, o fisiologismo atingiu seu ápice. Eleito
presidente no Colégio Eleitoral, Tancredo Neves loteou seu
governo com ímpeto de gladiador. Os aliados de Tancredo,
o PFL e o PMDB de hoje, chegaram a fazer sorteios para dividir o
quinhão de cada um. Foi uma farra tal que o presidente empossado
no lugar de Tancredo, José Sarney, ficou os primeiros meses
paralisado, com a nova burocracia, neófita, andando às
tontas pelos corredores.
Era previsível que o PT faria mudanças mais profundas
na burocracia federal que os partidos derrotados na eleição
presidencial do ano passado. Afinal, o PFL, o PSDB e o PMDB, de
uma forma ou de outra, estão incrustados na máquina
pública desde, pelo menos, a redemocratização
de 1985. No caso do PT, o grosso de seus militantes e simpatizantes
sempre foi mantido a distância dos postos de comando do aparato
federal. Assumindo o poder, portanto, era natural que promovesse
mexidas num volume maior, mas esperava-se que respeitasse certos
limites e certos critérios. Contrariando a expectativa, o
PT, sempre tão cioso de sua postura ética e tão
crítico das práticas fisiológicas, está
agindo à semelhança do PFL e do PMDB de 1985, com
uma fome de quem quer recuperar décadas de jejum. "São
tantas as mudanças agora que estamos diante de uma paralisia
semelhante à que ocorreu no início do governo Sarney",
compara a cientista política Lúcia Hipólito,
estudiosa do serviço público há mais de vinte
anos. "Hoje, não se faz licitação para comprar
um lápis. As pessoas não sabem como fazer e ainda
têm medo de fazer errado."
O acesso ao Estado deve ser democrático. Empresas interessadas
em vender para o governo precisam participar de licitação.
E pessoas interessadas em trabalhar no serviço público
devem se submeter a concurso. A voracidade com que o PT está
ocupando a máquina tem atropelado esses princípios
elementares de impessoalidade e transparência da administração
pública. A Fundação Nacional de Saúde
(Funasa), por exemplo, vinha sendo blindada contra injunções
políticas. Em maio de 2000, um decreto definiu que todos
os coordenadores regionais da fundação tinham de ser
funcionários de carreira com pelo menos cinco anos de experiência
em cargos de direção. Com dificuldade de encontrar
companheiros que atendessem aos requisitos, o PT simplesmente mudou
o decreto, acrescentando a expressão "preferencialmente".
Ou seja: o que antes era uma exigência passou a ser,
na versão petista do decreto, apenas uma preferência.
Das 27 coordenadorias da Funasa, treze estão ocupadas por
petistas e as demais foram distribuídas entre seis partidos
aliados. Nos Correios, o PT não se deu ao trabalho de mudar
os critérios de nomeação. Apenas os ignorou.
Segundo o Ministério Público, dos 120 diretores e
coordenadores regionais da estatal, vinte foram empossados em desrespeito
às normas internas de contratação da estatal.
Uma recomendação do Ministério Público
está pedindo o imediato afastamento dos vinte diretores.
Quando aparecem, os novos critérios petistas soam estranhos
ao serviço público. No INSS, a poderosa autarquia
previdenciária que pagou mais de 100 bilhões de reais
em benefícios no ano passado, estava em curso um processo
de profissionalização. Há quatro anos, mesmo
sem regra escrita, tornou-se praxe escolher os 102 gerentes regionais
do INSS através de um processo de seleção interna.
A idéia era valorizar os funcionários e estimular
a competência. Com o PT, houve mudanças. Um candidato
a gerente regional pode ter doutorado em assuntos previdenciários,
mas perderá para seu concorrente caso este, para desempatar
a disputa, tenha dois anos de experiência como dirigente de
sindicato, associação de classe ou mesmo organização
não-governamental. É isso mesmo: militância
sindical vale mais que título de doutor. Por quê? "Não
quisemos perpetuar nos postos os que dirigiram o INSS e tínhamos
de mudar os critérios. Quem dirigiu um sindicato, uma ONG
ou uma instituição tem uma experiência de liderança
que não deve ser desperdiçada", diz a ex-deputada
petista Lúcia Carvalho, gestora de pessoal do instituto.
Ed Ferreira/AE
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O ÁPICE
Tancredo festeja vitória eleitoral no Congresso, em 1985:
auge do fisiologismo pós-ditadura
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À fisiologia clássica do toma lá, dá
cá, patrocinada pelos partidos que o antecederam no poder,
o PT está acrescentando sua peculiaridade do toma cá,
dá lá, representado pelo aparelhamento ideológico
do Estado. Quem tornou pública a tradução da
nova regra foi o ministro da Saúde, Humberto Costa, ao afirmar
que só trabalha com gente de seu "lado" ou seja, de
seu campo ideológico. Um médico que atende um paciente
do SUS deve ser um profissional competente e idôneo. Não
importa, para o paciente ou para o bom andamento do serviço
médico, que ele seja apartidário. O petismo em nada
contribui para melhorar o desempenho do engenheiro que constrói
pontes ou chefia um departamento técnico nessa área.
Parece elementar, mas há sinais de que alguns petistas não
perceberam essa banalidade. "A máquina do Estado só
pode ter um lado: o do cidadão", adverte o cientista político
Sérgio Abranches. "Não tem lógica a parte técnica
do Estado ter lado. O aparelhamento que o PT está promovendo
é irmão siamês do fisiologismo", completa Abranches.
Em nenhum outro pedaço da máquina federal a partilha
de cargos entre os "companheiros", à revelia de critérios
técnicos, foi tão evidente quanto no Incra, órgão
que cuida da reforma agrária no país. A esmagadora
maioria das 29 superintendências do instituto foi loteada
entre militantes ligados ao Movimento dos Sem-Terra, Pastoral da
Terra ou Confederação dos Trabalhadores na Agricultura
e tudo isso ignorando outro documento legal, um decreto presidencial
editado em 1999, de acordo com o qual os chefes do Incra nos Estados
deveriam ser escolhidos entre funcionários de carreira. Na
semana passada, quando a extensão do fisiologismo petista
causava espanto generalizado e ganhava as manchetes dos jornais,
o governo tentou abafar o assunto com um factóide: demitiu
o presidente nacional do Incra, Marcelo Resende, alçado ao
cargo por indicação do MST. A decisão estava
tomada havia dias, mas só foi anunciada na semana passada,
num momento bastante oportuno. Em seu lugar, o governo nomeou um
técnico, Rolf Hackbart, que já na primeira declaração
pública deixou claro a que veio. Ele quer anular a medida
provisória do governo FHC que proibia o estudo de desapropriação
de fazendas já invadidas. O resultado será o estímulo
ao aumento das invasões de terra no Brasil, um motivo de
inquietação política, social e econômica
dos mais sensíveis.
No último lance de fisiologismo, ocorrido na semana passada,
o presidente Luiz Inácio Lula da Silva selou com os caciques
do PMDB o regresso oficial do partido ao governo. Lula prometeu
aos peemedebistas que na reforma ministerial dos próximos
meses o PMDB receberá dois ministérios e, na
votação da reforma tributária, na última
semana, o partido já votou em uníssono com o governo.
Que nome se dá a isso? Fisiologismo, é claro, do mesmo
tipo que os partidos antecessores do PT já fizeram. Aqui,
a agravante é que os petistas eram críticos mordazes
dessa prática. Quando era senador do PT por Sergipe, José
Eduardo Dutra, hoje presidente da Petrobras, fez questão
de publicar em seu site parlamentar um virulento artigo contra o
governo tucano da época. Dizia que o fisiologismo era uma
praga, um mal evitável, e espinafrava a tese de que a concessão
de cargos era conseqüência incontornável das alianças
políticas. Encerrava dizendo que, tal como os franceses superaram
o despotismo dos seus monarcas, os "brasileiros encontrarão
seu caminho para o pleno exercício da cidadania e da democracia".
Pois bem, na Petrobras, um aposentado há nove anos, que passou
os últimos tempos cuidando do diretório municipal
do PT em Nova Friburgo, no interior do Rio de Janeiro, foi repentinamente
alçado ao comando de uma diretoria financeira que controla
nada menos que 6 bilhões de reais de investimentos por ano.
Para o PT, os companheiros nomeados são a expressão
do que há de mais competente e idôneo no país.
É argumento parecido com o do prefeito do interior que nomeia
a mulher para cuidar das finanças municipais, sob a alegação
de que a pessoa mais confiável que conhece é aquela
com quem divide o leito. O ex-senador do PT José Eduardo
Dutra, presidente da Petrobras, pode ser um dirigente de alta competência.
Mas provavelmente não estaria no cargo se não fosse
petista ou ligado ao partido. No governo Fernando Henrique Cardoso,
que teve seu grau de fisiologismo também, a Petrobras foi
dirigida por um engenheiro, Joel Rennó, e por dois banqueiros,
Francisco Gros e Henri Philippe Reichstul. Nenhum deles era tucano.
Gros dirigiu o Banco Central no governo Collor e depois foi trabalhar
num banco americano. Reichstul deixou a Petrobras e foi dirigir
as Organizações Globo. Nenhum deles se candidatou
jamais a posto eletivo nem procurou funções partidárias
depois do fim do governo FHC.
A coisa chegou a tal ponto que o senador Eduardo Suplicy, do PT
paulista, fazendo coro aos radicais do partido, criticou a postura
do governo e censurou as nomeações desenfreadas. O
senador Arthur Virgílio, líder do PSDB no Senado,
aproveitou a onda e recolheu assinaturas para instalar a "CPI das
Nomeações". A discussão em torno da ocupação
política dos cargos por parte do governo Lula é conduzida
de forma hipócrita de parte a parte. A oposição
está sendo hipócrita porque, ao atacar o clientelismo,
critica o que sempre fez. E o PT está sendo hipócrita
porque, ao defender o clientelismo, faz o que sempre criticou. O
debate deveria ser travado noutro patamar. Oposição
e governo deveriam estar lutando para desenvolver métodos
capazes de preservar o Estado das disputas político-partidárias
e dotá-lo de uma burocracia forte, bem treinada e imune às
ventanias eleitorais. Mas o filósofo italiano Giordano Bruno
já alertou sobre a impropriedade desse pleito. Dizia ele:
"Que ingenuidade, pedir aos que têm poder para que mudem o
poder!".
| O
futuro do trio |
| Depois
de oito meses de governo, o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva já traçou um raio X de seu
ministério e formou convicções a
respeito da equipe. Na reforma ministerial esperada para
as próximas semanas, Lula deverá levar em
conta uma análise que dividiu recentemente com
um interlocutor a respeito de sua assessoria. O presidente
divide o grupo de ministros em três. Há os
inamovíveis, aliados de longa data, que são
José Dirceu, da Casa Civil, Antonio Palocci, da
Fazenda, Luiz Dulci, secretário-geral da Presidência,
e Luiz Gushiken. Há os recém-chegados avaliados
positivamente pelo presidente, como Roberto Rodrigues,
da Agricultura, Luiz Fernando Furlan, do Desenvolvimento,
Indústria e Comércio Exterior, e Ciro Gomes,
da Integração Nacional. E há um time
cujo desempenho deixa a desejar. Nele estão Benedita
da Silva, da Assistência e Promoção
Social, Carlos Lessa, presidente do BNDES, e José
Graziano, do Fome Zero. "A permanência deles no
cargo é incerta", informa um assessor do presidente.
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Com
reportagem de Policarpo Junior e
Malu Gaspar, de Brasília,
Monica Weinberg e Sandra Brasil, de São Paulo,
e Ronaldo França, do Rio de Janeiro
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