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Diogo
Mainardi
O
novo coronelismo
"Ciro
Gomes sabe que quem controla a água
no sertão nordestino também
controla todo o
resto. Nenhuma barragem, cisterna ou obra de
irrigação poderá ser feita no sertão
sem o seu
beneplácito. É o retrato do subdesenvolvimento
nordestino"
O herdeiro
de ACM é Ciro Gomes. Como ACM, Ciro Gomes percebeu que jamais
terá uma dimensão nacional. Tratou de consolidar,
então, sua hegemonia territorial, apossando-se do Ceará.
Antes
de mais nada, Ciro Gomes negociou com Lula uma posição
estratégica dentro do governo. Assumiu o Ministério
da Integração Nacional. Apesar do nome, o ministério
é muito pouco integrado nacionalmente: quase todos os cargos
estão nas mãos de cearenses. Ou melhor, nas mãos
de sobralenses. Como todos os chefes dinásticos nordestinos,
Ciro Gomes prefere cercar-se de gente de sua terra. Em geral, familiares
e subalternos.
O
Ministério da Integração Nacional é
responsável pelo combate à seca. Ciro Gomes sabe que
quem controla a água no sertão nordestino também
controla todo o resto. Colocou um de seus homens, Hypérides
Macedo, na Secretaria da Infra-Estrutura Hídrica. O Departamento
Nacional de Obras contra as Secas foi tomado pelo "clã de
Sobral", segundo o presidente do sindicato dos funcionários.
E a diretora financeira da Companhia de Desenvolvimento do Vale
do São Francisco é sua antiga colaboradora. Ou seja,
nenhuma barragem, cisterna ou obra de irrigação poderá
ser construída no sertão sem o beneplácito
de Ciro Gomes. É o retrato do subdesenvolvimento nordestino,
do qual nunca iremos nos livrar.
Ciro
Gomes tem um partido só dele, o PPS do Ceará. Para
lá confluíram muitos caciques locais, como o prefeito
de Brejo Santo, Welington Landim, cuja filiação foi
comemorada no ginásio esportivo Welingtão. Ao se filiar
ao PPS, Welington Landim ganhou, de lambuja, uma diretoria da Funasa.
O PPS se prepara para as eleições. O provável
candidato do partido ao governo do Ceará é Cid Gomes,
irmão de Ciro Gomes e atual prefeito de Sobral. Cid Gomes
deverá ser substituído na prefeitura de Sobral por
seu irmão mais novo, Ivo. Para que tudo fique em família.
Dois
dos maiores doadores de dinheiro da campanha presidencial de Ciro
Gomes foram brindados com cargos no Ministério da Integração
Nacional. O primeiro é Márcio Lacerda, dono da Construtel.
O segundo é um representante do BicBanco, de propriedade
da mais ilustre família de coronéis cearenses.
Outros
grandes doadores da campanha de Ciro Gomes foram os grupos Gerdau,
Grendene e Vicunha. Todos eles possuem fábricas no Ceará.
Todos eles receberam recursos da Sudene. Ciro Gomes foi o maior
defensor do retorno da Sudene, apesar da roubalheira que ela sempre
estimulou. A nova Sudene, de acordo com Ciro Gomes, será
blindada contra a corrupção. Difícil acreditar.
Uma coisa, porém, é certa: ela será blindada
contra qualquer um que não seja ligado a Ciro Gomes. Um antigo
assessor do ministro, Antônio Balhmann, ocupou-se de inventariá-la.
E José Zenóbio Vasconcelos, indicado pelo PPS, foi
encarregado de refundá-la. Como se não bastasse, Ciro
Gomes também conseguiu enfiar alguns prepostos no Banco do
Nordeste, que administra boa parte do dinheiro público investido
na região.
Para
quem acha que este artigo trata de política, não trata,
não. É antropologia cultural: o novo coronelismo nordestino.
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