Edição 1819 . 10 de setembro de 2003

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Diogo Mainardi
O novo coronelismo

"Ciro Gomes sabe que quem controla a água
no sertão nordestino
também controla todo o
resto. Nenhuma barragem, cisterna ou obra de
irrigação poderá ser feita no sertão sem o seu
beneplácito.
É o retrato do subdesenvolvimento
nordestino"

O herdeiro de ACM é Ciro Gomes. Como ACM, Ciro Gomes percebeu que jamais terá uma dimensão nacional. Tratou de consolidar, então, sua hegemonia territorial, apossando-se do Ceará.

Antes de mais nada, Ciro Gomes negociou com Lula uma posição estratégica dentro do governo. Assumiu o Ministério da Integração Nacional. Apesar do nome, o ministério é muito pouco integrado nacionalmente: quase todos os cargos estão nas mãos de cearenses. Ou melhor, nas mãos de sobralenses. Como todos os chefes dinásticos nordestinos, Ciro Gomes prefere cercar-se de gente de sua terra. Em geral, familiares e subalternos.

O Ministério da Integração Nacional é responsável pelo combate à seca. Ciro Gomes sabe que quem controla a água no sertão nordestino também controla todo o resto. Colocou um de seus homens, Hypérides Macedo, na Secretaria da Infra-Estrutura Hídrica. O Departamento Nacional de Obras contra as Secas foi tomado pelo "clã de Sobral", segundo o presidente do sindicato dos funcionários. E a diretora financeira da Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco é sua antiga colaboradora. Ou seja, nenhuma barragem, cisterna ou obra de irrigação poderá ser construída no sertão sem o beneplácito de Ciro Gomes. É o retrato do subdesenvolvimento nordestino, do qual nunca iremos nos livrar.

Ciro Gomes tem um partido só dele, o PPS do Ceará. Para lá confluíram muitos caciques locais, como o prefeito de Brejo Santo, Welington Landim, cuja filiação foi comemorada no ginásio esportivo Welingtão. Ao se filiar ao PPS, Welington Landim ganhou, de lambuja, uma diretoria da Funasa. O PPS se prepara para as eleições. O provável candidato do partido ao governo do Ceará é Cid Gomes, irmão de Ciro Gomes e atual prefeito de Sobral. Cid Gomes deverá ser substituído na prefeitura de Sobral por seu irmão mais novo, Ivo. Para que tudo fique em família.

Dois dos maiores doadores de dinheiro da campanha presidencial de Ciro Gomes foram brindados com cargos no Ministério da Integração Nacional. O primeiro é Márcio Lacerda, dono da Construtel. O segundo é um representante do BicBanco, de propriedade da mais ilustre família de coronéis cearenses.

Outros grandes doadores da campanha de Ciro Gomes foram os grupos Gerdau, Grendene e Vicunha. Todos eles possuem fábricas no Ceará. Todos eles receberam recursos da Sudene. Ciro Gomes foi o maior defensor do retorno da Sudene, apesar da roubalheira que ela sempre estimulou. A nova Sudene, de acordo com Ciro Gomes, será blindada contra a corrupção. Difícil acreditar. Uma coisa, porém, é certa: ela será blindada contra qualquer um que não seja ligado a Ciro Gomes. Um antigo assessor do ministro, Antônio Balhmann, ocupou-se de inventariá-la. E José Zenóbio Vasconcelos, indicado pelo PPS, foi encarregado de refundá-la. Como se não bastasse, Ciro Gomes também conseguiu enfiar alguns prepostos no Banco do Nordeste, que administra boa parte do dinheiro público investido na região.

Para quem acha que este artigo trata de política, não trata, não. É antropologia cultural: o novo coronelismo nordestino.

 
 
 
 
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