Edição 1819 . 10 de setembro de 2003

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Entrevista: Carolina Larriera
Uma história de amor

Noiva de Vieira de Mello fala da
vida em Bagdá e do futuro que
planejava com o brasileiro morto
no atentado à missão da ONU


Lucila Soares

Oscar Cabral

"Sérgio havia me perguntado se eu iria para o Iraque, caso ele fosse chamado. Respondi que aonde ele fosse eu iria também"

O ano de 2003 começou bem para o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, 55 anos, e a argentina Carolina Larriera, 30. O casal passou o réveillon em Copacabana, assistiu à posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em Brasília, e emendou com uma temporada em Búzios. Vieira de Mello assumira em setembro de 2002 o Alto Comissariado das Nações Unidas para Direitos Humanos, com sede em Genebra, e estava cheio de planos. Era impossível imaginar a mudança de rota que aconteceria em maio, quando foi nomeado representante da ONU no Iraque. Enquanto aguardavam o divórcio, previsto para outubro, eles usavam aliança na mão direita. Carolina considerava-se mulher de Vieira de Mello e assim era tida por ele e por sua família. Mas escolheu ser apresentada como sua noiva nesta entrevista, a primeira depois do atentado à representação da ONU em Bagdá, que matou Vieira de Mello em 19 de agosto. Na quarta-feira passada ela falou a VEJA por duas horas, na casa de André Simões, sobrinho e afilhado de Vieira de Mello, no Rio de Janeiro.

Veja – Do local onde estava, você teve idéia da gravidade do atentado?
Carolina – Não. Eu estava em meu escritório, que era muito perto do escritório de Sérgio. Na mesma ala, porém do outro lado do corredor. O dele dava para a rua, o meu, para a parte interna do prédio. A distância entre os dois era de 10 metros, no máximo. Estive com ele numa reunião naquela tarde e tinha voltado para minha sala. Meia hora depois, ouvi duas explosões. A primeira fez um barulho muito forte, e depois veio outra, que sacudiu o prédio, quebrou todas as janelas, apagou todas as luzes e fez cair pó por todos os lados. Eu saí da sala e pensei imediatamente nele, embora não soubesse ainda que tinha sido tão grave. Comecei a caminhar pelo corredor me segurando nas paredes, porque achei que muita gente ia sair correndo na escuridão. Mas ninguém corria. De repente, fez-se a luz, e era porque o teto havia desmoronado. O sol apareceu e pude ver o que tinha acontecido. Comecei a procurá-lo, a gritar "Sérgio, Sérgio!". Eu perguntava onde ele estava no momento da explosão e tentava encontrar seu escritório, mas não consegui. O resto você sabe.

Veja – Segundo a mãe de Sérgio Vieira de Mello, ele não queria ir para o Iraque. O que vocês conversaram sobre isso?
Carolina – Nós ríamos quando líamos na imprensa que seu nome poderia ser indicado como representante da ONU em Bagdá. Achávamos que era só especulação. Ele tinha assumido o Alto Comissariado para Direitos Humanos apenas oito meses antes, e havia muitos programas em andamento que queria acompanhar. Mas nunca, em toda a sua carreira, pôde decidir sobre seu destino. Em 1999, Sérgio foi nomeado representante da ONU em Kosovo. Ele recebeu o telefonema de Kofi Annan numa sexta-feira, durante uma recepção da qual era o anfitrião. Desligou, pediu a palavra e disse: "Senhores, a reunião está suspensa, porque tenho de ir para Kosovo". No sábado de manhã estava pronto para embarcar. Ele era assim. No caso do Iraque, é claro que foi um chamado inesperado. Quando a indicação se confirmou, entretanto, ele sabia que precisavam dele lá. Era o chamado da organização.

Veja – Você não ficou com medo?
Carolina – Não pensei no medo. Sérgio havia me perguntado se eu iria para o Iraque, caso ele fosse chamado. Eu respondi que aonde ele fosse eu iria também. Não o deixaria sozinho.

Veja – Mas era uma missão muito perigosa...
Carolina – Quem tem medo se imobiliza. Sérgio trabalhou em muitas missões de risco e tinha plena consciência do perigo, mas isso não o impedia de agir. Ele sabia que a maneira de enfrentar uma situação adversa era tomar medidas concretas. No Iraque, a única forma de reverter o perigo era fazer com que a transição andasse o mais rapidamente possível, com projetos, trazendo todas as partes envolvidas para um diálogo.

Veja – Essas eram medidas para tentar mudar a situação, que só teriam efeito no futuro. Como vocês lidavam com o perigo no dia-a-dia?
Carolina – Logo que chegamos, nos hospedaram no Sheraton Ishtar, um hotel bem bonito e luxuoso. Desde o primeiro momento Sérgio não gostou do local. Era o hotel em frente ao Palestine, onde ficam os jornalistas. Logo na primeira noite sentimos que aquele lugar não refletia a imagem que queríamos dar do nosso trabalho. Passamos pouco tempo ali e fomos para outro hotel, de apenas quatro andares, muito modesto. Lá nos sentíamos mais seguros, até porque era um hotel mais de acordo com a situação geral de uma cidade onde falta água, falta luz. Estávamos, talvez, mais expostos. Mas chamávamos menos atenção. A mensagem que queríamos deixar era que a ONU estava aberta aos iraquianos, que não nos isolávamos num mundo fictício, que estávamos em contato com a realidade. Se tivéssemos muita gente armada, estaríamos enviando uma mensagem errada aos iraquianos. Estávamos protegidos, mas de forma mais sutil. E o Hotel Canal, onde funcionavam os escritórios da representação da ONU, ficava a dez ou quinze minutos de carro do hotel. Sérgio andava com seis guarda-costas e carro blindado. Achávamos que uma ação contra as Nações Unidas seria de cunho intimidatório, como atingir o carro de um funcionário importante, por exemplo. Não esperávamos que o prédio fosse alvo de um atentado.

Veja – Era possível movimentar-se pela cidade?
Carolina – Nós saíamos muito pouco. Não tínhamos propriamente uma vida fora do trabalho. Chegávamos às 8h15 e ficávamos até as 19h30. Às sextas-feiras, íamos ao supermercado. Eu achava curioso ver a quantidade de produtos brasileiros nas prateleiras, principalmente frango e palmito, que sempre comprávamos. Em geral, almoçávamos na ONU e jantávamos no hotel, cujos quartos tinham uma pequena cozinha.

Veja – Quem cozinhava?
Carolina – Normalmente, ele. De tanto trabalhar e viver sozinho em lugares onde não havia quem preparasse comida, Sérgio aprendeu a cozinhar muito bem. Muito melhor que eu. Fazia um bom espaguete, ou sopa, sempre alguma coisa light. Ele estava em ótima forma física e zelava por isso. Corria sempre que podia, inclusive em Bagdá, apesar do calor que chegava perto de 50 graus. Tinha uma disciplina quase militar, que atribuía a um desejo de infância de ser marinheiro. Era tão disciplinado e rigoroso que pouca gente acreditava que ele era brasileiro, a maioria achava que ele era alemão.

Veja – O trabalho em Bagdá era politicamente muito difícil, como o próprio Vieira de Mello relatou em diversas ocasiões, inclusive diante do Conselho de Segurança da ONU. Como isso se refletia no ânimo de vocês?
Carolina – Nós estávamos otimistas, apesar das dificuldades. O trabalho passava por um momento muito positivo. Havia chegado ao país uma missão encarregada de fazer o cronograma das eleições. Sérgio sabia que para levar o processo adiante era preciso mostrar claramente os cronogramas de ação e informar os iraquianos sobre todos os passos, para que eles soubessem que o processo de ocupação era limitado, teria fim. Isso estava começando a dar confiança e esperança à população. Uma das qualidades de Sérgio era a sensibilidade. Ele sempre procurava colocar-se no lugar de seus interlocutores, para assim compreender suas dúvidas e preocupações. Entendia que os iraquianos tentaram por muito tempo se livrar de Saddam Hussein, mas não conseguiram fazer isso sozinhos. Os americanos tiraram Saddam do poder, e isso fez a população se sentir humilhada, não só por ter precisado de ajuda externa como por ser tutelada por uma força de coalizão estrangeira. Sérgio sempre me dizia: "Imagine como deve ser viver numa cidade ocupada por gente que não entende sua cultura, seus costumes. Deve ser muito humilhante, e é por isso que os iraquianos têm tanto receio e tanta resistência a aceitar e a colaborar".

Veja – Quando você foi trabalhar na ONU, tinha alguma idéia do que a esperava?
Carolina – Não. Fui para Nova York em 1991, com 18 anos, para estudar economia. Quando comecei a trabalhar em Wall Street percebi que meu temperamento não era para ficar num mundo tão sem alma quanto o das finanças, onde o ideal é só ganhar dinheiro e competir. Foi então que procurei a ONU para me oferecer como voluntária. Como tinha de me sustentar, continuei trabalhando numa empresa financeira até 1997, quando me formei e fui contratada pelas Nações Unidas. Dois anos depois, surgiu a oportunidade de trabalhar no Timor Leste, e só então me dei conta do que era o trabalho da ONU. É ali no campo, trabalhando com as pessoas que precisam de assistência humanitária, que a vida faz sentido, que se escuta o chamado da vocação. Eu trabalhava num projeto do Banco Mundial que dava empréstimos a pequenos empresários que haviam perdido tudo quando os indonésios arrasaram o país e puseram fogo no que sobrou. Cada vez que liberávamos um empréstimo, víamos o efeito sobre uma família, que tinha de contratar empregados e acabava ajudando outras famílias. E eu via isso acontecer. Não era uma tese acadêmica, era real. Não era um relatório, não eram conceitos, era vida. Isso faz a gente se apaixonar.

Veja – Foi no Timor Leste que vocês se conheceram. O que mais lhe chamou atenção nele?
Carolina – A simplicidade. Sérgio sabia como se relacionar com pessoas de todos os níveis, desde as mais importantes, chefes de Estado, até as mais humildes, como as que trabalhavam em seu escritório. Quando estava terminando sua missão no Timor, foi homenageado em muitas recepções e jantares, e às vezes ficava cansado. Mas empenhou-se em fazer uma cerimônia de despedida para todos os timorenses que haviam prestado serviços a ele. A pessoa que mais chorou na partida de Sérgio foi seu motorista. Ele não era vaidoso. Na independência do Timor, participou da cerimônia de entrega das chaves e assistiu a todo o resto sentado na segunda fila da platéia. Estava feliz, e já se considerava figura do passado. Ele disse a Kofi Annan: "Sou apenas seu representante. A festa é sua". Depois me disse: "Quero aproveitar o que não vamos mais poder fazer quando sairmos daqui". E fomos correr. Eram 5 da tarde, e enveredamos pelo caminho que levava à estátua do Cristo que há em Díli, capital do Timor, correndo pela primeira vez sem guarda-costas.

Veja – Como vocês começaram a namorar?
Carolina – Foi devagarinho. Começamos a nos conhecer, e levou um tempo até a relação se consolidar. Eu tinha muito medo dele, e acho que ele também tinha muito medo de mim. Por isso, não tivemos pressa. Começamos a nos conhecer, a falar, tínhamos muitas coisas em comum, que não eram visíveis de imediato. Vínhamos da mesma parte do mundo, tínhamos em comum a América do Sul. Por mais que ele, muito mais que eu, tivesse descoberto o mundo, sempre resta uma identidade. Havia outras pequenas coincidências. Nossos pais morreram no mesmo ano e nós começamos a trabalhar e nos tornamos independentes muito jovens, com 18 anos.

Veja – Vocês tinham planos de se casar?
Carolina – Nós já vivíamos como marido e mulher. Mas tínhamos, sim, planos de nos casar oficialmente e de ter uma filha. Ele já se separara da esposa e o divórcio ia sair em outubro.

Veja – Era um momento de profunda mudança de vida.
Carolina – Sim, estávamos muito felizes. Havíamos construído uma linda relação e descoberto muitas coisas juntos. Ele levou uma vida difícil, sem raízes e, muitas vezes, sem conforto. E começava a pensar que já mostrara seu compromisso com seus ideais, que talvez pudesse cuidar um pouco mais da vida dele, aproveitar coisas que não desfrutara. Sua aposentadoria estava próxima, e talvez tivesse chegado o tempo de pensar em si mesmo. Ele queria voltar às raízes, ficar mais no Brasil, com a família, a mãe, estar em contato com os amigos, acabar com aquela vida de nômade, compensar tantos anos sem tirar férias, sem descansar, sem poder aproveitar uma vida normal. Nós sonhávamos com coisas simples. Uma família, a praia em Búzios, nadar, correr. Nada mais que isso.

Veja – Ele não queria ser secretário-geral da ONU?
Carolina – Sérgio nunca se sentiu bem em escritórios. Não gostava de Genebra nem de Nova York. Durante a vida inteira preferiu estar em campo, em ação. Agora estava perto de se aposentar e queríamos começar uma vida nova. Mas surgiu o Iraque. Ia ser só por quatro meses, até o fim de setembro. Faltavam seis semanas.

Veja – Por que você não veio ao Brasil para o velório?
Carolina – Eu não quis. Não faria meu gênero, nem o de Sérgio. Tive meu momento com ele no necrotério em Bagdá. Lá pude me despedir.

Veja – Como tem sido sua vida desde o atentado?
Carolina – Tenho procurado viver dia por dia. Vi muitas coisas que ainda não posso acreditar que aconteceram. Vim para perto das coisas que Sérgio amava, da família dele. Depois vou a Buenos Aires para ficar um pouco com minha família.

Veja – O que você espera do futuro?
Carolina – Não sei. Sérgio e eu tínhamos muitos projetos juntos, muitos. Toda a minha vida estava planejada com ele. Agora, preciso pensar.

 
 
 
 
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