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Em
foco: Sérgio Abranches
Emenda tributária
"O
governo subordinou a discussão
de um tema complexo,
delicado e de
alto risco a mudança do regime
de impostos às urgências de caixa"
A aprovação da reforma tributária em primeiro
turno na Câmara dos Deputados começou em pura confusão.
O governo entrou em obstrução, porque precisava de
mais tempo para viabilizar a votação, negociando com
governadores, prefeitos e deputados. Chegou a pedir verificação
de seu próprio voto. O pedido de verificação
é um mecanismo usualmente utilizado pela oposição
para contestar votações simbólicas, em situações
em que não há número regimental para uma sessão
de deliberação. É, também, utilizado,
de forma menos elegante, como mecanismo procrastinatório,
quando há número e a certeza de que a votação
nominal confirmará a simbólica.
A confusão foi de inteira responsabilidade do governo. Ele
articula de forma voluntarista e triunfalista demais, para depois
ter de recuar e reconhecer as outras partes no processo decisório.
Cometeu dois erros políticos que lhe custaram mais tempo
e esforço, para obter menos que o desejado. O primeiro erro
foi incluir numa reforma do regime constitucional de tributação
instrumentos que atendem a necessidades correntes: a CPMF (contribuição
provisória sobre movimentação financeira) e
a DRU (desvinculação de receitas da União).
O imposto sobre o cheque (CPMF), numa reforma para valer, desapareceria.
O governo chegou a querer perenizá-lo. Nisso, teve de ceder,
mas vai levar vantagem sobre o governo FHC, prorrogando a CPMF por
todo o mandato do presidente Luiz Inácio, livrando-o da necessidade
de uma queda-de-braço por ano com o Congresso. A DRU, que
desvincula 20% dos recursos da União dos gastos determinados
pela Constituição, nada tem a ver com reforma tributária.
É um expediente que decorre da ausência de uma reforma
fiscal, para eliminar a rigidez orçamentária advinda
da prefixação constitucional dos gastos públicos.
Ela impede os governos de fazer política fiscal.
Ilustração Ale Setti
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O segundo erro foi não entender que reforma fiscal é
uma questão federativa. Ao contrário do que tem afirmado
o ministro José Dirceu, que a reforma proposta não
era para "repactuar a federação", mudança tributária
é sempre uma alteração do contrato federativo.
O governo subestimou a influência dos governadores para além
das bancadas de seus partidos. Teve de improvisar uma emenda da
emenda da emenda, que ficou pronta à meia-noite e só
foi votada às 2h55 da madrugada. O regimento foi atropelado
várias vezes. Mas isso é costume parlamentar. O presidente
da Câmara, João Paulo Cunha, defendeu suas atitudes
dizendo que não desrespeitava o regimento e seguia a praxe
parlamentar. Verdade verdadeira: seguiu a praxe parlamentar de ultrapassar
a letra do regimento para conveniência da maioria. Na história
parlamentar do Brasil, o regimento sempre foi superado pelo entendimento
majoritário. No final, a reforma só foi votada porque
virou um acordo de repartição de receitas entre União,
Estados e municípios.
O maior risco é que a emenda seja mantida no Senado, porque
ela ficou com desenho só político, sob a ótica
do financiamento do gasto público, sem o necessário
apuro técnico. Um improviso desses pode produzir resultados
não antecipados muito lesivos à saúde econômica
do país. Tributação não é matéria
simples nem deveria ser pensada como se fizesse parte do fluxo de
caixa. O Brasil ficará na dependência da visão
que tenham os senadores de matéria tão grave. Podem
interromper a sucessão de improvisações, separar
o que é preocupação fiscal do justo e necessário
objetivo de corrigir nosso regime tributário de forma profunda
e integral, reconhecendo que ele é parte dos entraves institucionais
ao crescimento econômico e à redistribuição
de renda. O que a oposição acusa de hipocrisia, o
desejo de aprovar, acima de tudo, a CPMF e a DRU, pode ser, na verdade,
a melhor solução para o país. O governo subordinou
a discussão de um tema complexo, delicado e de alto risco
a mudança do regime de impostos às urgências
de caixa e à necessidade de manter o superávit primário,
relacionado à aprovação da CPMF e da DRU. Seria
sensato, se o Senado restabelecesse termos mais apropriados para
o exame da reforma tributária, separando a matéria
urgente de conjuntura daquela que é de estrutura e de longo
prazo. Mais: abrir espaço e tempo para avaliações
que permitam adequar o acordo no plano federativo a critérios
técnicos que reduzam a insegurança tributária
e, sobretudo, o risco de uma escalada na tributação,
com efeitos lesivos à economia. A penúria fiscal é
péssima conselheira em mudanças no regime de receitas,
e o que pode parecer uma boa solução hoje, da perspectiva
do Tesouro, pode se transformar em mais obstáculos à
sustentabilidade do crescimento e à saúde fiscal do
país, em todos os níveis.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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