Edição 1819 . 10 de setembro de 2003

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Carta ao leitor
Entre o passado e o futuro

Quando perguntaram a Charles de Gaulle, que por dez anos exerceu o poder na França, se era difícil governar o país de Joana D'Arc, Talleyrand e Voltaire, o general respondeu que não, mas acrescentou: "Difícil é governar um país com 246 tipos de queijo". Nos anos 30, vários degraus de cinismo acima, o fascista italiano Benito Mussolini disse a frase famosa sobre a governabilidade de seu país: "Governar a Itália não é difícil, é inútil". De Gaulle e Mussolini são duas personalidades incomparáveis por qualquer critério pelo qual se queira medi–los, mas ambos vocalizaram de maneira diferente o mesmo fenômeno: a tentação dos governos centrais de supervisionar, controlar e estabelecer regras de funcionamento para cada detalhe da vida nacional. A França de De Gaulle tinha uma burocracia infernal para chancelar a procedência de cada tipo de queijo. A Itália de Mussolini criou um órgão central para cada questão que se desejava resolver. Durante algum tempo, teve dois ministros do Trabalho, um para cada facção do partido no poder. O governo de Luiz Inácio Lula da Silva tem 32 ministérios e o mesmo gosto pelo centralismo, que foi a tônica de governos autoritários, de esquerda e de direita, nos piores momentos do século passado.

O governo de Lula não é autoritário, mas seu desenho favorece um tipo de administração que obedece mais à lógica de funcionamento de um partido político do que à da gestão de um país. O time de Lula levou para o governo a fórmula de governança centralista que funcionou bem no PT. Até aí, nada de novo. O sociólogo Fernando Henrique Cardoso foi muito criticado por ter um governo acadêmico, muito reflexivo e de ações lentas. Os militares governaram o país valendo–se principalmente da disciplina dos quartéis. O que causa espanto no caso do governo do PT é o fato de o centralismo – e seu braço operacional, o fisiologismo que reserva nove de cada dez altos cargos da administração federal a petistas – ser vendido à opinião pública como um avanço. Não é. É um arcaísmo. Ele contrasta fortemente com o fato de o próprio governo Lula ter na área econômica uma visão sincronizada com o que há de mais funcional e transparente no mundo. Para fugir da armadilha do passado basta seguir essa visão. É nela que está o futuro.

 
 
 
 
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