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Carta
ao leitor
Entre
o passado e o futuro
Quando
perguntaram a Charles de Gaulle, que por dez anos exerceu o poder
na França, se era difícil governar o país de
Joana D'Arc, Talleyrand e Voltaire, o general respondeu que não,
mas acrescentou: "Difícil é governar um país
com 246 tipos de queijo". Nos anos 30, vários degraus de
cinismo acima, o fascista italiano Benito Mussolini disse a frase
famosa sobre a governabilidade de seu país: "Governar a Itália
não é difícil, é inútil". De
Gaulle e Mussolini são duas personalidades incomparáveis
por qualquer critério pelo qual se queira medilos,
mas ambos vocalizaram de maneira diferente o mesmo fenômeno:
a tentação dos governos centrais de supervisionar,
controlar e estabelecer regras de funcionamento para cada detalhe
da vida nacional. A França de De Gaulle tinha uma burocracia
infernal para chancelar a procedência de cada tipo de queijo.
A Itália de Mussolini criou um órgão central
para cada questão que se desejava resolver. Durante algum
tempo, teve dois ministros do Trabalho, um para cada facção
do partido no poder. O governo de Luiz Inácio Lula da Silva
tem 32 ministérios e o mesmo gosto pelo centralismo, que
foi a tônica de governos autoritários, de esquerda
e de direita, nos piores momentos do século passado.
O
governo de Lula não é autoritário, mas seu
desenho favorece um tipo de administração que obedece
mais à lógica de funcionamento de um partido político
do que à da gestão de um país. O time de Lula
levou para o governo a fórmula de governança centralista
que funcionou bem no PT. Até aí, nada de novo. O sociólogo
Fernando Henrique Cardoso foi muito criticado por ter um governo
acadêmico, muito reflexivo e de ações lentas.
Os militares governaram o país valendose principalmente
da disciplina dos quartéis. O que causa espanto no caso do
governo do PT é o fato de o centralismo e seu
braço operacional, o fisiologismo que reserva nove de cada
dez altos cargos da administração federal a petistas
ser vendido à opinião pública
como um avanço. Não é. É um arcaísmo.
Ele contrasta fortemente com o fato de o próprio governo
Lula ter na área econômica uma visão sincronizada
com o que há de mais funcional e transparente no mundo. Para
fugir da armadilha do passado basta seguir essa visão. É
nela que está o futuro.
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