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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo Sapos,
desculpas e proxenetas
Do
"vão ter que me
engolir" à cafetina Jane: fecundos
capítulos da novela do mensalão
Em Zagallo já era feio. O então técnico
da seleção tinha o rosto transtornado de fúria, a voz cheia
de rancor, e encarava a câmera de TV com ganas de pit bull ferido, quando
despejou sua famosa frase: "VOCES VÃO TER QUE ME ENGOLIR!". No presidente
da República, fica muito pior. O "eles vão ter que me engolir" destinado
pelo presidente Lula aos adversários na semana passada inscreve-se na galeria
das grandes grosserias já disparadas pelos presidentes do Brasil. Lembra
o "Me esqueçam" do general João Figueiredo quando, em sua última
entrevista como presidente, o jornalista Alexandre Garcia lhe perguntou que palavras
gostaria de endereçar naquele momento ao povo brasileiro. Com a ameaça
de adentrar goela abaixo de uma parcela de brasileiros, o "Lulinha paz e amor"
dava abrupta marcha a ré em direção aos tempos espinhudos
do sapo barbudo. O presidente Lula tem andado exaltado
em seus pronunciamentos. Um dia diz que "ninguém tem mais moral e ética"
do que ele, no outro que a "elite brasileira" não vai fazê-lo baixar
a cabeça. Por duas vezes, bateu na tecla de que, se se deve investigar
até o fim as denúncias que sacodem o país e punir os culpados,
deve-se, também, absolver os inocentes e pedir-lhes desculpas. "Que pelo
menos a imprensa brasileira divulgue e peça desculpas àqueles que
foram acusados injustamente", disse, no mesmo discurso do "vão ter que
me engolir". É nessa hora que eleva o tom de voz e embica num fraseado
compassado, sinal para a claque dos comícios de que é hora de aplaudir.
Fica a impressão de que a pregação que veio antes, de punição
aos culpados, foi, além de obrigatório tributo à obviedade,
mero contraponto ao apelo à absolvição, o ponto que realmente
interessa ao presidente. "Vamos inocentar!", isso, na verdade, é o que
ele mais está querendo dizer. •
• • Rica e criativa é a coleção
de primeiras desculpas na atual série de escândalos aquelas
explicações que primeiro vêm à cabeça dos implicados,
quando apanhados fazendo o que não se deve. A primeira justificativa do
insuperável Marcos Valério para suas retiradas em dinheiro vivo
é que era para comprar vacas. Quando surgiu o nome da assessora do deputado
Paulo Rocha, então líder do PT na Câmara, entre os que freqüentavam
o Banco Rural, ele disse que ela costumava ir a um médico no mesmo prédio.
O deputado João Paulo, ex-presidente da Câmara, foi mais pitoresco.
Disse que sua mulher foi ao Banco Rural para pagar uma mensalidade de TV a cabo.
Revelou-se depois que a senhora João Paulo retirara 50.000 reais da dadivosa
conta dos favorecidos do petismo. As TVs a cabo ainda não cobram tanto.
Na semana passada, Marcos Valério explicou
que o tesoureiro do PTB, Emerson Palmieri, viajou com ele para Portugal "como
amigo". Ele estava "estressado" e queria relaxar. A viagem foi realizada entre
os dias 24 e 26 de janeiro deste ano. Três dias apenas, dos quais é
preciso descontar as cerca de dez horas de ida e dez de volta no avião.
Claro que a dupla viajou de primeira classe, mas, mesmo assim, vinte horas de
avião são vinte horas de avião um período de
confinamento num ambiente pequeno e fechado, com sacrifício para as pernas
e ronco permanente de motores nos ouvidos. O que sobrou de tempo certamente não
foi suficiente para um passeio vagabundo pelo charmoso centro de Lisboa, ou para
apreciar o pôr-do-sol à beira do Tejo, muito menos para uma escapada
até as delícias serranas da vizinha Sintra. Pobre amigo Palmieri.
Só pode ter voltado com os nervos à flor da pele.
• • • "Nossa!", reagiu alguém.
Momento mais assustador do confronto de terça-feira foi quando o deputado
Roberto Jefferson disse ao ex-ministro José Dirceu: "Vossa excelência
provoca em mim os instintos mais primitivos". Que instintos seriam esses? O de
bater, esganar? São os que ocorrem mais fácil. O de matar, talvez?
Nossa! Mas há outros instintos primitivos. O de cheirar o outro, por exemplo,
como os cães. O de morder. Ou... deve-se dizer?... vá lá:
o instinto sexual. Não, afastemos esse pensamento espúrio, essa
idéia grotesca de um entrevero sensual entre os dois titãs da novela
do mensalão... Mesmo porque a temporada
já está por demais carregada dos selvagens e insidiosos eflúvios
do sexo. Primeiro foi a secretária Fernanda Karina ameaçando tirar
a roupa e os mais maldosos enfatizariam nesse caso o sentido amedrontador
do verbo "ameaçar". Depois, durante o interrogatório de Simone Vasconcelos,
a diretora financeira das empresas de Marcos Valério, surgiu em cena a
cafetina Jane Mary Corner, também conhecida como Jane Maria Esquina. "A
senhora conhece uma cafetina de Brasília chamada Jane?", perguntou o senador
Demostenes Torres. A depoente negou, indignada. É sempre assim. Pela lógica
da atual conjuntura, à negação do primeiro momento segue-se
invariavelmente a confirmação no dia seguinte. Naquele momento,
o país assistia à aparição gloriosa da proxeneta do
mensalão. |