Edição 1917 . 10 de agosto de 2005

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Sapos, desculpas
e proxenetas

Do "vão ter que me engolir" à cafetina Jane:
fecundos capítulos da novela do mensalão

Em Zagallo já era feio. O então técnico da seleção tinha o rosto transtornado de fúria, a voz cheia de rancor, e encarava a câmera de TV com ganas de pit bull ferido, quando despejou sua famosa frase: "VOCES VÃO TER QUE ME ENGOLIR!". No presidente da República, fica muito pior. O "eles vão ter que me engolir" destinado pelo presidente Lula aos adversários na semana passada inscreve-se na galeria das grandes grosserias já disparadas pelos presidentes do Brasil. Lembra o "Me esqueçam" do general João Figueiredo quando, em sua última entrevista como presidente, o jornalista Alexandre Garcia lhe perguntou que palavras gostaria de endereçar naquele momento ao povo brasileiro. Com a ameaça de adentrar goela abaixo de uma parcela de brasileiros, o "Lulinha paz e amor" dava abrupta marcha a ré em direção aos tempos espinhudos do sapo barbudo.

O presidente Lula tem andado exaltado em seus pronunciamentos. Um dia diz que "ninguém tem mais moral e ética" do que ele, no outro que a "elite brasileira" não vai fazê-lo baixar a cabeça. Por duas vezes, bateu na tecla de que, se se deve investigar até o fim as denúncias que sacodem o país e punir os culpados, deve-se, também, absolver os inocentes e pedir-lhes desculpas. "Que pelo menos a imprensa brasileira divulgue e peça desculpas àqueles que foram acusados injustamente", disse, no mesmo discurso do "vão ter que me engolir". É nessa hora que eleva o tom de voz e embica num fraseado compassado, sinal para a claque dos comícios de que é hora de aplaudir. Fica a impressão de que a pregação que veio antes, de punição aos culpados, foi, além de obrigatório tributo à obviedade, mero contraponto ao apelo à absolvição, o ponto que realmente interessa ao presidente. "Vamos inocentar!", isso, na verdade, é o que ele mais está querendo dizer.

• • •

Rica e criativa é a coleção de primeiras desculpas na atual série de escândalos – aquelas explicações que primeiro vêm à cabeça dos implicados, quando apanhados fazendo o que não se deve. A primeira justificativa do insuperável Marcos Valério para suas retiradas em dinheiro vivo é que era para comprar vacas. Quando surgiu o nome da assessora do deputado Paulo Rocha, então líder do PT na Câmara, entre os que freqüentavam o Banco Rural, ele disse que ela costumava ir a um médico no mesmo prédio. O deputado João Paulo, ex-presidente da Câmara, foi mais pitoresco. Disse que sua mulher foi ao Banco Rural para pagar uma mensalidade de TV a cabo. Revelou-se depois que a senhora João Paulo retirara 50.000 reais da dadivosa conta dos favorecidos do petismo. As TVs a cabo ainda não cobram tanto.

Na semana passada, Marcos Valério explicou que o tesoureiro do PTB, Emerson Palmieri, viajou com ele para Portugal "como amigo". Ele estava "estressado" e queria relaxar. A viagem foi realizada entre os dias 24 e 26 de janeiro deste ano. Três dias apenas, dos quais é preciso descontar as cerca de dez horas de ida e dez de volta no avião. Claro que a dupla viajou de primeira classe, mas, mesmo assim, vinte horas de avião são vinte horas de avião – um período de confinamento num ambiente pequeno e fechado, com sacrifício para as pernas e ronco permanente de motores nos ouvidos. O que sobrou de tempo certamente não foi suficiente para um passeio vagabundo pelo charmoso centro de Lisboa, ou para apreciar o pôr-do-sol à beira do Tejo, muito menos para uma escapada até as delícias serranas da vizinha Sintra. Pobre amigo Palmieri. Só pode ter voltado com os nervos à flor da pele.

• • •

"Nossa!", reagiu alguém. Momento mais assustador do confronto de terça-feira foi quando o deputado Roberto Jefferson disse ao ex-ministro José Dirceu: "Vossa excelência provoca em mim os instintos mais primitivos". Que instintos seriam esses? O de bater, esganar? São os que ocorrem mais fácil. O de matar, talvez? Nossa! Mas há outros instintos primitivos. O de cheirar o outro, por exemplo, como os cães. O de morder. Ou... deve-se dizer?... vá lá: o instinto sexual. Não, afastemos esse pensamento espúrio, essa idéia grotesca de um entrevero sensual entre os dois titãs da novela do mensalão...

Mesmo porque a temporada já está por demais carregada dos selvagens e insidiosos eflúvios do sexo. Primeiro foi a secretária Fernanda Karina ameaçando tirar a roupa – e os mais maldosos enfatizariam nesse caso o sentido amedrontador do verbo "ameaçar". Depois, durante o interrogatório de Simone Vasconcelos, a diretora financeira das empresas de Marcos Valério, surgiu em cena a cafetina Jane Mary Corner, também conhecida como Jane Maria Esquina. "A senhora conhece uma cafetina de Brasília chamada Jane?", perguntou o senador Demostenes Torres. A depoente negou, indignada. É sempre assim. Pela lógica da atual conjuntura, à negação do primeiro momento segue-se invariavelmente a confirmação no dia seguinte. Naquele momento, o país assistia à aparição gloriosa da proxeneta do mensalão.

 
 
 
 
topovoltar