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Saúde Lágrimas
de infelicidade Crescem os relatos e
alertas sobre a depressão pós-parto, quando a mãe
chora mais que seu bebê  Bel
Moherdaui Roberto
Setton
 | "Eu
simplesmente não conseguia sentir aquela alegria de estar com meu filho
no colo. Sentia um aperto no peito, uma vontade de chorar, de sumir. Tive isso
nos três filhos." Andrea
Abdala, 39 anos, médica |
Desejar
muito ser mãe, preparar-se para a alegria do nascimento do bebê e,
depois, sofrer miseravelmente com isso. Sentimentos tão conflitantes assim
não são nada excepcionais. "No terceiro ou quarto dia depois que
meu primeiro filho nasceu, comecei a sentir uma tristeza muito forte. Eu sabia
que ele era lindo, perfeito, mas só de vê-lo dormindo já me
dava um choro compulsivo", lembra a médica Andrea Abdala, de Mogi das Cruzes,
em São Paulo, que teve sensações parecidas no nascimento
dos outros dois filhos. Assim como ela, quase 85% das mulheres têm algum
nível de depressão ou melancolia no período seguinte ao parto.
Na maioria dos casos, o problema se manifesta de forma branda, logo nos primeiros
dias do nascimento do bebê, e dura em média duas semanas é
a chamada disforia, ou baby blues, que atinge 70% das mães. Nas
demais mulheres afetadas, o diagnóstico é mais grave: de 10% a 15%
sofrem de depressão pós-parto (veja quadro)
e menos de 1% desenvolve a chamada psicose puerperal, quando a mulher tem alucinações
e pode chegar ao extremo de matar o próprio filho. Enfrentar
a enorme complexidade da relação de uma mãe com o filho recém-nascido
é compreensivelmente difícil. Por muito tempo, a questão
foi arquivada no escaninho dos temas que pouca gente se dispõe a encarar.
"Antes existia resistência até entre os médicos para falar
no assunto. Há dois anos conseguimos incluí-lo no nosso curso de
gestantes e o temos discutido cada vez mais no consultório", diz o ginecologista
Wladimir Taborda, coordenador da maternidade do Hospital Albert Einstein. A atriz
Brooke Shields acaba de lançar nos Estados Unidos o livro Down Came
the Rain My Journey Through Postpartum Depression (sem previsão
de lançamento no Brasil), em que narra a dor que viveu logo após
o nascimento da filha Rowan, em 2003. "Eu não estava apenas sensível
ou chorosa, como tinham dito que eu ficaria. Era uma coisa bem diferente", conta
a atriz. "Uma tristeza de magnitude surpreendente." Na lista de famosas que revelaram
ter passado por isso estão ainda Courtney Cox (a Monica de Friends),
a estilista inglesa Sadie Frost (que culpou a infidelidade crônica de seu
marido na época, o belo Jude Law, pelo agravamento do problema) e a brasileira
Luiza Tomé. Selmy
Yassuda
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"Eu chorava e não
sabia por quê. As pessoas elogiavam o bebê e eu me sentia culpada
por não estar achando nada daquilo."
Maria das Neves, 46
anos, empresária |
"O parto
é muito agressivo para a mulher. Ao longo de nove meses, ela perde cintura,
ganha celulite, varizes. De repente, é esvaziada e ainda tem de virar adulta
e ser a provedora da criança", enumera Rosana Simões, professora
de ginecologia e obstetrícia da Universidade Federal de São Paulo.
Nesse período precisa, ao mesmo tempo, se adaptar à nova condição
de mãe, se recuperar do parto e encarar uma revolução hormonal.
"Algumas mulheres são mais suscetíveis às oscilações
dos níveis hormonais, mas não se pode dizer que elas sejam a causa
da depressão pós-parto. Em geral, há uma interação
de causas que desencadeiam os sintomas", explica o psiquiatra Joel Rennó
Júnior, coordenador do Projeto de Atenção à Saúde
Mental da Mulher do Hospital das Clínicas de São Paulo. Entre elas,
histórico psiquiátrico pessoal ou familiar, fatores estressantes
de ordem socioeconômica (desemprego, por exemplo), relacionamento conjugal
precário, relações complicadas com a própria mãe,
gravidez anterior interrompida, grande insegurança ou ansiedade e baixa
auto-estima. O intenso desejo de ser mãe
pode, contraditoriamente, agravar o quadro. Brooke, Courtney e Luiza passaram
anos tentando engravidar e só o conseguiram com tratamentos. "Há
uma certa prevalência de depressão associada a gravidez por reprodução
assistida. Como é algo muito desejado, o medo de perder é enorme",
diz Laudelino Lopes, diretor do departamento de obstetrícia da Laranjeiras
Clínica Perinatal, do Rio de Janeiro. No caso da empresária carioca
Maria das Neves, 46 anos, os sintomas começaram antes do nascimento de
Maria Cecilia, há um mês e meio, depois de três tentativas
de fertilização. "Eu tinha vontade de tirar o nenê. Não
participei de nada do enxoval, não vi nenhum detalhe do quarto", relata.
Em situações assim, além da psicoterapia, é necessário
o uso de medicamentos, inclusive antidepressivos, apesar do risco em potencial,
pois são excretados (em quantidades mínimas) no leite materno. "Estudos
recentes mostram que é pior ser uma mãe depressiva do que arriscar
o uso de antidepressivo na amamentação", diz Monica Zilberman, do
Instituto de Psiquiatria da USP. 
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