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Brasil
As cores da crise
As duas tiras nas cores verde e amarelo foram
o símbolo das Diretas Já, da ascensão e depois
da agonia de Collor. Agora elas voltam às ruas.
O que Lula fará delas definirá sua presidência

Alexandre Oltramari
Ricardo Stuckert/PR
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LONGE DE BRASÍLIA
Lula, de chapéu de cangaceiro: oito discursos
em quatro dias e nem um pio sobre o caixa dois |
Se fosse uma ópera Turandot,
de Giacomo Puccini, por exemplo , a crise ética que
paralisa o governo Lula estaria naquele estágio em que os
personagens menores já cantaram e toda a expectativa se concentra
sobre o príncipe-tenor e sua ária definidora do enredo:
"Dilegua, o notte! / Tramontate, stelle! / Tramontate, stelle!
/ All'alba vincerò! Vincerò!" ("Dissolva-se, ó
noite! / Ponham-se, estrelas! / Ponham-se, estrelas! / Ao raiar
do dia vencerei! Vencerei!"). Bem, sendo mais realista, a crise
não tem a dinâmica de uma ópera. Lula a está
conduzindo mais ao ritmo de cerveja e samba de seu ídolo
Zeca Pagodinho: "Confesso que sou de origem pobre / Mas meu coração
é nobre, / foi assim que Deus me fez / E deixa a vida me
levar / Vida leva eu / E deixa a vida me levar".
Se Lula continuar deixando, a vida vai levá-lo
aonde ele não quer ir. E aonde ninguém quer que ele
vá. Mas paciência tem limite, como desabafou um dos
mais comedidos opositores do governo, Tasso Jereissati, senador
do PSDB cearense: "O presidente está abusando da paciência
ao fingir que não sabia de nada e ao adotar esse discurso
de que os fatos são criados por uma oposição
ressentida e pela imprensa. Exigimos que ele assuma sua responsabilidade.
Assuma o papel de chefe. Chega de fingir que não sabe de
nada, presidente! Chega de farsa!" Nos últimos dias, dois
movimentos trouxeram a crise para ainda mais perto do presidente.
Nas ruas voltaram a aparecer bandeiras, pichações
e rostos de jovens pintados com as cores verde e amarelo, aquelas
duas pinceladas paralelas que tanto simbolismo carregam na vida
política nacional recente. Foram em 1984 o emblema do movimento
diretas já, pela volta da eleição direta para
presidente. Seis anos mais tarde, o símbolo foi apropriado
por Fernando Collor em sua vitoriosa campanha presidencial. Em 1992,
as ruas se encheram de estudantes caras-pintadas com o mesmo emblema
bicolor, dessa vez em repúdio a Collor e suas manobras. As
pinceladas verde-amarelas são agora apenas um aviso do grau
de ebulição da crise e da inutilidade de o presidente
tentar uma saída populista para seus problemas. Lula testou
essa hipótese arriscada na semana passada. Falou que o país
será obrigado a engoli-lo de novo e prometeu em palanque
no Nordeste "mudar a economia e baixar juros". Ora, se fosse possível
baixar juros por vontade pessoal e por decreto, ele já teria
feito isso. Todo governante faria logo no primeiro dia de governo.
Lula não acredita em mágicas na economia. É
preocupante, portanto, que diga o contrário em palanque.
Quando começa a falar coisas nas quais não acredita
apenas para agradar à platéia, um político
se diminui. Um presidente some. As pinceladas verde-amarelas nas
ruas são um aviso, mas podem ser também uma via de
mão dupla para Lula. Se ele interpretar corretamente os anseios
das ruas, se salvará como o príncipe Calaf de Turandot.
Caso não leia a mensagem verde-amarela é melhor mesmo
deixar a vida levá-lo aonde ela decidir.
Lucas Lacaz Ruiz/AE
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MARCHA DA INDIGNAÇÃO
Sindicalistas protestam contra Lula no interior de São
Paulo: seu nome aparece com "ll" e as cores da bandeira
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Embora Lula relute, a crise está entranhada
em seu governo. Em momentos assim, o mínimo que se espera
do governante é serenidade. Na semana passada, enquanto a
crise subia a rampa do Planalto, Lula continuava seu giro, iniciado
há vinte dias, pelo interior do Brasil. Foram oito discursos
em apenas quatro dias. Ao defender a produção do biodiesel,
Lula se comparou ao ex-presidente Getúlio Vargas, segundo
ele "achincalhado" pela imprensa quando criou a Petrobras.
Sugeriu que vai tentar a reeleição.
Mas a vida pode estar conduzindo-o para outro lado. Todos os caminhos
do escândalo revelados até o momento levam ao Palácio
do Planalto.
Em depoimento à Câmara na semana
passada, o deputado Roberto Jefferson disse ter participado pessoalmente
de uma reunião em que se discutiu com o ex-ministro José
Dirceu uma estratégia para o PT e o PTB embolsarem 24 milhões
de reais da multinacional Portugal Telecom (veja
reportagem). Onde foi a reunião? No Palácio
do Planalto. Na mesma sessão, Jefferson falou de outro encontro
entre ele, José Dirceu e a cúpula do PTB para tratar
da indicação da diretoria de Furnas. O objetivo do
PTB, segundo Jefferson, era arrecadar 4 milhões de reais
da estatal para o caixa de seu partido. Onde foi a reunião?
Na sala do presidente Lula. As duas acusações foram
desmentidas pelo Palácio do Planalto. Ocorre que existem
outros pontos de convergência. Na lista de sacadores das contas
do publicitário Marcos Valério, que se imaginava servirem
apenas para subornar deputados, apareceu o nome de Marcio Lacerda,
secretário executivo do Ministério da Integração
Nacional, comandado por Ciro Gomes. Lacerda, que consta na lista
como beneficiário de 457.000 reais, pediu demissão.
Para onde foi o dinheiro? Ele contou que foi usado para pagar os
serviços da empresa New Trade, responsável pela redação
das propagandas de Lula no segundo turno da eleição
presidencial.
Na lista de Valério também surgiu,
como a maior beneficiária dos 55 milhões do caixa
dois apurado até agora, a empresária Zilmar Fernandes
da Silveira, sócia do publicitário Duda Mendonça,
responsável pelo marketing da campanha do presidente Lula.
Ela recebeu 15 milhões de reais. E para onde foi esse dinheiro?
Duda Mendonça ainda não respondeu. Há duas
semanas, quando apareceu a primeira transferência, no valor
de 500.000 reais, o publicitário reuniu seus principais colaboradores
no escritório de sua agência, em Brasília, e
disse que ainda iriam aparecer muitos outros repasses a sua agência.
Segundo ele, foi o pagamento pela campanha presidencial de 2002.
"Eu trabalhei e recebi. De onde veio o dinheiro eu não sei.
O problema é que nego é burro. Precisa roubar,
pô? Eu não roubava quando era pobre. Não vai
ser agora que eu sou rico que vou fazer isso", desabafou. Duda disse
aos funcionários que tem notas fiscais atestando o serviço
e que recolheu todos os impostos devidos. "Eu tô limpo. Nego
que se vire para explicar." Resumindo a história: uma parte
da campanha do presidente foi paga com dinheiro repassado por Marcos
Valério, que, é bom lembrar, tem contas de publicidade
em várias empresas do governo.
Ao contrário da versão que os
petistas tentaram montar a de que os recursos repassados
por Marcos Valério eram oriundos de empréstimos que
tinham o objetivo de sustentar as campanhas municipais , as
investigações demonstram que o dinheiro, além
de bancar parte da própria campanha de Lula, era um grande
e multifuncional caixa do PT administrado pelo ex-tesoureiro Delúbio
Soares, um assíduo freqüentador do Palácio do
Planalto. Na lista dos sacadores, apareceu o escritório do
ex-procurador da República Aristides Junqueira, que ficou
conhecido por atuar no processo contra o ex-presidente Fernando
Collor. Os advogados sacaram 545.000 reais, segundo eles, referentes
a pagamento de honorários pela defesa de petistas no caso
de corrupção na prefeitura de Santo André.
À medida que a CPI avança, os caminhos do dinheiro
apontam com mais precisão para o Palácio do Planalto.
"...E deixa a vida me levar / Vida leva eu / E deixa a vida me levar..."
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