Loja
do McDonald's em São Paulo: sanduíches a menos de 1
real são tática da empresa para chamar clientela com
pouco dinheiro no bolso

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Cingapura
tinha, até meados da década de 50, vastas áreas pantanosas
ocupadas por pescadores. A Coréia do Sul, em 1970, possuía
uma renda per capita equivalente à metade da dos brasileiros. E
a Espanha, na década de 70, freqüentava a lista dos países
com renda per capita na faixa dos 1.000 dólares.
As pessoas viviam nesses países em condições semelhantes
às do Brasil, ou piores. O tempo inverteu a realidade. Cingapura
virou uma nação de arranha-céus sofisticados com
renda per capita de quase 25.000 dólares,
mais alta que a do Canadá. A Coréia do Sul ostenta renda
per capita de 8.900 dólares, 2,5 vezes
mais alta que a brasileira. E a da Espanha atingiu o patamar de 15.000
dólares. O Brasil perdeu tempo. Passado o ciclo militar, no qual
o país chegou a experimentar um período de crescimento elevado,
os brasileiros foram apresentados à montanha-russa. Moratórias
e cinco planos econômicos encarregaram-se de propagar a sensação
de que o abismo está sempre rondando por perto. O Plano Real parecia
ser a oportunidade de iniciar a arrancada. Completados oito anos de seu
lançamento, o Brasil venceu a inflação, o que não
é pouco. Mas chega às eleições de 2002 com
uma pauta de discussão que parece velha. Seus pontos principais
são dois: consolidar o processo de estabilização
e fazer o Brasil crescer.
A taxa de
desemprego acaba de atingir 7,7%. Os investimentos estrangeiros diretos,
que já romperam a casa dos 30 bilhões de dólares,
chegarão ao fim do ano, com muita sorte, a 18 bilhões. Por
causa das incertezas associadas ao processo eleitoral, o risco Brasil
ultrapassou o da Nigéria, situando-se na casa dos 1.700
pontos. É o segundo maior do mundo, atrás apenas do da Argentina.
"O Brasil ainda enfrenta questões primárias que já
foram superadas em outros países, como a insegurança sobre
a solidez do Banco Central ou o medo que investidores têm de ver
seus contratos desonrados", diz Octavio de Barros, economista-chefe do
BBV Banco.
Nos últimos
dias, a coleção de indicadores ruins foi encorpada com o
anúncio do Banco Central que rebaixou o cálculo do crescimento
da economia para 2002. A previsão inicial, de 2,5%, que já
era ruim, foi reduzida para 2%. Para um país no estágio
do Brasil, a perspectiva de continuar nesse padrão é assustadora.
Se crescesse a uma taxa média anual de 3% durante 25 anos seguidos,
ainda assim teria seu contingente de pobres reduzido de 34% da população
para 15%. Detalhe: países com renda per capita semelhante à
brasileira têm já hoje, com um quarto de século
de vantagem entre 4% e 19% da população abaixo da
linha da pobreza.
Almeida Rocha/Folha Imagem
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| Pátio
lotado da Volkswagen e loja Blockbuster (abaixo): setor automobilístico
vendeu em 2002 quase 20% menos que em 2001 e a rede de locadoras de
vídeo procura investir em bairros de renda mais elevada |
Egberto Nogueira
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O ciclo de
desconfiança internacional em que o Brasil mergulhou é,
em parte, produto de uma ilusão de ótica. Há medo
de uma vitória de Lula, há especulação e também
o chamado "efeito manada". Essa constatação não remove
a desconfiança. Pior: existem indicações setoriais
da economia de que o país enfrenta um problema real, não
apenas de percepção dos fatos. O setor automobilístico
registrou queda de 17,8% nas vendas quando se compara o primeiro semestre
de 2002 com igual período de 2001. Na semana passada, a Volkswagen
anunciou férias coletivas por uma semana para que o estoque de
carros parados no pátio possa ser comercializado. A empresa foi
uma das muitas companhias que recorreram ao achatamento da jornada de
trabalho. Com a retração das vendas, a Volks viu-se forçada
a encolher a semana de trabalho para quatro dias. O sistema vigorou até
abril e significou redução de quase um quinto da folha de
pagamento. Mesmo assim, estimulou que funcionários saíssem
com o auxílio de um programa de demissões voluntárias.
Setecentos deles aderiram. Agora os empregados vão ficar em casa
e passam a dever à companhia essas horas sem trabalho. Quando a
demanda do mercado aumentar e a Volkswagen de fato precisar de sua mão-de-obra,
poderá usar o crédito.
Na semana
passada, a agência americana de avaliação de risco
Standard & Poor's rebaixou o Brasil na classificação
de risco, sob o argumento de que o país pode não honrar
a dívida interna. Numa manifestação pouco comum nesses
casos, a Standard & Poor's justificou a mexida no ranking. "O PT nunca
esteve no poder. Se chegar lá, levará um tempo para aprender
a governar", disse Helena Hessel, analista de risco da S&P, especializada
em papéis brasileiros. Dias depois, a própria Standard &
Poor's, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Tesouro americano
disseram que a dívida brasileira é administrável
e que, na origem de todo o turbilhão atual, está mesmo a
expectativa política. "Os mercados e os analistas estão
sofrendo de um ataque de histeria diante da possibilidade de vitória
de Lula", resumiu o alemão Horst Koehler, diretor-geral do FMI.
Outros analistas acrescentaram um ingrediente ao diagnóstico: o
ambiente externo desfavorável.
Desde a
revelação de fraude na contabilidade da megaempresa de energia
Enron, em dezembro do ano passado, um clima de desconfiança instalou-se
entre os investidores internacionais. Nos últimos dias, as bolsas
de ambos os lados do Atlântico tentavam em vão digerir outros
escândalos contábeis envolvendo companhias de reputação
brilhante, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. "Se o investidor
enxerga risco numa empresa cuja sede ele conhece e onde tem parentes trabalhando,
imagine seu sentimento em relação ao mercado de um país
distante", diz o brasileiro José Alexandre Scheinkman, professor
de economia da Universidade Princeton, nos Estados Unidos.
Uma das
promessas da globalização era justamente a de que os investidores
ficariam tão familiarizados com os mercados estrangeiros que não
teriam receios extras em despejar neles suas economias. É irônico
que esteja ocorrendo justamente o contrário. O risco nos mercados
centrais do capitalismo está afetando os países emergentes.
Outra das promessas era que as economias nacionais acabariam sendo reguladas
pelas forças globais. Essa se manteve. Um exemplo clássico
é a derrota da inflação. Esse monstro foi domado
em todo o mundo capitalista e hoje ninguém concebe a volta da hiperinflação
num único país. A Argentina, que deve acabar o ano com 60%
de inflação acumulada, não é exceção
à regra, pois essa taxa não pode ser descrita como uma híper.
As estatísticas
mostram que, desde o aprofundamento dos laços entre as economias
em meados da década de 90, seus destinos flutuam ao sabor das mesmas
forças. A variação do PIB brasileiro, por exemplo,
vem seguindo mais ou menos a curva do PIB mundial. Isso vale também
para as exportações brasileiras. Essa interdependência,
como quase todos os fenômenos da globalização, tem
seu lado bom e sua face negativa. De um lado, garante a participação,
ainda que em proporções diferentes, de todos no bolo do
crescimento global. De outro, dificulta que um país como o Brasil
possa iniciar isoladamente um processo de recuperação econômica.
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