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1 759 - 10 de julho de 2002 |
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Ciro alcança
José Serra
O ex-governador
sobe em pesquisa
do Vox Populi, empata com Serra
e acirra uma disputa que parecia
definir-se entre PT e PSDB
Ronaldo França
e Maurício Lima

Veja também |
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A campanha
presidencial, que começa oficialmente nesta semana, vinha morna.
A polarização entre Luís Inácio Lula da Silva
e José Serra parecia sacramentada. A três meses da eleição,
coube ao candidato da Frente Trabalhista, Ciro Gomes, avançar nas
intenções de voto e bagunçar a previsibilidade do
jogo eleitoral. Uma pesquisa do Instituto Vox Populi, feita na semana
passada, pôs Ciro 1 ponto porcentual à frente de José
Serra, com 18% das intenções de voto. No jargão dos
institutos de pesquisa, trata-se de um empate técnico. A diferença
entre os dois está dentro da margem de erro da pesquisa, que é
de 2,2%. Na prática, significa que ninguém mais pode afirmar
quem está em segundo lugar na disputa. Para os que já enxergavam
Lula e Serra com passagem carimbada para o segundo turno, é uma
mexida e tanto.
O tamanho
dessa mudança fica claro quando são analisados os votos
espontâneos, aqueles em que o eleitor cita o candidato sem uma lista
a orientá-lo. Nessa modalidade, Ciro aparece com 12% das intenções
de voto, 3 pontos à frente de Serra. Suas chances podem ser medidas
também pelo desempenho nas simulações de segundo
turno. O Vox Populi perguntou aos eleitores em quem votariam, caso as
eleições fossem hoje, e apresentou cenários em que
Lula se confronta com todos os outros candidatos. Ciro teria 38% das intenções
de voto, contra 47% de Lula. Daria mais trabalho do que José Serra,
que obteria apenas 34%, enquanto Lula cresceria para 49% dos votos (veja
quadros). Não pára por aí. Ciro é
o candidato com a menor taxa de rejeição do eleitorado
somente 14% declaram que não votariam nele de jeito nenhum. Lula
tem o dobro desse porcentual e Serra quase isso.
A subida
de Ciro Gomes nas pesquisas não surpreende quem acompanha com lupa
o quebra-cabeça da eleição. "Era um último
ato previsível dessa longa pré-campanha. Todos os candidatos
passaram pela experiência de um crescimento vertiginoso por causa
dos programas eleitorais na TV", afirma o cientista político Marcos
Coimbra, um dos donos do Vox Populi. Foi isso que, num dado momento, alavancou
Roseana Sarney e turbinou as campanhas de Serra e de Garotinho. O ex-governador
do Rio, aliás, chegou a passar Serra seis meses atrás e
hoje está aninhado num modesto quarto lugar. "O efeito propaganda
de televisão é insuperável para levantar campanhas",
afirma o sociólogo e especialista em pesquisas Antônio Lavareda,
que integra o time do candidato do governo. Mesmo assim, não se
pode duvidar da vantagem obtida agora por Ciro, graças a uma jogada
ousada de sua campanha. Ainda no ano passado, quando os partidos agendaram
suas aparições na televisão, o coordenador-geral
da campanha da Frente Trabalhista, o deputado federal José Carlos
Martinez, do PTB, escolheu o mês de junho para mostrar seu candidato.
Avaliava, na época, que precisaria de mais tempo para costurar
um arco de alianças complicado. De um jeito ou de outro, deu certo.
Com todos os concorrentes já tendo feito suas inserções
e capitalizado preferências do eleitor, conseguiu-se que Ciro fosse
o último a dar sua arrancada. Posicionou-se entre os primeiros
colocados e, como se encerrou a fase dos comerciais de televisão,
dificilmente algum outro candidato poderá mudar abruptamente de
patamar até o início dos programas eleitorais gratuitos,
em agosto.
Pesou também
a favor de Ciro o que os analistas de pesquisa chamam de "efeito Patrícia
Pillar". Os institutos captaram que a atriz é identificada pelo
público como uma mulher aguerrida, que lutou contra a doença
com coragem. Apesar do câncer de mama, nunca escolheu a reclusão.
Raspou o cabelo antes de os efeitos da quimioterapia aparecerem e se expôs.
Há também o fato de que boa parte de seus papéis
de destaque na Rede Globo esteve associada de alguma forma a causas sociais.
E, como se não bastasse, ela é linda. Quando o PSDB recorreu
à Justiça Eleitoral para proibir as aparições
de Ciro na televisão, alegando que o candidato feria a legislação,
entregou o ouro ao inimigo. Patrícia entrou em seu lugar. Um dos
motes dos comerciais era: "Eles não querem que você saiba
que o Ciro tem competência para transformar seus sonhos em realidade",
dizia a atriz, cuja imagem se revezava no vídeo com uma foto do
marido. "Desde o início da campanha, todos na equipe estavam loucos
para colocá-la no ar. Só não podíamos fazer
isso porque não tínhamos uma justificativa para o eleitor",
admite o marqueteiro da Frente Trabalhista, Einhart Jacome. A transferência
de popularidade para Ciro foi imediata, pois metade dos eleitores reconhece
Patrícia como sua mulher.
Estabelecido
o patamar com que dá a largada na disputa, o desafio de Ciro agora
é afinar o discurso. Entre os integrantes de sua campanha, ilustra-se
esse problema com um diálogo que o presidenciável teve com
o banqueiro Olavo Setúbal, há dois meses. Na conversa, Setúbal
disse a Ciro que não tinha medo de Lula. Ciro quis saber o porquê.
"Porque ele não vai mudar nada do que está aí", respondeu
Setúbal. "O senhor acha mesmo?", retrucou Ciro. "Acho. Eu tenho
medo é de você." O alerta não o assustou. Assumir
abertamente o discurso da mudança é o atalho que o candidato
pretende tomar para crescer nas pesquisas e chegar ao segundo turno. Outro
levantamento recente do Vox Populi captou um aumento do porcentual de
eleitores que gostariam que o próximo governo mudasse completamente
de rumo. "Ainda não é, como nunca foi, uma parcela majoritária.
Mas aumentou, sim, nas últimas semanas", afirma Marcos Coimbra.
Entre as
causas de insatisfação estão os aumentos de energia
elétrica e de combustíveis, eternas fontes de impopularidade,
além do transtorno causado pela instabilidade dos mercados. Ciro
quer entrar nesse filão. Serra é identificado como o candidato
da continuidade. Lula se posiciona como quem produzirá a mudança,
mas ainda não se livrou da imagem do radicalismo petista. Ciro
quer se assumir como a única opção para os insatisfeitos.
"Grosso modo, 25% do eleitorado está com Lula, sua faixa histórica
consolidada. Outros 25% estão com FHC e por conseqüência
com o candidato do governo, José Serra. O restante não quer
nenhum dos dois. É esse eleitor que queremos trazer para o nosso
lado", disse Ciro Gomes a VEJA.
Programa
de governo Um dos problemas do discurso do candidato da Frente
Trabalhista repousa nas páginas do esboço de programa de
governo que vem anunciando. A crítica mais freqüente que muitos
fazem refere-se à proposta de renegociação da dívida
interna do país. "Em qualquer lugar do mundo isso se chama calote",
afirma o economista Raul Velloso. Não é o único ponto
polêmico. No tópico sobre renda do trabalho, fala em desvincular
o salário mínimo dos "salários superiores do serviço
público e das altas aposentadorias da Previdência". O problema,
no caso, é que não há lei no país que faça
essa vinculação.
O autor
dessas propostas tem, contudo, um currículo robusto. Ciro Gomes,
44 anos, foi prefeito de Fortaleza aos 31 anos, tornando-se o mais jovem
prefeito de uma capital. Ao deixar o cargo, tinha 77% de aprovação.
Embalado pelo sucesso, tornou-se governador do Ceará. Coroou essa
carreira sendo ministro da Fazenda no governo de Itamar Franco, durante
a implantação do Plano Real. Nascido em Pindamonhangaba,
no interior de São Paulo, foi criado em Sobral, no Ceará,
onde sua família participa da política há mais de
100 anos. O namoro com Patrícia Pillar começou tímido
e se tornou mais conhecido após a doença da atriz. O jeito
contundente de falar e a clareza com que se posiciona sobre qualquer tema
dão ao candidato uma aura de firmeza. Em entrevistas, o adversário
José Serra já o comparou ao ex-presidente Fernando Collor
de Mello, uma associação que deixa Ciro indignado. Com Collor
tem três semelhanças: é jovem, bem-apessoado e governou
um Estado nordestino. Na semana passada, Ciro tachou Serra de "fascistóide"
e a briga entre os dois tende a se aprofundar. "Na equipe do Serra, a
grande paranóia hoje é o Ciro", admitiu a VEJA um tucano
que sobrevoou o comitê do PSDB na semana passada.
O que está
por trás dessa hostilidade não são apenas os números
das pesquisas eleitorais. Ciro tem incomodado, principalmente, porque
está fazendo crescer sua base de apoio. Abocanhou alguns pedaços
do PFL, incluindo o da Bahia de Antonio Carlos Magalhães. Mas Ciro
quer atrair mais, e parece disposto a pagar o preço da incoerência.
A primeira, aliás, foi a aliança com o PTB, uma sigla mais
conhecida por seu fisiologismo. O partido comandado pelos deputados federais
e ex-colloridos José Carlos Martinez e Roberto Jefferson largou
as tetas do governo para formalizar uma aliança nacional com PPS
e PDT sim, não se deve esquecer que debaixo do arco de Ciro
também cabe o ex-governador Leonel Brizola.
Os últimos
resultados animam Ciro a continuar conversando com setores do PFL que
não querem Serra, mas estavam sem opção. Na semana
passada mesmo, Ciro teve uma reunião com o senador Jorge Bornhausen
para tentar agrupar os pefelistas desgarrados em torno de sua candidatura.
O próprio Bornhausen ficou de acertar-se com os membros da Frente
Trabalhista na disputa em Santa Catarina, onde o PSDB fechou com o PMDB
e isolou o PFL. Em Minas Gerais, o PFL acabou indicando o candidato a
vice-governador na chapa dos tucanos. O único lugar onde Ciro tem
o PSDB nas mãos é, sem surpresa alguma, o Ceará do
amigo Tasso Jereissati. Foi Tasso quem guindou Ciro à prefeitura
de Fortaleza e depois o apoiou como seu sucessor no governo estadual.
O relacionamento dos dois foi e continua ótimo. Em junho, Ciro
apareceu quatro vezes no programa eleitoral do PSDB do Ceará. O
PPS de Ciro e o PSDB têm uma aliança informal no Estado.
Recentemente, repórteres perguntaram a Tasso em quem afinal ele
vai votar para a Presidência. "Sou bígamo", disse o ex-governador
cearense, sem esconder a quem pertence seu coração.
Números
de pesquisas eleitorais devem ser sempre vistos com algum cuidado. Primeiro,
porque refletem somente uma intenção momentânea do
eleitor, que pode ainda não ter realmente se decidido. É
na campanha, que começa agora, que o eleitor irá definir
suas preferências. E Serra terá uma vantagem competitiva.
Além de contar com uma estrutura maior, terá mais que o
dobro do tempo de Ciro na televisão durante o horário eleitoral
gratuito, que começa em 20 de agosto e este, sim, é
o grande palco da eleição.
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