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Edição 1 759 - 10 de julho de 2002
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Ciro alcança José Serra

O ex-governador sobe em pesquisa
do Vox Populi, empata com Serra
e acirra uma disputa que parecia
definir-se entre PT e PSDB

Ronaldo França e Maurício Lima


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Reportagem de 1/9/1999: a cara da nova oposição

A campanha presidencial, que começa oficialmente nesta semana, vinha morna. A polarização entre Luís Inácio Lula da Silva e José Serra parecia sacramentada. A três meses da eleição, coube ao candidato da Frente Trabalhista, Ciro Gomes, avançar nas intenções de voto e bagunçar a previsibilidade do jogo eleitoral. Uma pesquisa do Instituto Vox Populi, feita na semana passada, pôs Ciro 1 ponto porcentual à frente de José Serra, com 18% das intenções de voto. No jargão dos institutos de pesquisa, trata-se de um empate técnico. A diferença entre os dois está dentro da margem de erro da pesquisa, que é de 2,2%. Na prática, significa que ninguém mais pode afirmar quem está em segundo lugar na disputa. Para os que já enxergavam Lula e Serra com passagem carimbada para o segundo turno, é uma mexida e tanto.

O tamanho dessa mudança fica claro quando são analisados os votos espontâneos, aqueles em que o eleitor cita o candidato sem uma lista a orientá-lo. Nessa modalidade, Ciro aparece com 12% das intenções de voto, 3 pontos à frente de Serra. Suas chances podem ser medidas também pelo desempenho nas simulações de segundo turno. O Vox Populi perguntou aos eleitores em quem votariam, caso as eleições fossem hoje, e apresentou cenários em que Lula se confronta com todos os outros candidatos. Ciro teria 38% das intenções de voto, contra 47% de Lula. Daria mais trabalho do que José Serra, que obteria apenas 34%, enquanto Lula cresceria para 49% dos votos (veja quadros). Não pára por aí. Ciro é o candidato com a menor taxa de rejeição do eleitorado – somente 14% declaram que não votariam nele de jeito nenhum. Lula tem o dobro desse porcentual e Serra quase isso.

A subida de Ciro Gomes nas pesquisas não surpreende quem acompanha com lupa o quebra-cabeça da eleição. "Era um último ato previsível dessa longa pré-campanha. Todos os candidatos passaram pela experiência de um crescimento vertiginoso por causa dos programas eleitorais na TV", afirma o cientista político Marcos Coimbra, um dos donos do Vox Populi. Foi isso que, num dado momento, alavancou Roseana Sarney e turbinou as campanhas de Serra e de Garotinho. O ex-governador do Rio, aliás, chegou a passar Serra seis meses atrás e hoje está aninhado num modesto quarto lugar. "O efeito propaganda de televisão é insuperável para levantar campanhas", afirma o sociólogo e especialista em pesquisas Antônio Lavareda, que integra o time do candidato do governo. Mesmo assim, não se pode duvidar da vantagem obtida agora por Ciro, graças a uma jogada ousada de sua campanha. Ainda no ano passado, quando os partidos agendaram suas aparições na televisão, o coordenador-geral da campanha da Frente Trabalhista, o deputado federal José Carlos Martinez, do PTB, escolheu o mês de junho para mostrar seu candidato. Avaliava, na época, que precisaria de mais tempo para costurar um arco de alianças complicado. De um jeito ou de outro, deu certo. Com todos os concorrentes já tendo feito suas inserções e capitalizado preferências do eleitor, conseguiu-se que Ciro fosse o último a dar sua arrancada. Posicionou-se entre os primeiros colocados e, como se encerrou a fase dos comerciais de televisão, dificilmente algum outro candidato poderá mudar abruptamente de patamar até o início dos programas eleitorais gratuitos, em agosto.

Pesou também a favor de Ciro o que os analistas de pesquisa chamam de "efeito Patrícia Pillar". Os institutos captaram que a atriz é identificada pelo público como uma mulher aguerrida, que lutou contra a doença com coragem. Apesar do câncer de mama, nunca escolheu a reclusão. Raspou o cabelo antes de os efeitos da quimioterapia aparecerem e se expôs. Há também o fato de que boa parte de seus papéis de destaque na Rede Globo esteve associada de alguma forma a causas sociais. E, como se não bastasse, ela é linda. Quando o PSDB recorreu à Justiça Eleitoral para proibir as aparições de Ciro na televisão, alegando que o candidato feria a legislação, entregou o ouro ao inimigo. Patrícia entrou em seu lugar. Um dos motes dos comerciais era: "Eles não querem que você saiba que o Ciro tem competência para transformar seus sonhos em realidade", dizia a atriz, cuja imagem se revezava no vídeo com uma foto do marido. "Desde o início da campanha, todos na equipe estavam loucos para colocá-la no ar. Só não podíamos fazer isso porque não tínhamos uma justificativa para o eleitor", admite o marqueteiro da Frente Trabalhista, Einhart Jacome. A transferência de popularidade para Ciro foi imediata, pois metade dos eleitores reconhece Patrícia como sua mulher.

Estabelecido o patamar com que dá a largada na disputa, o desafio de Ciro agora é afinar o discurso. Entre os integrantes de sua campanha, ilustra-se esse problema com um diálogo que o presidenciável teve com o banqueiro Olavo Setúbal, há dois meses. Na conversa, Setúbal disse a Ciro que não tinha medo de Lula. Ciro quis saber o porquê. "Porque ele não vai mudar nada do que está aí", respondeu Setúbal. "O senhor acha mesmo?", retrucou Ciro. "Acho. Eu tenho medo é de você." O alerta não o assustou. Assumir abertamente o discurso da mudança é o atalho que o candidato pretende tomar para crescer nas pesquisas e chegar ao segundo turno. Outro levantamento recente do Vox Populi captou um aumento do porcentual de eleitores que gostariam que o próximo governo mudasse completamente de rumo. "Ainda não é, como nunca foi, uma parcela majoritária. Mas aumentou, sim, nas últimas semanas", afirma Marcos Coimbra.

Entre as causas de insatisfação estão os aumentos de energia elétrica e de combustíveis, eternas fontes de impopularidade, além do transtorno causado pela instabilidade dos mercados. Ciro quer entrar nesse filão. Serra é identificado como o candidato da continuidade. Lula se posiciona como quem produzirá a mudança, mas ainda não se livrou da imagem do radicalismo petista. Ciro quer se assumir como a única opção para os insatisfeitos. "Grosso modo, 25% do eleitorado está com Lula, sua faixa histórica consolidada. Outros 25% estão com FHC e por conseqüência com o candidato do governo, José Serra. O restante não quer nenhum dos dois. É esse eleitor que queremos trazer para o nosso lado", disse Ciro Gomes a VEJA.

Programa de governo – Um dos problemas do discurso do candidato da Frente Trabalhista repousa nas páginas do esboço de programa de governo que vem anunciando. A crítica mais freqüente que muitos fazem refere-se à proposta de renegociação da dívida interna do país. "Em qualquer lugar do mundo isso se chama calote", afirma o economista Raul Velloso. Não é o único ponto polêmico. No tópico sobre renda do trabalho, fala em desvincular o salário mínimo dos "salários superiores do serviço público e das altas aposentadorias da Previdência". O problema, no caso, é que não há lei no país que faça essa vinculação.

O autor dessas propostas tem, contudo, um currículo robusto. Ciro Gomes, 44 anos, foi prefeito de Fortaleza aos 31 anos, tornando-se o mais jovem prefeito de uma capital. Ao deixar o cargo, tinha 77% de aprovação. Embalado pelo sucesso, tornou-se governador do Ceará. Coroou essa carreira sendo ministro da Fazenda no governo de Itamar Franco, durante a implantação do Plano Real. Nascido em Pindamonhangaba, no interior de São Paulo, foi criado em Sobral, no Ceará, onde sua família participa da política há mais de 100 anos. O namoro com Patrícia Pillar começou tímido e se tornou mais conhecido após a doença da atriz. O jeito contundente de falar e a clareza com que se posiciona sobre qualquer tema dão ao candidato uma aura de firmeza. Em entrevistas, o adversário José Serra já o comparou ao ex-presidente Fernando Collor de Mello, uma associação que deixa Ciro indignado. Com Collor tem três semelhanças: é jovem, bem-apessoado e governou um Estado nordestino. Na semana passada, Ciro tachou Serra de "fascistóide" e a briga entre os dois tende a se aprofundar. "Na equipe do Serra, a grande paranóia hoje é o Ciro", admitiu a VEJA um tucano que sobrevoou o comitê do PSDB na semana passada.

O que está por trás dessa hostilidade não são apenas os números das pesquisas eleitorais. Ciro tem incomodado, principalmente, porque está fazendo crescer sua base de apoio. Abocanhou alguns pedaços do PFL, incluindo o da Bahia de Antonio Carlos Magalhães. Mas Ciro quer atrair mais, e parece disposto a pagar o preço da incoerência. A primeira, aliás, foi a aliança com o PTB, uma sigla mais conhecida por seu fisiologismo. O partido comandado pelos deputados federais e ex-colloridos José Carlos Martinez e Roberto Jefferson largou as tetas do governo para formalizar uma aliança nacional com PPS e PDT – sim, não se deve esquecer que debaixo do arco de Ciro também cabe o ex-governador Leonel Brizola.

Os últimos resultados animam Ciro a continuar conversando com setores do PFL que não querem Serra, mas estavam sem opção. Na semana passada mesmo, Ciro teve uma reunião com o senador Jorge Bornhausen para tentar agrupar os pefelistas desgarrados em torno de sua candidatura. O próprio Bornhausen ficou de acertar-se com os membros da Frente Trabalhista na disputa em Santa Catarina, onde o PSDB fechou com o PMDB e isolou o PFL. Em Minas Gerais, o PFL acabou indicando o candidato a vice-governador na chapa dos tucanos. O único lugar onde Ciro tem o PSDB nas mãos é, sem surpresa alguma, o Ceará do amigo Tasso Jereissati. Foi Tasso quem guindou Ciro à prefeitura de Fortaleza e depois o apoiou como seu sucessor no governo estadual. O relacionamento dos dois foi e continua ótimo. Em junho, Ciro apareceu quatro vezes no programa eleitoral do PSDB do Ceará. O PPS de Ciro e o PSDB têm uma aliança informal no Estado. Recentemente, repórteres perguntaram a Tasso em quem afinal ele vai votar para a Presidência. "Sou bígamo", disse o ex-governador cearense, sem esconder a quem pertence seu coração.

Números de pesquisas eleitorais devem ser sempre vistos com algum cuidado. Primeiro, porque refletem somente uma intenção momentânea do eleitor, que pode ainda não ter realmente se decidido. É na campanha, que começa agora, que o eleitor irá definir suas preferências. E Serra terá uma vantagem competitiva. Além de contar com uma estrutura maior, terá mais que o dobro do tempo de Ciro na televisão durante o horário eleitoral gratuito, que começa em 20 de agosto – e este, sim, é o grande palco da eleição.
 
 

 

   
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