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Não se pode nem torcer em paz
O fato de
Copa e eleição estarem fadadas
a coincidir para sempre tem efeitos perversos
Rivaldo passa
para Giovanni. Giovanni para Denilson. Denilson avança
pela esquerda, dribla um, dois. Dribla o goleiro, cruza,
deixa Fernando Henrique Cardoso na boca do gol. Este só
tem o trabalho de tocar a bola e... gooool. Gol de
Fernando Henrique Cardoso.
Júnior Baiano
para Aldair. Aldair não tem para quem passar e atrasa.
Atrasa mal! Taffarel corre, mas não alcança. Os dois se
atrapalham e a bola vai entrando... vai entrando de
mansinho no gol do Brasil. É gol contra... Goool de
Lula.
Mexeu-se na
fórmula da eleição presidencial à exaustão, nos
últimos anos. De indireta passou a direta. Instituiu-se
o segundo turno. No tamanho do mandato, então, mexeu-se
mais do que sanfoneiro no tamanho da sanfona. Foi
encompridado (para Sarney), encolhido (para
Collor/Itamar), dobrado (para eventual usufruto de
Fernando Henrique Cardoso). Tanto se fez que se
imaginaria enfim perfeito o modelo, ajustado às
necessidades do país como paletó talhado pelo alfaiate
mais caprichoso da cidade. Vai-se examinar a questão
mais de perto, no entanto, e percebe-se que foi cometido
um erro palmar: fez-se a eleição coincidir com Copa do
Mundo. Confundiu-se Zagallo com ACM, Ronaldinho com Lula,
João Pedro Stedile com Ricardo Teixeira, todos enredados
na mesma armadilha do calendário. Misturou-se bola com
faixa presidencial.
Isso só tinha
acontecido uma vez, na História do país, antes do atual
regime constitucional. Foi em 1950, e os bons
entendedores já adivinhariam aí um sinal de mau agouro.
O Brasil, naquele ano, não só conheceu aquele que será
sempre o maior desastre futebolístico de sua História
a derrota para o Uruguai, no Maracanã como
elegeu um presidente que acabaria se suicidando. Só
tinha acontecido uma vez, e agora vai acontecer sempre. A
menos que a Fifa ou a Constituição brasileira, uma das
duas, altere seu passo, estamos condenados, até o fim
dos tempos, como já ocorreu em 1994 e como ocorre agora
em 1998, a ter Copa do Mundo e eleição presidencial no
mesmo ano.
Qual o problema? O
problema é que não se pode torcer em paz. Os
brasileiros mais sensíveis não puderam torcer em paz em
1970. Não havia eleição presidencial naquele ano. Na
verdade, não havia à época perspectiva de eleição
presidencial em ano algum. Mas havia algo mais importante
em jogo a segurança e longevidade de um regime no
auge de sua arbitrariedade e violência. Não se ignorava
que, vencida a Copa, o general de plantão se enrolaria
na bandeira e faria a macaquice que fosse necessária,
até ensaiar embaixadas com os campeões, no Palácio do
Planalto, para reforçar a identificação entre sucesso
no gramado e sucesso do governo. Por isso, os brasileiros
mais sensíveis torceram contra. E condenaram-se a um
duplo tormento o sentimento de culpa, por um lado,
num país em que a seleção de futebol é um dos
símbolos da pátria, e torcer contra é como vaiar o
hino ou rasgar a bandeira, e, por outro, a vacuidade de
torcer contra o timaço de Pelé e Tostão, Gérson e
Rivelino, um esforço tão sem esperança quanto torcer
contra os Estados Unidos na guerra contra a ilha de
Granada.
Em 1970,
registrou-se um caso extremo. Tão extrema quanto a
ruindade do regime era a excelência da seleção. Ó,
combinação cruel. Mas mesmo com o país apaziguado, ou
mais ou menos apaziguado, como hoje, acomodado aos
trilhos da rotina democrática, vive-se assustado com os
estragos que o futebol pode projetar na política. Em
1994, as pessoas envolvidas com o planejamento e
execução do Plano Real torciam com todas as forças
para o Brasil ganhar a Copa. Mesmo aqueles que se
interessavam tão pouco por futebol que, como a grã-fina
de Nelson Rodrigues, perguntariam, ao entrar num
estádio, "Quem é a bola?", mesmo estes se
converteram em fanáticos de Romário e viravam os olhos,
enternecidos, quando Bebeto fazia seu gesto de embalar
bebê. Lembre-se que a nova moeda foi lançada no dia 1º
de julho, em pleno curso da Copa dos Estados Unidos.
Seria diferente a sorte do real se o Brasil tivesse
perdido?
Essa pergunta
equivale a uma outra: o futebol tem realmente a
influência que se imagina, na política? Talvez a
solidez do regime militar continuasse tal e qual se o
Brasil tivesse perdido em 1970. Talvez não se alterasse
a sorte do real se tivesse perdido em 1994. Mas o fato é
que, em 1986, a derrota do Brasil coincidiu com o
fracasso do Plano Cruzado e, em 1990 para ficar
nos planos econômicos , com o desastre do Plano
Collor. Pelo sim, pelo não, recomenda-se não desprezar
a idéia de que, sendo o regulador por excelência do
moral nacional, atirando-o para cima ou para baixo
conforme se sucedem as vitórias ou derrotas, o futebol
pode facilitar ou dificultar as coisas, para o governo ou
a oposição. É por isso que não se pode torcer em paz.
Tem-se sempre a impressão de que se está servindo a
algo mais, ou a alguém mais, além de à glória da
camisa amarela. Um cruzamento de Denilson pode resultar
em gol de Fernando Henrique. Uma atrasada de bola de
Aldair pode fazer a festa de Lula.

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